domingo, 1 de outubro de 2017

Hierarquizar bem para hierarquizar sempre




              Onde você guarda sua vontade de hierarquizar as pessoas e as coisas?
Em quais momentos você utiliza seu conhecimento para rir de quem desconhece algo que você conhece?
Onde você guarda seu elitismo, aquele elitismo tão peculiar que você nem desconfia que ele seja isso – um elitismo?
Em qual momento você concluiu que o vrau é a palavra de ordem? Em qual momento você descobriu o inenarrável prazer de dar um fora, de ganhar uma discussão, de esculachar, de sair por cima da carne seca, radiante por ter ferido alguém, radiante por ter saído vitorioso de um bate boca?
Eu sei, estou falando de várias e diferentes coisas. Mas para mim todas estas coisas enumeradas se encontram em um ponto: a crença nos pódios.
Um melhor que o outro. Um pior que outro. Nunca uma relação de respeito e igualdade. Nunca acreditar nas qualidades de cada um, na personalidade única de cada um, de entender o outro dentro do contexto que o envolve. Nunca uma vontade de diálogo. Apenas uma vontade de mostrar: eu consegui. Você, não. Não foi dessa vez para você (“chola mais”, “desculpa, tá?” e afins).
Relações de puxa-saquismo ou desrespeito puro. Achar que aquele ídolo ali é inatingível e só tem o direito de ser perfeito, nada menos que isso. E achar que o ídolo do outro tem que ser execrado, afinal ele é um merda (a seu ver). E é preciso convencer (=catequizar). Não é possível simplesmente aceitar um gosto musical diferente do seu, por exemplo. Ou eu falo cheio de raiva sobre aquele músico que não aprecio – revelando muito mais sobre mim do que sobre quem ataco –, ou fico numa infantilidade lamentável de achar que a pessoa que idolatro é perfeita (e ai dela se me decepcionar!).
Quando e onde surgiu esse mecanismo que faz com que elogiemos alguém automaticamente colocando outra pessoa para baixo? “Nossa, fulana é maravilhosa, muito melhor que sicrana, que é péssima.” Não tem como elogiar sem atacar terceiros? Ou, outra opção: não tem como só criticar este terceiro, mesmo, só que sem disfarces? Vejo que raras são as vezes em que queremos sinceramente exaltar aquele que estamos exaltando. Queremos diminuir o outro, e o elogiado é só um elemento de comparação, pretexto para que o veneno possa ser destilado.
Lembro-me vez ou outra da Anitta. Não sei por que, mas ela acabou sendo o exemplo-mor, para mim, dessa relação binária que geralmente se tem com o outro (ou se ama, ou se odeia).
Exemplifico: certo dia aquele repórter lá, daquela emissora lá, foi entrevistar a cantora, após a mesma ter se apresentado com Caetano e Gil. O sujeito resolveu mostrar sua insatisfação por Anitta (alguém que nasceu artisticamente no mundo pop) ter estado ao lado dos medalhões. Daí o indivíduo, tosca e desrespeitosamente, insinuou que ele, repórter, estava muito mais envolvido com a MPB do que ela. O programa foi transmitido ao vivo, e nem assim o cara segurou a onda de sua implicância. Fiquei pensando no quanto é chato que se ofereçam sempre duas opções em relação a Anitta, especificamente (mas também a muitos outros artistas): venerar e falar que ela lacra o tempo todo, em tudo o que faz (ajudando a sedimentar ainda mais a péssima cultura da idolatria); ou desprezar e tratar com arrogância, ao vivo, para que o Brasil inteiro veja.
Não tem como ter um meio termo, não? Não tem como respeitar, sempre, seja quem for? Independentemente da música, de seu gosto, de sua vontade de espezinhar? Não tem como praticar este exercício?
Vejo na militância – seja nas redes sociais, nas ruas, ou até mesmo em programas de TV – um fenômeno parecido. É uma torcida para ver quem dá o fora maior no outro. (Ok, há momentos em que talvez seja necessária uma sacudidela, mas não pelo fora bem dado, ou pela “cara de idiota” que o sacudido fez, e sim pela mensagem que precisa ser passada. Quando alguém se compraz com alguma – suposta ou real – humilhação, acaba só mostrando seu sadismo, mesmo.) E dentro desta militância que menciono, nós queremos sempre estar ao lado daqueles que consideramos os vencedores. Parecemos aquela ganguezinha de adolescentes, aquele grupelho que acha que arrasa porque mete medo nos mais fraquinhos, mais novos, mais bobos. Não somos corajosos, muito pelo contrário: somos apenas covardes satisfeitos em intimidar quem não nos responderá agressivamente, jamais. Ou: ficamos felizes em intimidar aqueles que responderão agressivamente, sim, mas com pouco embasamento, e aí é que o vrau vai vir caprichado, com direito a esculacho sócio-cultural e tudo. A militância vaidosa adora humilhar os já “facilmente humilháveis” (aos olhos elitistas dos lacradores).
Esse é o outro elitismo do qual estou falando. Não precisa ser sobre grana, família, tradição. Pode ser bem mais disfarçado que isso.
Elitismo pode ser sua crença de que aquele ali é ignorante e você pode rir dele.
Elitismo pode ser a sua convicção de que aquele grupo de teatro ali, que você não gosta, não merece respeito (como se respeito fosse artigo a ser gasto apenas com alguns, selecionados a dedo). Elitismo pode ser menosprezar internamente quem você considera feio. Pode ser fazer piadinhas sobre o outro sempre, como modus operandi, em uma tentativa inútil de se mostrar superior. Daí você faz tudo isso e pensa que o simples fato de não ter grana te livra de ser elitizado, mas não livra, nem um pouco. Toda vez que você fala com desdém do outro, da arte do outro, de qualquer coisa do outro, sua imodéstia e vaidade insaciáveis se confirmam.
Elitismo pode ser sua mania, prezado historiador pop, de rir de quem o admira, de ironizar quem pede conselhos a você, de considerar piores aqueles que gostariam de debater contigo em sua rede social (aquela que você despreza e tanto usa). Bom, neste caso aqui acabei falando, sem querer, de elitismo tradicional, mesmo – elitismo queijos e vinhos, elitismo jantar em Curitiba. 
Elitismo pode ser essa ânsia insaciável por poder. Poder, e não grana: poder é muito pior do que grana (o dinheiro é apenas uma das formas de poder). E esse poder é tudo o que o elitista mais ama, daí seu desdém, sua arrogância, seu fingir não ver, seu fingir não saber de nada que não seja ele mesmo e seu mundo. Todo o resto é risível (digo: os outros, aqueles que não fazem parte de sua gangue). Só vale saber do mundo do outro se for para ter elementos para diminuí-lo.
O quanto estes pódios não minam nossa alegria? O quanto esta competitividade louca não nos impede de levarmos várias empreitadas adiante? O quanto este pensamento prejudica nossa espontaneidade? Penso neste assunto com muita frequência – até mesmo porque me vejo como um grande retrato deste sistema que estimula a crença em 1º, 2º e 3º lugar – e percebo, sem dificuldades, as consequências deste sistema de pódios em mim. Tenho as sequelas (reversíveis, é claro, mas graves) de uma sociedade que vive de comparações e medições: quem é melhor, quem é pior? “Este dá um banho naquele, sem dúvidas”, “este aqui, coitado, certamente é o último da lista”. Passei uma vida inteira comparando e sendo comparada, diminuindo e sendo diminuída, elogiando um para criticar outro. Não ganhei nada com isso, só perdi meu precioso tempo com raivas e picuinhas. E ao mesmo tempo que é revoltante perceber que isso é só uma farsa estimulada por tudo, absolutamente tudo o que nos cerca (jornais, TV, outdoors, publicidade, revistas de fofoca), é ainda mais desagradável ver os amigos e conhecidos caindo nesta mesma lorota.
Conheço pessoas inteiradíssimas sobre política, sociologia, arte etc. acreditando piamente que aquela emissora lá do Cidadão Kane, ela sim, pode legitimar a carreira de um artista. Quando vejo isso percebo o quanto essa emissora é muito, muito mais perigosa do que qualquer político neste país, pois não só consegue engrupir milhões de incautos, mas também contar com a simpatia daqueles que teriam todas as ferramentas necessárias para criticar ferrenhamente suas falácias. Não: na hora de falarmos em “arte”, “cultura” e “entretenimento”, o canal 4 continua sendo o lugar mais incrível no quesito oportunidade, aquele que te credencia como artista “de verdade”. Quando vi artistas independentes babando um ovo animal e inesperado desse conglomerado eu entendi que, infelizmente, nossa autoestima não anda nada bem. Imagina como deve estar a cabeça de alguém que pensa que apenas a TV confere respeitabilidade? Imagina o que deve achar de si um artista independente que, mesmo longe de estar ao alcance de milhares, acredita que apenas quando começar a sair em matérias de jornal é que vai ser um profissional de verdade?
Estamos todos nos sentindo uns lixos, concluo. E lixos que fazem questão de dar o vrau, é claro, para disfarçar um pouco a agonia. Enquanto se puder dar um fora em alguém, haverá esperança.
Uma pena ver que nossos discursos igualitários não nos impedem de sermos iguaizinhos ao Boris Casoy, achando que os garis são piores do que nós... Nós, os seres “qualificadíssimos”, “estudados”, intelectualizados. Cujo intelecto, infelizmente, não serviu para o mais importante: entender o ser humano, o outro, o si mesmo.

Ando fascinada por este assunto – relações de poder e competitividade – e tenho pensado nele sem parar. Porque pude perceber o quanto estes dois elementos são o motor da inveja e do individualismo, e o quanto estes dois últimos são o motor da ansiedade e depressão. Não quero mais fazer parte deste círculo vicioso. E me sinto aliviada quando reflito sobre isso e percebo o quanto se trata de algo imposto, interessante aos jogos de poder: não é algo inevitável e intrínseco, não mesmo. Podemos propor outro tipo de vida, podemos ter o respeito como uma boa base. Basta ter boa vontade (acho que ainda não entendemos muito bem o gigantesco potencial da boa vontade, aliás).
              E aí? Vamos conseguir largar mão do vrau e do escracho como primeira alternativa, sempre, e substituí-los por uma convivência mais harmônica? Ou lacrar ainda é mais importante?

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Onde?



Onde você se sente mais confortável? Em qual lugar você fica mais tranquilo e, ao mesmo tempo, se sente mais potente? Onde você se mostra com tudo aquilo que tem de melhor?
Eu entendi que me sinto mais potente em meus momentos de criação. É este o lugar onde me sinto mais feliz comigo. É onde sinto a tal da euforia, aquele sentimento que nos vem quando ficamos felizes com algo que fizemos (assim Amir ensina). E agradar a si mesmo é precioso. Pessoalmente, quando crio algo e fico satisfeita, sinto-me mais segura, tranquila, em paz, alegre. Tudo isso junto.
Desde que comecei a colocar meu trabalho autoral na roda, algo muito forte mudou em mim. Continuo sendo a mesma pessoa cheia de dúvidas, mas o efeito de voltar a utilizar a criatividade na música me deixou muito mais entusiasmada. Os dias têm parecido mais curtos, visto que há vontade demais de fazer tanta coisa. Essa criatividade desperta me levou a querer criar mais e mais, e, a reboque, também me levou a querer fazer mais em diferentes âmbitos, mas de forma focada. Me levou a saber mais o que quero, e a perder menos tempo com o que não quero tanto (ou só quero por vaidade). Me deixou com vontade de lançar mais livros, de estudar mais, de fazer mais conexões entre as artes e os assuntos que me atraem, por exemplo.
Mas tudo isso sem desespero. Porque sempre, ou quase sempre, houve em mim certo desespero para “mostrar serviço” (que vício!) em diferentes áreas de atuação. Essa ânsia ainda existe, mas diminuiu muito, e tem diminuído a cada dia. O que desejo agora não é entrar em outras bandas, me filiar a diversos projetos, como tantas vezes fiz, apenas para me mostrar atuante, ativa, ocupada. Não quero estar ocupada. Quero ter tempo livre para fazer o que preciso/gosto de fazer. E hoje eu diria que sei, relativamente bem, que coisas são essas.
Tenho sentido menos medo de negar propostas, de aceitar a solidão que a criação pede. Apesar de amar a solidão desde criança, eu, paradoxalmente, já há uns bons anos, tenho me mantido bastante ocupada, acumulando diversas funções. Certamente isso tem a ver com a tal da vontade de legitimidade. Só para poder dizer: “fiz isso, fiz aquilo, estou fazendo isso com fulano, amanhã farei isso com sicrana, estou super ocupada, sou super bem sucedida, conheço todo mundo, sou foda.” Ok, a gente não admite, mas se acha o máximo (lamentavelmente) pelo simples fato de não ter tempo para si. Porque, olha que horror, imagina se alguém puxar papo contigo e você não tiver nada a dizer? Chato, né? Constrangedor. (Que deprê saber que a gente deixa de ficar a sós, matutando, no ócio criativo, só para ter material para puxar papo furado, meia-boca, com semidesconhecidos. Ok, e para prestar contas com a família e com os amigos próximos, também. Mas o fato é: masoquismo e autoboicote mandam lembranças, e odeiam o trabalho invisível.)
E, ao mesmo tempo, não acho que existam lugares fixos na vida. Tudo isso é o que eu estou sentindo no momento. Posso pensar diferente daqui a um tempo, posso querer voltar a fazer as coisas que tenho negado hoje em dia. Mas, por ora, não tenho vontade de ser a vocalista de um grande e numeroso grupo percussivo, por exemplo. Por ora, não tenho mais vontade de ser apenas intérprete. Por ora, não tenho o desejo de voltar a ser corista, como já fui. Não sinto mais tanto entusiasmo em ser backing vocal. E na verdade já nem acho que eu tenha muito a oferecer nestes âmbitos (e só agora vejo isso). Acho que tenho muito mais a oferecer, ao menos para mim, fazendo o que estou fazendo agora. Escrevendo, cantando o que escrevo. Isso me preenche muito mais.
Mas é bonito ver o quanto cada momento nos pede diferentes coisas. Tudo o que vivi foi interessante em seu devido momento, me ajudou a superar certas coisas, me ajudou a entender outras, me ajudou a sair de alguma situação viciada, ou mesmo a conhecer melhor a minha voz... Mesmo que algumas coisas tenham sido uma fuga, me ajudaram a me encontrar (eu pensei fugir de mim, mas aonde eu ia eu tava).
Comecei perguntando “onde você se sente mais confortável, tranquilo e potente?”. Considero este questionamento fundamental. Mas há uma pergunta-irmã dessa aí, talvez tão pertinente quanto: quais lugares te deixam mais desconfortável, menos tranquilo e menos potente?

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Outra opção: show em casa


               No dia 8 de julho, há pouco mais de um mês, fiz um show em minha casa. Foi a terceira vez que fiz isso.
A primeira vez foi em dezembro de 2015, quando cantei algumas canções do CD Temperos. E em dezembro de 2016 fiz o segundo show em casa, dessa vez já com as canções do projeto Outra língua. Foi muito, muito bacana. E essa terceira vez, mês passado, foi ainda mais interessante.
Primeiro, porque aproveitei para comemorar meu aniversário, então só isso já deu um gosto especial à coisa – ficou um clima de celebração e encontro com os amigos. Segundo, porque foi também a despedida da casa onde morei por três anos, e por isso foi um show em uma casa mais espaçosa, quase vazia de móveis.
Eu quis muito fazer esse show também pelo fato de que seria uma forma de cantar em um sábado à noite. Com o Outra língua, fiz shows terça e quinta (Centro da Música Carioca), sábado à tarde (Baratos da Ribeiro e Parque das Ruínas) e a única sexta-feira foi em um show em São Paulo, na Mora Mundo. Mas para conseguir fazer um show no “horário nobre” de sabadão à noite, só quando eu dei um jeito. E sei que foi por essa razão que vários amigos puderam comparecer.
(Não quero mitificar o sábado, não. Pelo contrário: pessoalmente, prefiro curtir na rua de segunda a quinta e ficar em casa no FDS, talvez porque isso contrarie um pouco aquela lógica da diversão como sendo exclusiva dos finais de semana, a mesma lógica que impõe, mesmo que sutilmente, que todos os outros dias sejam apenas reservados às obrigações e nada mais. Mas é fato que muitos dos amigos somente podem estar presentes em um sábado à noite.)
Esse lance de fazer ações artísticas em casa é muito potente. Falei já, em outro texto, sobre a importância da rua. E, por mais que pareçam locais opostos, penso que a rua e a casa têm o mesmo clima de quebra de uma estrutura elitizada – estrutura que seleciona, deixa tantos artistas de fora, faz uma peneira estranha, com critérios misteriosos, ou apenas se guia por critérios financeiros, mesmo. É direito das casas de show ou bares quererem ganhar grana e consequentemente deixarem a arte em segundo plano. E é meu total direito não querer participar disso, e me limitar (quer dizer: expandir) a fazer shows apenas em locais onde eu me sinta confortável em diversos sentidos. A casa é um desses lugares. A rua é outro.
E vejo que a iniciativa de abrir a casa para a arte e para as próprias iniciativas tem se espalhado, tem se mostrado satisfatória, tem sido uma ótima ideia. O artista Alex Frechette já fez duas grandes exposições caseiras (2015 e 2016). O músico e escritor Leonardo Panço lançou seu livro Esporro em sua casa, em 2011. A cantora e compositora Deh Mussulini fez em junho deste ano um show em sua casa, em Belo Horizonte, ao lado de Sofia Cupertino. Wagner José (& Seu Bando) fará um show em sua casa, em Jacarepaguá, nesse domingo. E neste sábado, agora, irei ao show de um amigo que resolveu fechar logo três sábados consecutivos para se apresentar em sua própria casa. Este último é um show privado, e penso que o barato de fazer algo em sua própria casa é esse mesmo: você é que decide como quer – privado/aberto; gratuito/pago; bebidas à venda/esquema festa americana –, não tem que negociar com dono de estabelecimento nem aguentar cara feia e climão: pode fazer da forma que você acredita que funcionará melhor.
Tenho tocado bem pouco, ultimamente, e quero tocar muito mais, porque gosto muito de me apresentar ao vivo. Mas cada vez menos fico na sanha de aceitar qualquer coisa só para mostrar a cara. E cada vez mais quero cantar em lugares que tenham a ver comigo e com meu som. Há ainda muitos centros culturais, instituições, casas coletivas, teatros onde quero tocar. Mas por ora estou fazendo o que depende só de mim, e de mais ninguém.
Fechando: aos amigos músicos/escritores/artistas plásticos/etc. que já pensaram na possibilidade de fazer algo do tipo, diria para ao menos experimentarem, uma vezinha. Abrir a casa pode ser muito estimulante. A mim deu um gás tão grande que, no dia, após o show, nem consegui dormir direito. A adrenalina e a felicidade me impediram de parar de pensar naquele encontro tão bacana com os amigos, com a música, com a minha casa, comigo.
P.S.: Já estou há um mês e um tiquinho na casa nova, e já pensando no melhor local (quintal? ou dentro, mesmo?) e na melhor data para fazer um show aqui.


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Outra hora (agora, não)

Já reparou que nunca é a hora? Que nunca é o momento de mostrar a cara? Nunca é o mês certo. Nem o ano certo. Ainda falta, você ainda é verde, falta experiência, sempre faltará.
É uma fase da vida que ainda (=nunca) chegará. Magicamente, algum dia você vai sentir que finalmente está pronto para fazer o que deve fazer. 
                É algo que também no dia a dia fica evidente, repare: nunca é a hora de parar e pegar o violão. Nunca é a hora de parar para escrever. Nunca é a hora de dar o primeiro passo em relação àquele projeto que você tanto quer tirar do papel. Nunca é a hora de se dedicar ao que você mais gosta. Nunca há um tempo prontinho, ali, reservadinho, adequado, para você fazer o que deve fazer. Nunca. Para todas as outras coisas você acha um tempo qualquer, espreme ali na agenda, inventa uma horinha para passar no banco, se vira para dar uma aula ou até visitar o amigo, mas nunca, nunca, vai ter tempo de fazer aquilo que você precisa fazer.
Mesmo que o seu coração aperte toda vez que você vir seus colegas e companheiros seguindo suas vocações e fazendo o que amam – e você ali, entendendo perfeitamente que aquele é o aperto de quem foge do que deveria estar fazendo –, se convença sempre de que não é a hora, ainda, e aí você pode seguir fazendo tudo o que mais odeia e permanecer boicotando seus talentos, sua vocação, sua vontade mais verdadeira e bonita. Aquele trabalho que, na verdade, talvez nem seja tão difícil assim de realizar, visto que você faria com amor, alegria e entusiasmo, mesmo que te cansasse, te exaurisse, mesmo que doesse e te fizesse chorar, seria bem mais agradável do que aquilo que você faz hoje (afinal, você choraria por algo que valeria a pena). Seria muito mais empolgante e preencheria muito mais sua vida do que aquela função que você cumpre e odeia com todas as suas forças, quase num masoquismo, escolhendo a coisa que menos tem a ver com você, com o tipo de pessoa que você é, com o que acredita. Você se trai a cada dia, cada vez mais, e tudo bem. Porque por fora você parece estar fazendo a coisa certa – não está agindo como um louco, aquele louco que só faz o que quer, sabe? Aquele ali, que paga os mais altos preços por se respeitar, e, aliás, leva uma vida interessantíssima – sejamos honestos. 
              (e o grito interno vem: quero viver assim também! A vida deveria ser isso, e não o contrário.)
  Todos serão da opinião de que você é prudente (por fazer algo prático, racional; e por esperar o dia de São Nunca chegar). Aliás, percebi algo: acho que quem larga um sonho sempre será aplaudido, ou quase sempre. “Deixou para lá essa história de seguir o que ama e virou adulto” ou “Parou de ficar andando para cima e para baixo com aquela guitarra e começou a ganhar dinheiro” (essa última fala aí eu testemunhei). E quem poderá ser responsabilizado pela depressão resultante dessa desistência, hein? Ninguém. Só o desistente, mesmo (você). Porque o mundo inteiro pode incentivá-lo a se desrespeitar, mas só uma pessoa pode levar isso a cabo (você).
Mas antes de quaisquer outros influenciando, a questão é o próprio eu, que se nega a admitir vontades vistas como excêntricas ou engraçadas. Que morre de vergonha de admitir que o maior sonho é ser bailarino. Que desde criança quis trabalhar com games e tecnologia. Que vive sonhando em ser professor de biodanza. Esses sonhos, vão dizer, não têm nada a ver contigo, não se parecem com você. Mas parecem, sim, e sempre pareceram, e você sabe disso. E só você pode se cobrar em relação a este segredo bem guardado.
E o pior é que de fato há momentos em que realmente devemos esperar um pouco, ou até mesmo muito. Então, uma vez passando por essa experiência bem sucedida do esperar, a gente pode usar sempre a desculpa de que esse procedimento já funcionou, que faz sentido esperar o momento certo, que não estamos com medo e que é preciso mesmo dar tempo ao tempo.
Não se trata de covardia, ora: observe que mesmo aquela pessoa lá, aquela na qual você confia demais e que sempre te ajuda, sabe?, enfatiza que você deve esperar. Então, mesmo que você – e mais ninguém – saiba, tenha certeza de que poderia e deveria estar fazendo algo, pode-se usar este artifício: aquele ali, mais experiente, disse que ainda não era a hora. Mesmo que ele não te conheça tão bem assim, use-o como justificativa.
O fato é que seu corpo inteiro teme fazer o que é preciso fazer. Você tem pavor de fazer algo e dar merda (e vai dar, com certeza, pois agir é favorecer o surgimento de problemas, mesmo). Então fique quieto, que aí não vai dar merda nunca.
Você nunca estará pronto para fazer o que deve fazer. Mesmo que esteja pronto para fazer milhares de outras coisas desagradáveis e estranhas, cansativas, contrárias à sua filosofia de vida. Mas fazer o que você ama? Não. Espere. Você nunca estará maduro o suficiente para enfrentar a única coisa que de fato vale a pena.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Pra que serve a memória?

Por muito tempo tive vergonha de meu excesso de memória. Percebi cedo, ainda na pré-adolescência, que minha memória afiada e minha precisão para fatos, datas, rostos, nomes e lugares era vista como algo estranho. Nada traumatizante, mas ficava evidente o quanto aquilo me tornava um pouco esquisita aos olhos de muitos. Por que diabos eu me apegava tanto a detalhes (ou coisas que eram vistas como detalhes)? Percebi que esse meu lado era visto como uma coisa meio nerd, até meio stalker. Ou, pegando mais leve, um lance desengonçado. Faltava em mim um jeito whatever. Tinha que ser mais desapegada, deixar para lá. "Hã? Quê? Não sei quem é, não." Tinha que ser mais prafrentex, viver o momento, pois quem vive de passado é museu. Mesmo que seja o passado de uma semana atrás: esquece. "Credo, você lembra de tudo."
Então a gente vai entendendo que é meio esquisitão e vai se adaptando, não largando mão da própria memória, mas às vezes disfarçando e vivendo um pouco mais como todo mundo, aparentemente. Continua lembrando de todos os detalhes, dos nomes (e sobrenomes), da frase exata que a pessoa falou, do dia e da hora aproximada daquele encontro, do local onde tal coisa aconteceu. Só não sai espalhando aos quatro ventos. Deixa para falar com os pares (aqueles dois seres que você conhece que também lembram de tudo) e segue.
Demorou muito, mas acabei entendendo para o que é que minha memória servia. Fui percebendo que os detalhes que grudam em minha cabeça me ajudam não apenas a fazer várias conexões: me levam a escrever. E escrever, hoje vejo, é uma das coisas que mais me dá prazer e satisfação. Então finalmente achei uma justificativa para esse excesso de nomes, cores, dias, anos, livros, filmes, frases, falas.
Minha memória serve para contar histórias sem um esforço abissal, e com bastante prazer. Tem material demais na cabeça, tem história demais, descrição demais, tem referência demais. É só jogar no papel e, a partir daí, suar. Certamente é cansativo e demorado, porque é preciso aparar as arestas aqui e ali, rever, corrigir, e isso leva tempo. Mas nunca falta assunto, nunca falta tópico. E é fácil ligar os pontos, emendar assuntos. Não se trata da tal inteligência (conceito maroto, esse!): é só memória, mesmo, e muita. 
               A mim me parece desperdício viver certas coisas e não elucubrar sobre estas na escrita, não organizar as ideias em textos. Preciso aliviar a mente e poder dar certos assuntos por encerrados escrevendo sobre os mesmos. E também sinto que preciso usar aquela palavra que me encanta desde criança, torná-la parte de uma canção. Preciso mencionar aquele homem que vi, suave e tranquilo, falando sobre medicina. Preciso escrever o belo nome daquele imigrante árabe, para eternizá-lo em mim. Não vejo nada disso como simples fatos soltos, bobos, pois tudo isso que me marca me ajuda a construir a pessoa que sou.
Eu gosto de traçar paralelos, e a memória me ajuda a fazer isso. Gosto de analisar o meu ciúme com a ajuda das frases inesquecíveis de Gikovate e Calligaris. Gosto de ver o quanto a informação da palestra que vi se relaciona com o que aquele amigo me disse. Gosto de lembrar vivamente do que disseram Amir Haddad, Newton da Costa e Gero Camilo sobre a beleza, e por isso querer escrever um texto sobre o assunto, utilizando como contraponto o que tantos e tantos outros falaram sobre a feiura. Gosto de reparar que foi Caetano quem me ensinou a utilizar referências a torto e a direito, a abusar daqueles versos (nem maus, nem meus) que podem chegar para enriquecer o que faço. Gosto de lembrar de tudo.
Sempre serei aquela pessoa que se apresenta dez vezes para a mesma pessoa pouco memoriada (ou: integrante do clube dos whatever). É estranho, com certeza. Mas ter um belo estoque de material prontinho para ser utilizado-escrito me interessa bem mais do que qualquer outra coisa. 
E quanto ao desmemoriado, aproveito e me apresento a ele pela décima-primeira vez, para não ter erro.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Outro teste

Há uma semana fui participar de um teste para um musical. Ao chegar lá, quase voltei: vi que era a mesma equipe de um teste traumático que eu fizera em 2014, para o qual havia esperado cerca de cinco horas apenas para ser ouvida (ou quase ouvida: um dos membros da banca dormiu, o que entendo perfeitamente – se eu estava cansada, ele estava ainda mais, tendo que avaliar tantas pessoas há tantas horas –, mas sem dúvidas isso deixou a conjuntura ainda pior). Pois é, sou tão bissexta* nesse lance de teste que não me ligo no nome das produtoras e das equipes, então dei o mole de ir num teste organizado pela mesma equipe que havia deixado a mim e a várias outras pessoas esperando por cinco horas.
              (*Digo que sou bissexta porque só devo ter feito uns quatro testes para musical na vida.)
Me saí pessimamente mal no teste. Cantei uma linda música, mas havia ensaiado pouco (a tal da falta de tempo que, quando a gente quer mesmo, a gente dribla) e, é claro, exatamente por não estar preparada, fiquei nervosa. Mas antes mesmo de entrar na sala para cantar – dessa vez a espera foi de duas horas – eu já estava pensando no quanto aquele ali não era um ambiente no qual eu me sentia bem. Não digo isso pelas pessoas (até fiz uma amizade lá), mas pela inevitável atmosfera de competição. Não dá para ignorar o fato de que apenas alguns entrarão e muitos ficarão de fora. Mas não fui embora por saber que, se o fizesse, eu ficaria muito decepcionada comigo mesma por não ter nem tentado. [obs.: teria sido muito melhor ter ido embora.]  
Na espera para o teste, naquele ambiente apinhado de atores e cheio de tensão, lembrei muito de um papo que tive com uma amiga compositora, há alguns meses. Estávamos conversando sobre nossos trabalhos e falamos sobre a questão dos festivais competitivos. Ela me disse que não gostava e não queria, de jeito nenhum, participar de festivais. Não gostava da tal atmosfera de comparações e não gostava da forma como os participantes acabavam se portando (infelizmente embarcando em um clima de disputa). Essa compositora consegue manter seu trabalho de forma autossustentável, pois alia suas metas à sua realidade financeira. Mas ver, frequentemente, vários amigos próximos ganhando grana em festivais não fez com que ela se convencesse de que o mundo festivaleiro fosse uma boa. Lembrei muito dela durante a espera para aquele teste. Pensei por que diabos eu estava desrespeitando minha ideologia ao participar de algo que eu não concordava (e não tinha nem a desculpa de estar fazendo isso pela primeira vez, só para saber como era).
Fui tão mal no teste de canto que não fiquei para fazer a cena de dança ou de interpretação. (Aliás, mais uma crítica: embora geralmente estivessem avisando, como testemunhei, a cada ator se o mesmo estava liberado ou não, a mim não disseram nada quando saí da sala. Fiquei esperando uns quinze minutos ali, bem na frente dos assistentes, e nem tchuns. Quando finalmente perguntei – a gente evita perguntar para não ficar enchendo o saco, né? – a resposta foi que sim, eu já estava liberada. Se eu não perguntasse, quanto tempo teria ficado até que alguém se lembrasse de me dar uma avisadinha básica?) Fiquei estranhamente feliz por ir embora mais cedo do que esperava, sentindo-me aliviada por sair dali, e com mais material para me pensar como artista. Voltei para casa elucubrando sobre o quanto havia sido desnecessário me dispor a ir, voluntariamente, a um ambiente onde fico tão estressada que acabo cantando mal uma canção relativamente fácil de cantar.  
Mas acontece que sou uma amante das artes cênicas, e procuro sempre estar colocando esse meu lado teatral em ação. Os testes, apesar de péssimos, podem proporcionar essa vivência incrível no teatro sem que se precise fazer parte de uma companhia (algo muito bacana, porém companhias implicam um longo e sério compromisso, difícil para quem já se dedica a outra área artística – há quem consiga, eu ainda não). Eu desejei passar para cada um dos quatro testes que fiz na vida. E certamente essa peça será uma experiência linda para os atores e músicos que fizerem parte do elenco. E espero algum dia ainda fazer um espetáculo musical, mas consegui ver que, para que isso aconteça, o processo tem que acontecer de outro jeito. Talvez em produções menores, menos comerciais... Senão – novamente – pisarei nas minhas ideologias e crenças: se sou tão contra a competição, que faço eu em um ambiente onde a tônica é claramente ver “quem são os melhores”?
(Fiz ano passado um teste para outro musical – na verdade foi o único teste no qual eu acho que de fato me saí bem cantando – e ali todo o processo foi bonito e generoso. Em nenhum momento me senti desconfortável, e diria que nem havia clima para que nenhum dos participantes se sentisse assim. Espero que essa produtora continue fazendo muitos espetáculos e que algum dia eu faça parte de alguma montagem, pois ali, sim, não me desrespeitei nem um pouco – apenas cresci com a experiência. Talvez seja possível um ambiente de avaliação saudável, no fim das contas...)
               Finalizando, lembrei do musical Quando toca o coração, da amiga Virginia Maria, que vi no final de 2014. Fiquei muito feliz por ela, que fez uma campanha de arrecadamento coletivo e colocou um objetivo em prática, sem ficar esperando que algum dia alguém lhe desse uma “chance” para fazer o que queria. Ver sua peça me inspirou desde o primeiro dia, mas depois desse meu teste a admirei ainda mais, por ter criado para si a oportunidade de cantar e atuar. Quem sabe não é essa a solução?

segunda-feira, 5 de junho de 2017

As viagens, os outros


Passei a limpo hoje um diário de viagens. Desde fevereiro eu estava com estas anotações pendentes, e finalmente passei tudo para um caderninho mais adequado. Acabei relembrando muito do que vi e senti naquelas duas semanas de viagem.
Aí, recordando de tanta coisa, pensei no quanto viajar é bom. Mas, principalmente, lembrei algo que compreendi há não muito tempo: viajar não tem nada a ver com vangloriar-se, mas sim com ter noção do quão pequeno se é.
Em 2015, quando conheci a Alemanha, vi isso claramente. Não falo alemão, e desde o primeiro momento em que o motorista do ônibus do aeroporto se deu ao trabalho de falar em inglês comigo, entendi que enquanto eu ficasse naquele país eu estaria simplesmente contando com a boa vontade das pessoas. E um ano depois, em outra ocasião, percebi que em outros países geralmente não levamos conosco toda aquela legitimidade que o próprio país, a própria cidade, nos dão. Os amigos e a família não estão presentes, não podem atestar quem somos (e a gente quer esse atestado sempre que possível – vai que alguém duvida de nossa bondade e ótimo caráter?). Viajar é um pouco zerar todas as informações importantíssimas – leia-se: inúteis – sobre nós. Então fora de minha zona de conforto eu sou quase isso: um zero ambulante. 
Entendi, com o tempo, que viajar para outro país não te faz melhor que ninguém. Ironicamente, às vezes pode te fazer um pouco pior, se você usar estas experiências para diminuir outras pessoas.
Embora a situação tenha melhorado e muitos brasileiros tenham conseguido ir para o exterior pela primeira vez nos últimos anos (até quando isso vai durar? Porque está difícil, para alguns, dividir avião com gente pobre... Ai, Danuza Leão, vai ser difícil esquecer a patacoada que você falou! Ai, golpistas, eu sei que dói e que vocês vão fazer de tudo para que os anos 90 voltem com toda a força...), falar sobre viagens – nacionais e internacionais – ainda é algo que pode causar desconforto, por parecer arrogância. Eu me sinto estranha ao falar disso, mas vejo o quanto é importante. Todos deveriam ter o direito de viver essas experiências e de falar sobre elas. 
Lembrei, também, do quanto aprendemos em viagens, e do quanto ficamos bem mais atentos a novas percepções. As ideias não escapam tanto, acho... Parece que se fixam mais, parece que nossos sentidos estão mais “acesos”, conectados. Será por estarmos mais embevecidos, felizes? Daí esse encanto deixa tudo mais fácil...? Talvez.
Certamente foi por embevecimento que, em 2015, escrevi uma canção, “Portobello Road”, para a rua homônima. Andando por essa região de Londres, a música “Nine out of ten”, de Caetano, não saía de minha cabeça. Quando vi o Electric Cinema, então, o volume da canção aumentou ainda mais. Chegando ao Brasil, vi meu diário de viagem e as anotações que eu havia feito sobre Londres e seus personagens. Gostei de citar Gil (“Back in Bahia”) e Caê em uma só canção, e poder misturar tudo isso à felicidade que senti por estar em um país que eu sonhava conhecer desde os 12 anos – Oasis, Blur e várias outras bandas britânicas haviam despertado em mim esse fascínio pela Inglaterra.
Ainda não cantei em outros países com meu trabalho solo, na verdade ainda mal saí do Rio com ele. Mas quero muito, pois viajar e cantar é a união perfeita de duas coisas que adoro. Na verdade, ultimamente tenho me sentido mais animada a viajar se for para cantar – embora dê bem mais trabalho.
Falando nisso, no livro Teatro Oficina: onde a arte não dormia, Ítala Nandi conta sobre a viagem que o grupo Oficina fez a Paris, em 1968, para uma temporada de O rei da vela – às próprias custas. Adoro o trecho em que Ítala fala: “(...) aquela viagem estava nos custando todas as economias. Estávamos seguindo a teoria de Zé Celso – ‘é preciso arriscar’ –, que nós todos assinávamos embaixo. Viajar era sagrado, e não é a toda hora que acontece uma chance dessas.” Adorei tudo nesse depoimento: o risco, o sagrado e a oportunidade. Aliás, o livro todo é inspirador e recomendo muito [obs.: eles estavam em Paris em maio de 68!].
Ao mesmo tempo, penso que não podemos, de jeito nenhum, ceder a qualquer tipo de pressão. Se não gostamos de viajar, que não viajemos. Diversão não pode ser protocolar, nunca. (E ninguém deveria estranhar quem não curte pegar a estrada – é uma mera questão de gosto.)
Aliás, Paulo Leminski e Fernando Pessoa são grandes exemplos de pessoas incríveis que se deslocaram relativamente pouco. Será que eles precisavam viajar? Para criar, certamente que não, e suas obras atestam isso muito bem. Pessoa, inclusive, abordou o assunto “viagem” como poucos escritores o fizeram, não tendo saído muito, durante a vida adulta, de sua querida Lisboa.
Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. Sentir tudo de todas as maneiras.” (Pessoa/Álvaro de Campos)


P.S.: London, London... Como é irônico mencionar, agora, a paz que você me trouxe há menos de dois anos.