terça-feira, 20 de junho de 2017

Outro teste

Há uma semana fui participar de um teste para um musical. Ao chegar lá, quase voltei: vi que era a mesma equipe de um teste traumático que eu fizera em 2014, para o qual havia esperado cerca de cinco horas apenas para ser ouvida (ou quase ouvida: um dos membros da banca dormiu, o que entendo perfeitamente – se eu estava cansada, ele estava ainda mais, tendo que avaliar tantas pessoas há tantas horas –, mas sem dúvidas isso deixou a conjuntura ainda pior). Pois é, sou tão bissexta* nesse lance de teste que não me ligo no nome das produtoras e das equipes, então dei o mole de ir num teste organizado pela mesma equipe que havia deixado a mim e a várias outras pessoas esperando por cinco horas.
              (*Digo que sou bissexta porque só devo ter feito uns quatro testes para musical na vida.)
Me saí pessimamente mal no teste. Cantei uma linda música, mas havia ensaiado pouco (a tal da falta de tempo que, quando a gente quer mesmo, a gente dribla) e, é claro, exatamente por não estar preparada, fiquei nervosa. Mas antes mesmo de entrar na sala para cantar – dessa vez a espera foi de duas horas – eu já estava pensando no quanto aquele ali não era um ambiente no qual eu me sentia bem. Não digo isso pelas pessoas (até fiz uma amizade lá), mas pela inevitável atmosfera de competição. Não dá para ignorar o fato de que apenas alguns entrarão e muitos ficarão de fora. Mas não fui embora por saber que, se o fizesse, eu ficaria muito decepcionada comigo mesma por não ter nem tentado. [obs.: teria sido muito melhor ter ido embora.]  
Na espera para o teste, naquele ambiente apinhado de atores e cheio de tensão, lembrei muito de um papo que tive com uma amiga compositora, há alguns meses. Estávamos conversando sobre nossos trabalhos e falamos sobre a questão dos festivais competitivos. Ela me disse que não gostava e não queria, de jeito nenhum, participar de festivais. Não gostava da tal atmosfera de comparações e não gostava da forma como os participantes acabavam se portando (infelizmente embarcando em um clima de disputa). Essa compositora consegue manter seu trabalho de forma autossustentável, pois alia suas metas à sua realidade financeira. Mas ver, frequentemente, vários amigos próximos ganhando grana em festivais não fez com que ela se convencesse de que o mundo festivaleiro fosse uma boa. Lembrei muito dela durante a espera para aquele teste. Pensei por que diabos eu estava desrespeitando minha ideologia ao participar de algo que eu não concordava (e não tinha nem a desculpa de estar fazendo isso pela primeira vez, só para saber como era).
Fui tão mal no teste de canto que não fiquei para fazer a cena de dança ou de interpretação. (Aliás, mais uma crítica: embora geralmente estivessem avisando, como testemunhei, a cada ator se o mesmo estava liberado ou não, a mim não disseram nada quando saí da sala. Fiquei esperando uns quinze minutos ali, bem na frente dos assistentes, e nem tchuns. Quando finalmente perguntei – a gente evita perguntar para não ficar enchendo o saco, né? – a resposta foi que sim, eu já estava liberada. Se eu não perguntasse, quanto tempo teria ficado até que alguém se lembrasse de me dar uma avisadinha básica?) Fiquei estranhamente feliz por ir embora mais cedo do que esperava, sentindo-me aliviada por sair dali, e com mais material para me pensar como artista. Voltei para casa elucubrando sobre o quanto havia sido desnecessário me dispor a ir, voluntariamente, a um ambiente onde fico tão estressada que acabo cantando mal uma canção relativamente fácil de cantar.  
Mas acontece que sou uma amante das artes cênicas, e procuro sempre estar colocando esse meu lado teatral em ação. Os testes, apesar de péssimos, podem proporcionar essa vivência incrível no teatro sem que se precise fazer parte de uma companhia (algo muito bacana, porém companhias implicam um longo e sério compromisso, difícil para quem já se dedica a outra área artística – há quem consiga, eu ainda não). Eu desejei passar para cada um dos quatro testes que fiz na vida. E certamente essa peça será uma experiência linda para os atores e músicos que fizerem parte do elenco. E espero algum dia ainda fazer um espetáculo musical, mas consegui ver que, para que isso aconteça, o processo tem que acontecer de outro jeito. Talvez em produções menores, menos comerciais... Senão – novamente – pisarei nas minhas ideologias e crenças: se sou tão contra a competição, que faço eu em um ambiente onde a tônica é claramente ver “quem são os melhores”?
(Fiz ano passado um teste para outro musical – na verdade foi o único teste no qual eu acho que de fato me saí bem cantando – e ali todo o processo foi bonito e generoso. Em nenhum momento me senti desconfortável, e diria que nem havia clima para que nenhum dos participantes se sentisse assim. Espero que essa produtora continue fazendo muitos espetáculos e que algum dia eu faça parte de alguma montagem, pois ali, sim, não me desrespeitei nem um pouco – apenas cresci com a experiência. Talvez seja possível um ambiente de avaliação saudável, no fim das contas...)
               Finalizando, lembrei do musical Quando toca o coração, da amiga Virginia Maria, que vi no final de 2014. Fiquei muito feliz por ela, que fez uma campanha de arrecadamento coletivo e colocou um objetivo em prática, sem ficar esperando que algum dia alguém lhe desse uma “chance” para fazer o que queria. Ver sua peça me inspirou desde o primeiro dia, mas depois desse meu teste a admirei ainda mais, por ter criado para si a oportunidade de cantar e atuar. Quem sabe não é essa a solução?

segunda-feira, 5 de junho de 2017

As viagens, os outros


Passei a limpo hoje um diário de viagens. Desde fevereiro eu estava com estas anotações pendentes, e finalmente passei tudo para um caderninho mais adequado. Acabei relembrando muito do que vi e senti naquelas duas semanas de viagem.
Aí, recordando de tanta coisa, pensei no quanto viajar é bom. Mas, principalmente, lembrei algo que compreendi há não muito tempo: viajar não tem nada a ver com vangloriar-se, mas sim com ter noção do quão pequeno se é.
Em 2015, quando conheci a Alemanha, vi isso claramente. Não falo alemão, e desde o primeiro momento em que o motorista do ônibus do aeroporto se deu ao trabalho de falar em inglês comigo, entendi que enquanto eu ficasse naquele país eu estaria simplesmente contando com a boa vontade das pessoas. E um ano depois, em outra ocasião, percebi que em outros países geralmente não levamos conosco toda aquela legitimidade que o próprio país, a própria cidade, nos dão. Os amigos e a família não estão presentes, não podem atestar quem somos (e a gente quer esse atestado sempre que possível – vai que alguém duvida de nossa bondade e ótimo caráter?). Viajar é um pouco zerar todas as informações importantíssimas – leia-se: inúteis – sobre nós. Então fora de minha zona de conforto eu sou quase isso: um zero ambulante. 
Entendi, com o tempo, que viajar para outro país não te faz melhor que ninguém. Ironicamente, às vezes pode te fazer um pouco pior, se você usar estas experiências para diminuir outras pessoas.
Embora a situação tenha melhorado e muitos brasileiros tenham conseguido ir para o exterior pela primeira vez nos últimos anos (até quando isso vai durar? Porque está difícil, para alguns, dividir avião com gente pobre... Ai, Danuza Leão, vai ser difícil esquecer a patacoada que você falou! Ai, golpistas, eu sei que dói e que vocês vão fazer de tudo para que os anos 90 voltem com toda a força...), falar sobre viagens – nacionais e internacionais – ainda é algo que pode causar desconforto, por parecer arrogância. Eu me sinto estranha ao falar disso, mas vejo o quanto é importante. Todos deveriam ter o direito de viver essas experiências e de falar sobre elas. 
Lembrei, também, do quanto aprendemos em viagens, e do quanto ficamos bem mais atentos a novas percepções. As ideias não escapam tanto, acho... Parece que se fixam mais, parece que nossos sentidos estão mais “acesos”, conectados. Será por estarmos mais embevecidos, felizes? Daí esse encanto deixa tudo mais fácil...? Talvez.
Certamente foi por embevecimento que, em 2015, escrevi uma canção, “Portobello Road”, para a rua homônima. Andando por essa região de Londres, a música “Nine out of ten”, de Caetano, não saía de minha cabeça. Quando vi o Electric Cinema, então, o volume da canção aumentou ainda mais. Chegando ao Brasil, vi meu diário de viagem e as anotações que eu havia feito sobre Londres e seus personagens. Gostei de citar Gil (“Back in Bahia”) e Caê em uma só canção, e poder misturar tudo isso à felicidade que senti por estar em um país que eu sonhava conhecer desde os 12 anos – Oasis, Blur e várias outras bandas britânicas haviam despertado em mim esse fascínio pela Inglaterra.
Ainda não cantei em outros países com meu trabalho solo, na verdade ainda mal saí do Rio com ele. Mas quero muito, pois viajar e cantar é a união perfeita de duas coisas que adoro. Na verdade, ultimamente tenho me sentido mais animada a viajar se for para cantar – embora dê bem mais trabalho.
Falando nisso, no livro Teatro Oficina: onde a arte não dormia, Ítala Nandi conta sobre a viagem que o grupo Oficina fez a Paris, em 1968, para uma temporada de O rei da vela – às próprias custas. Adoro o trecho em que Ítala fala: “(...) aquela viagem estava nos custando todas as economias. Estávamos seguindo a teoria de Zé Celso – ‘é preciso arriscar’ –, que nós todos assinávamos embaixo. Viajar era sagrado, e não é a toda hora que acontece uma chance dessas.” Adorei tudo nesse depoimento: o risco, o sagrado e a oportunidade. Aliás, o livro todo é inspirador e recomendo muito [obs.: eles estavam em Paris em maio de 68!].
Ao mesmo tempo, penso que não podemos, de jeito nenhum, ceder a qualquer tipo de pressão. Se não gostamos de viajar, que não viajemos. Diversão não pode ser protocolar, nunca. (E ninguém deveria estranhar quem não curte pegar a estrada – é uma mera questão de gosto.)
Aliás, Paulo Leminski e Fernando Pessoa são grandes exemplos de pessoas incríveis que se deslocaram relativamente pouco. Será que eles precisavam viajar? Para criar, certamente que não, e suas obras atestam isso muito bem. Pessoa, inclusive, abordou o assunto “viagem” como poucos escritores o fizeram, não tendo saído muito, durante a vida adulta, de sua querida Lisboa.
Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. Sentir tudo de todas as maneiras.” (Pessoa/Álvaro de Campos)


P.S.: London, London... Como é irônico mencionar, agora, a paz que você me trouxe há menos de dois anos.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Outras farsas

Anteontem fui ver um vídeo cujo link me chegou por e-mail. Era o trailer do filme The inertia variations, um documentário sobre Matt Johnson, vocalista do The The. Fiquei impressionada com aquela amostra do filme: não sabia, não fazia a menor ideia, de que Matt, grande compositor, vocalista e guitarrista, estava vivendo um bloqueio criativo há 15 anos. Pensava que, mesmo não lançando nada há tempos, ele devia estar muito bem, fazendo suas belas canções em casa, sem pressão nenhuma – exatamente por já ter vendido milhões de discos e não precisar se preocupar em sobreviver de música. Mas o trailer inicia com a voz de Matt, em um monólogo: “‘Faça algo’, eu digo a mim mesmo. ‘O quê?’, ‘A mesma coisa que venho fazendo todos os dias, há anos, alcançando diferentes graus de insucesso...’” Foi bem significativo ver um músico que admiro tanto, aparentemente tão poderoso, falando sobre o quanto anda se sentindo frágil – há 15 anos...
Nesse mesmo dia, o ator e cantor Dudu Carneiro compartilhou no Facebook algo muito interessante, que uma amiga também atriz havia escrito:

Pensando no sobre fazer teatro, me deu uma tristeza ao perceber que ninguém se diverte mais. Tá todo mundo querendo acertar de primeira, ninguém se permite rir de um erro de marca ou texto, ninguém sai junto, não tem mais aquele ir embora junto, a pé, falando sobre os medos, a estética, a sensação de não conseguir fazer o que o diretor quer. Tá todo mundo endurecido, fechado, fingindo não ter dúvida, fingindo não ter conflitos. (...)

Os comentários desta postagem foram muito bacanas e expressaram bem esta solidão nada positiva que vez ou outra sentimos em um mundo cheio de cobranças de perfeição... Um dos que mais me tocou foi este: “Sinto falta de poder demonstrar sem pudores que estou com medo de não dar conta”, disse uma das colegas de Dudu. Me fez recordar a frase “porque quando sou fraco, então é que sou forte”, tão boa para refletirmos, sempre.
A pergunta é: quando vamos admitir que estamos com medo? Quando deixará de ser vergonha assumirmos que falhamos? Quando vamos rir de nossos próprios erros, de nossa própria vergonha, como o fazem os palhaços?
Lembro-me de um show de Cátia de França, no Sesc Niterói, em 2011. Além da musicalidade impressionante de Cátia (uma força xamânica em cena), amei ver que a emoção dela é tanta, e que há tanta entrega em seu canto, que seus erros não são nem disfarçados: “desculpe”, ela diz, no meio de uma canção, e segue. Essas “falhas” acabam sendo um diferencial no show dela. É gostoso ver aquele espetáculo artisticamente impecável, e tão assumidamente imperfeito.
Voltando a Matt Johnson, não sei por que razão o músico anda bloqueado – talvez vendo o filme todo eu consiga saber. Mas desconfio que tenha a ver com essa pressão interna, mesmo; essa obrigação de ter sempre um toque de Midas (uma vez sucesso, sucesso sempre; ou então ganha-se a pecha de fracasso retumbante), cantar perfeitamente, compor aquele mesmo hit que você já fez, sabe?, só que de outra forma, sabe-se lá como...
Para completar, também no mesmo dia – anteontem – vi à noite o filme Laerte-se, documentário sobre a incrível cartunista que acabou se tornando uma grande voz do universo trans. O filme me chamou a atenção por algumas falas de Laerte onde fica evidente um sentimento bastante comum dentre os artistas: os outros sempre estão muito bem, sempre têm mais legitimidade, sempre são mais bem ajambrados, sempre estão melhores do que nós. Alguns exemplos: “[Tenho] medo do que as pessoas podem achar, de me faltar argumento, me faltar motivação”; “Eu sou inadequada, e por isso a minha casa é inadequada...”; “Eu começo a achar desimportante o que eu tenho a falar”; “Eu não conseguia ver aquilo ali na ocupação como uma obra sólida. (...) Não era como a exposição do Ziraldo, ou do Jaguar, ou do Millôr”; “Eu começo a achar que eu estou ali por engano, que queriam na verdade chamar outra pessoa e acabaram me chamando.”
É impressionante o quanto, a cada dia mais, vejo pessoas admiráveis, tanto amigos quanto personalidades como Laerte, sentindo-se como outsiders (“não sou da galera”/ “me sinto deslocado em tal ambiente”, já ouvi dois de meus amigos mais populares e enturmados dizendo), julgando-se piores, sentindo-se como farsas que, a qualquer momento, podem ser descobertas e denunciadas. Me identifico vez ou outra com estes sentimentos, mas a cada vez que vejo alguém interessante admitindo se sentir assim entendo que só posso estar caindo neste mesmo jogo...

Acho que, no final, fica escancarada a ineficácia das falácias atuais: de que adianta fingir que se é feliz, sempre, o tempo todo? Estas mentiras que tanto queremos cultivar não estão se sustentando. Felizmente! Sinto até que as máscaras estão caindo, aos poucos. Creio que outros Matt Johnsons falarão abertamente sobre bloqueios, outras Laertes falarão sobre suas dúvidas, outras Cátias errarão no palco e tudo bem, outros artistas de teatro poderão dizer que se sentem tristes. E pode ser que isso nos leve a sermos cada vez mais sinceros, quem sabe? Talvez, sem tanta pressão para sermos felizes, de fato a gente se sinta feliz. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Outra forma de aprender

A ideia de dar aulas de canto nunca me atraiu. Gosto de ter aulas de voz, mas a ideia de ser a professora, ao mesmo tempo que me intimidava (será que consigo dar uma boa aula?),  me enfadava (deve ser meio chato, não?). Sempre que alguma pessoa me perguntava sobre a possibilidade de ter aulas comigo eu negava prontamente e já indicava uma amiga – ótima professora, com quem aprendi muito – para encerrar de vez aquele assunto.
Mas acontece que faço parte de um grupo de escambos entre mulheres, no Facebook, onde rolam várias trocas interessantes. E foi apenas por estar neste grupo que a ideia me ocorreu: eu vi tantas pessoas conseguindo realizar várias empreitadas de forma colaborativa que me deu uma vontade (inesperada) de dar aulas de canto. Pensei que, sim, era algo que eu tinha a oferecer: minha experiência com a voz. Não era uma questão de “sei lecionar”, mas de “eu canto há bastante tempo e posso ajudar outras pessoas com isso”. E, sendo na base do escambo, aí sim ficava totalmente possível passar adiante o que eu sabia.
Ofereci as aulas, e algumas meninas se interessaram. Em troca, eu pedi algo que elas pudessem oferecer, porque o importante era que eu pudesse exercitar a professora em mim, sem a pressão de estar recebendo dinheiro por aquilo. E eu não estava em busca de nada específico, à época – nada além de saber como seria isso de ajudar alguém a ficar mais à vontade com a própria voz.
Lembro que no primeiro dia eu estava nervosa, mas curiosamente o fato da aula inaugural ser com duas alunas, logo, deixou a coisa mais leve. Amigas, as duas ficaram mais descontraídas, e isso aliviou bastante a pressão que eu estava me colocando. Até sobrevivi, veja só!
   Desde outubro, data em que as aulas começaram, até agora, vejo o quanto aprendi neste processo. Nunca esqueço da fala de Lula, professor da Martins Penna: “Quer aprender algo? Vá dar aulas sobre o assunto. É a melhor forma de aprender.” Além de ser uma visão muito mais interessante sobre o ato de lecionar (não como “dom”, algo inato e quase sagrado, mas como algo que se aprende com o tempo, na prática, no suor), essa fala também me colocara a pulga atrás da orelha. Eu sabia que se algum dia tivesse a experiência de ensinar algo, aprenderia bastante, e essa ideia me animava. Só não imaginava que isso se concretizaria com o canto.
Diria que há dois grandes ganhos nessa minha experiência: eu, que há tempos não tenho aulas de canto, estou me beneficiando muito da disciplina que preciso ter quando estou com os alunos. Exercito a voz, pratico vocalizes, aqueço... Ultimamente tenho me sentido como se estivesse resolvendo um débito com a minha própria voz, finalmente voltando a estudá-la e a pensá-la.
E a outra coisa muito boa é poder ver as pessoas se descobrindo, sabendo mais sobre o próprio corpo, encontrando nelas mesmas capacidades que ainda estavam escondidas, ou adormecidas. Essa sexta ouvi uma aluna dizer que fazer aulas era um “sonho antigo”, e é muito bacana presenciar esses sonhos se concretizando. Enquanto isso, eu mesma vou, daqui, também me entendendo mais e realizando não exatamente um sonho, mas uma função que antes me intimidava bastante. Agora, só me intimida um pouco – um nervosinho sempre rolará com alunos novos, acredito (será que ele/ela vai gostar?)...
Fico satisfeita por ter quebrado esse tabu, e também por saber que as aulas têm agradado aos alunos, também. No meu horário não cabem mais aulas, por ora, e vejo isso como um bom sinal: talvez eu não precisasse ter tido tanto receio desse ofício. Não sei se quero fazer isso para sempre – e essa não é uma questão importante –, mas fico feliz de ter desmistificado o ato de ensinar.

sábado, 20 de maio de 2017

Outros olhares sobre o vazio

Esses dias encontrei por acaso um amigo na rua que, ao perguntar sobre o show que eu havia feito dias atrás, no Parque das Ruínas, mandou: “Mas deu público? Porque quando fui ao show do Fulano, lá mesmo, havia apenas eu e mais duas pessoas. Fiquei até constrangido!”
O engraçado é que eu havia pensado exatamente nesta questão um dia antes. Estava pensando sobre o quanto adoro ver muitas pessoas na plateia, mas, curiosamente, consigo aproveitar o show quase vazio, que, apesar de suas grandes desvantagens – econômicas, inclusive –, me deixa ainda mais à vontade. Pouca gente me assistindo faz com que eu me sinta em um ensaio aberto. E eu pensara nesse ponto específico que o colega viria a mencionar um dia depois: minha sensação de estar mais à vontade provavelmente não era a mesma de quem estava no público. Talvez muitos se sentissem constrangidos, embaraçados, “poxa, coitada”, “ai, nem tá clima de show...” (Estou apenas deduzindo, através de minhas próprias sensações em outros shows, anos atrás. Felizmente hoje penso diferente – é claro que eu gostaria de ver shows de artistas incríveis sempre cheios, lotados, mas isso não estraga em nada meu prazer de ver um show, nem me constrange.)
Lembrei agora de uma festa de aniversário que dei, há uns dez anos. Tinha sido uma festa gostosa, e eu me alegrara como sempre me alegro em meus aniversários. Dias depois, uma amiga veio comentar: “Poxa, achei que ia ter mais gente...”. Engraçado que para mim a festa, além de cheia (cada um com seus padrões), havia sido divertida e contara com as pessoas certas – os amigos mais próximos à época –, mas talvez outras pessoas, além dela, não tenham se sentido assim. Faz parte! Mas, pergunto: quando vamos a um show, vamos ver a arte do artista – música, expressão, voz, técnica etc. – ou estamos lá para fazer uma social? Provavelmente os dois, em muitos casos. Quando vamos a um aniversário queremos celebrar com o aniversariante ou vamos pela vontade de fazer uma social? Também acho que as duas opções, em muitos casos. Nada de errado nisso! Só é bacana a pergunta ser colocada, por uma pura questão de autoconhecimento.
Achei engraçado o fato do amigo mencionado comentar justamente com a palavra “constrangedor” o fato de um show estar quase vazio. Essa foi a exata palavra que me veio à mente ao pensar no que talvez sentissem os espectadores. Mas, de minha parte, repito: vou curtir o show do Mateus Aleluia no SESC Ginástico esteja ele lotado ou com apenas mais três pessoas. Vou fazer o show no teatro do Parque das Ruínas feliz, esteja ele com dez espectadores ou com a casa cheia (com nenhuma pessoa, eu não conseguiria me apresentar, não mesmo), embora eu sempre vá preferir que esteja cheio.
Mencionei rapidamente a questão econômica, mas esse é um assunto importante. Acho fundamental ressaltar que a cada vez que uma pessoa vai a um show, a uma peça, a um espetáculo de dança e paga por isso, está ajudando muito. E às vezes acho que os pagantes não têm noção do quão grande é essa ajuda. Eu, por exemplo, tenho feito poucos shows, mas os mesmos acabam se pagando e tendo um final feliz graças aos 10 ou 15 reais que os amigos investem para me ver. Faz uma diferença muito grande. E sei que quando pago para assistir a uma peça, também colaboro bastante. Talvez, graças a mim e aos outros nove espectadores, os atores não precisem tirar nada do bolso para pagar o bilheteiro. Talvez o músico consiga voltar para casa com alguma grana após o show. Talvez. Por isso acho importante prestigiar aqueles que admiro. Não é esforço, é prazer para mim e bom para o artista. (Deixo claro que estou falando do universo que frequento, majoritariamente independente – sem editais, sem nada; quando muito, na base do financiamento coletivo.)   
Esses dias escrevi no Facebook que estava pensando em iniciar uma campanha: "Leve um amigo para algum show independente". É claro que não é campanha nenhuma, é só uma atitude que quero adotar cada vez mais e quero também sugerir a outros. Já levei amigos a alguns shows de artistas que curto e, além de batermos papos – antes e depois do show, é claro – e matarmos as saudades, os amigos gostam do show e saem conhecendo e admirando mais uma banda ou músico. É bom pro artista, pro amigo e pra mim. Além de curtir, fomentamos os espaços artísticos, e não aqueles de puro consumo. Muito melhor, não? 

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Outro mundo

Há uma semana me apresentei na Mora Mundo, casa bacaníssima em São Paulo. Além de ter sido a primeira vez que cantei (com o show Outra língua) na Sampa de que tanto gosto, o que por si só já teria me alegrado, este foi um show onde percebi algumas coisas importantes.
Eu havia conhecido a Mora Mundo no início de abril, para ver o show de Selma Fernands, e havia sido delicioso. Além do show-abraço de Selma (afeto puro!), conheci as gestoras daquela casa multiartes: Fernanda, Paula, Alessandra e Dani, todas carinhosas e receptivas.
Voltar lá, dessa vez para fazer o show, foi muito bom. Eu estava animada de tocar em um ambiente que preenchia todas as minhas ânsias: preço da entrada acessível, nenhuma pressão para consumir, ambiente acolhedor. Estava animada por estar em um lugar onde era visível a preocupação com a arte, com o artista e com quem vinha prestigiar (todos sempre muito bem recebidos pelas donas da casa).
Desde a passagem de som estávamos todos bem e tudo ia fluindo, mesmo eu tendo esquecido – lá no Rio de Janeiro – um cabo de microfone (a tensão foi dissipada quando Paula conseguiu com um amigo, Henri, o cabo faltante); mesmo tendo chovido torrencialmente enquanto testávamos os microfones (chuva em dia de show = terror do artista). Mesmo assim eu sentia que já estava ganhando, porque nós quatro (eu, Pedro, Sandro e Alex) já éramos um time, e desde que Fernanda abriu a porta da Mora Mundo e nos recebeu com sua alegria e covinhas o time ficou maior.
O show começou atrasado devido à chuva e o cabo, mas com o tempo os amigos chegaram, fiquei feliz, começamos.
E lá pela quinta música, creio, fui falar alguma coisa e senti a necessidade de falar que aquele já estava sendo o melhor show do Outra língua. Tive que falar porque de fato estava tão óbvio para mim que não falar seria errado. Ou, talvez não fosse uma questão de melhor ou pior; talvez tivesse mais a ver com, naquele momento, aquele parecer o espaço perfeito para o tipo de canção que apresentávamos, para o tipo de pessoa que eu sou, e também para as pessoas que vieram nos prestigiar. Percebi isso e dividi com quem estava lá, e que bacana estar à vontade para dizer isso. Saí da Mora já querendo agendar um próximo show, porque talvez seja difícil achar um lugar que tenha tão a ver com as coisas que acredito e quero.
Além disso consegui entender, ali mais para o final do set list, que essa Outra língua é feminina, muito. Eu já havia percebido minha ênfase ao falar das parceiras de composição, por exemplo, mas foi apenas durante esse show que entendi que o projeto Outra língua teve como motor minha questão com as mulheres. Que na hora da criação, propriamente dita, muito do que me moveu foi falar delas, do que ainda não está ok, das mulheres que admiro, da vontade de aproximação. Entendi que o que me motivou a voltar a criar, depois de tanto tempo apenas interpretando, foi falar sobre o universo feminino e minha sensação de outsider em relação a este. E tantas outras coisas em relação a este tópico que não daria para falar aqui sem fazer um texto longo, longuíssimo.
Deve ter sido porque vi Carol, Denise, Cecília, Mirian, Isabela, Paula, Fernanda, aquela energia feminina junta, seus olhares atentos, e isso me obrigou a entender o que é que eu estava fazendo ali: eu estava falando sobre elas e sobre mim, muitas das vezes.    
O saldo final de um dia chuvoso – em que tantos ficaram em casa – foi ver, também, o quanto foi frutífero me arriscar, nesse caso. Ir para outra cidade e investir grana valeu muito. Vi pessoas ao meu lado, e eu ao lado delas, ali. E Pedro ter comprado essa briga fez toda a diferença; e Sandro também, interrompendo seu outro trabalho para poder estar presente e fazer uma linda participação; e Alex também (expondo, nas paredes do Mora Mundo, aquarelas que falavam de afetos, de vozes, de amizade, de relações líquidas), desde o RJ nos ajudando a carregar (em todos os sentidos) aquela empreitada. E as pessoas que nem estavam lá fisicamente, como Peter e Marcelo, que emprestaram o equipamento para que o show acontecesse, compraram essa briga do mesmo jeito.
Além de entender o tamanho da importância das mulheres no que tenho feito; além de entender o valor do risco; entendi ainda mais o valor de quem está mesmo do nosso lado, de quem fecha conosco. Ia dizer que ter noção disso “vale ouro”, mas vale muito mais.
Certo dia Larissa Baq escreveu algo que gostei tanto que guardei comigo. Acho que essas palavras resumem um pouco o que senti fazendo esse show: “Ei. Combina aí de ficar perto de quem quer mesmo ficar perto de você. A vida muda e flui.”
E o mundo fica bom e leve, parece até outro mundo. E que bom que esse outro mundo nada mais é do que o mesmo, apenas em sua melhor forma, sua melhor possibilidade.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Belchior e a greve

Nós, que gostávamos tanto dele, estávamos ansiosos esperando por sua volta, torcendo para que ele chegasse de surpresa. Quando isso acontecesse, nós estaríamos lá, no gargarejo, matando uma vontade antiga, e certamente seria lindo. Mas não deu: ele morreu dia 30 de abril, e ficamos nós, os admiradores de suas incríveis canções, frustrados.
Engraçado que a morte do Belchior nos levou a um caso raro: aquele onde um artista é mencionado a torto e a direito, hypeado, lembrado com insistência -- assim como tem acontecido com o Raça Negra, sabe? -- ainda antes de seu óbito. Ele andava sendo lembrado em estênceis em muros e postes (Escute Belchior), pichações e cartazes (Fora Temer, volta Belchior), shows em sua homenagem (Daíra canta Belchior) e até bloco de carnaval (o mineiro Volta, Belchior). Era uma saudade coletiva enorme. Dessa vez, não dá para implicar dizendo que “só lembram do cara na hora que ele morre”: infelizmente para os rabugentos, ele estava sendo requisitado há tempos; seu nome estava mais do que rodado entre as boas e más línguas.
              Eu queria muito tê-lo visto ao vivo. Mas, ao menos, restam suas canções, gravadas, regravadas. Resta sua poesia. Restam a melodia e letra perfeitas de “Na hora do almoço”, resta seu jeito inconfundível de cantar, resta seu vasto repertório que vai do intenso ao quase cômico (foi por medo de avião que eu segurei pela primeira vez a tua mão). Resta tanto! Deve ser por isso que a gente não quer parar de falar dele. 
Engraçado foi conectar a partida de Belchior -- ocorrida dia 30 de abril -- à Greve Geral -- ocorrida dois dias antes, no 28. 
Os grevistas foram tão, mas tão desrespeitados pela mídia e principalmente pelos furiosos das redes sociais que chegou a assustar. Mas tenho certeza que não havia apenas furiosos dentre os que não aderiram à greve. Não havia apenas pessoas freudianamente putas com aquelas que tiveram a coragem de deixar o emprego (por um dia, apenas), ou recalcadas em relação àquelas que meteram o dedo na ferida e mostraram o absurdo que estamos vivendo: havia também, tenho certeza, entre os antigreve, pessoas que tinham certeza de que o trabalho é a qualidade máxima do cidadão. Certamente havia e há pessoas querendo poder trabalhar em paz, e, porra, aquele bando de gente doida, que nem se sabe de onde saiu, vem e atravanca o trânsito.
E o que é que Belchior tem a ver com isso?
Ele parece ter sintetizado esse cidadão incomodado com a greve de forma perfeita: “era feito aquela gente honesta, boa e comovida / que caminha para a morte pensando em vencer na vida”. 
              Essa gente que, como disse o poeta, “tem no fim da tarde a sensação da missão cumprida”. 
(Acho que esse post era só mesmo uma forma de eu dizer que amo essa canção, adoro Belchior e a saudade aumentou. E eu não peço desculpas, e nem peço perdão, por gostar dele e por falar dele neste momento brasileiro tão belchiorado.)