quarta-feira, 14 de março de 2018

A mística sobre viver de arte


Lembro de estar na sala de música da minha professora de canto. Eu a tinha visto pela primeira vez em 2003, cantando no Sergio Porto e, após reencontrá-la em uma festa, seis anos depois, comecei a ter aulas com ela.
Não sei se após algumas semanas, ou se logo no primeiro dia de aula, percebi algo: aquela pessoa vivia de música. Dava aulas de música em uma escola, em uma companhia de teatro, em uma faculdade de dança, em sua casa. Tinha seu trabalho autoral. Cantava em uma banda.
Eu havia sido enganada. Uma narrativa havia permeado minha vida até então: “não se ganha dinheiro com música”. Ou com arte, em geral. O artista plástico ouve isso, a atriz também, o dançarino, a escritora etc.
Eu havia sido enganada não porque minha professora fosse rica ou ganhasse exatamente aquilo que merecia por suas atividades cheias de dedicação. Não se trata disso. Falo de viver de música, algo bem mais simples do que ser rico. E ela vivia. Então, uma mentira me havia sido contada.
Me senti enganada porque eu já havia feito tantas coisas totalmente contrárias às minhas ideologias (exemplo-mor: trabalhar como vendedora, durante anos!); tantas coisas que eu não gostava; tantas fugas daquilo que eu realmente ficava animada para fazer. Ok, na adolescência é difícil trabalhar em algo que se ame, certamente. Mas o preocupante não é você ter um emprego ruim em algum momento: o preocupante é você não ter a menor perspectiva de sair daquilo; é achar que vai se aposentar fazendo algo que odeia. O ruim, mesmo, é você estar convicto de que não é possível achar um meio termo saudável entre o masoquismo do varejo e o estrelato do rock and roll. Certamente existe uma terceira opção. E não ver isso causa um desânimo perigoso. 
Obviamente eu não estou aqui incentivando ninguém a jogar tudo para o alto e viver apenas de sua arte. Todos sabem que isso não é algo exatamente fácil. Mas o que eu me dei conta é de que é possível estar envolvido com o que se ama em diversos âmbitos, e assim se sustentar, mesmo que nem sempre a maré seja muito favorável. E, após observar a vida de minha professora, conheci inúmeras pessoas que viviam o mesmo tipo de vida. E estas pessoas certamente sempre estiveram ao meu redor, mas enxergar algo que não sabemos que existe é mais difícil.
Para enfatizar a questão de que não se trata de viver nas nuvens, mas exatamente o contrário, dou mais um exemplo: vivo com um artista plástico. E o que ele faz para viver? Dá aulas de arte. Esta pessoa tem como assunto a arte, sempre, em sua produção artística e em sua vida profissional. Esta pessoa se alimenta graças às horas que ele investe falando sobre Picasso, Matisse e Van Gogh com seus alunos. Conclusão: caso ele tenha ouvido, em algum momento durante sua infância ou adolescência, que não conseguiria se sustentar com a arte, podemos concluir que ele ouviu uma mentira.
Lembro que um pouco antes das aulas com minha professora, em 2006, comecei a cantar em um grupo coral. E lá também percebi algo interessante: havia no grupo pessoas que, além de cantar ali, atuavam em peças, faziam assistência de regência em outros coros, faziam trilhas para teatro etc. Neste momento também descobri que era possível ter um grande envolvimento com as artes, de diversas formas. Aquelas eram as pessoas mais proativas que eu havia conhecido até então, e as mais envolvidas com assuntos interessantes. Eu não estava pensando na questão do sustento, ainda, mas as vidas daquelas pessoas eram cheias de momentos divertidos e experiências marcantes. Foi uma época bastante inspiradora, também.
Por que será que se perpetua essa mentira? Por que será que se omite o detalhe de que é possível viver de artes? Em muitos casos, apenas quando já se é “gente grande” descobre-se o engodo. Daí para um adulto dar o braço a torcer / entender que tem o direito de seguir algo que gosta, é um pouco mais difícil. A gente tem essa cultura (insisto em falar nisso) de que é na infância que tudo começa, e que iniciar uma nova vida depois de adulto é algo risível e menos digno de respeito. O estrago feito torna-se irreversível, então, mesmo não sendo.
O que eu demorei muito para entender, também, é que o padrão dos outros geralmente é diferente do nosso. Descobri que o padrão de vida de muitas pessoas à minha volta é bastante alto, mesmo que elas achem que não. Meu padrão menos ambicioso faz com que eu precise de menos para viver (minha fase consumista – que começou quando eu trabalhava no varejo, olha que coisa – foi encerrada há alguns anos, graças ao convívio com pessoas econômicas e criativas, que me mostraram que a vida é muito mais do que grana e consumo), mas o padrão de muitas das pessoas que acham que a arte não sustenta ninguém é elevadíssimo. Elas precisam de muito para viver. E talvez não pensem que muitos artistas só querem viver com dignidade. Idas frequentes a restaurantes, escola particular, comprar sem ver o preço, celular caro: tem gente que vive muito bem (muito, mesmo) sem tudo isso aí que eu falei; ou porque não gosta, ou porque aprendeu a não desejar o que sua receita não permite. Talvez não seja necessário ninguém se preocupar com aquela criança que tem “tendências artísticas” (hahaha). Pode ser que o tipo de vida que ela venha a almejar seja bem mais simples, sem grandes desejos perdulários, sem buscar este tipo de “satisfação” que só a grana dá.  
Não estou aqui fazendo ou pregando voto de pobreza, muito menos estou enaltecendo uma vida sem graça, imóvel, sem desejo. Pelo contrário, sou entusiasta de uma vida cheia de eventos, encontros e muita arte (falo de quantidade e intensidade: luxo para todos). E esta arte, esses eventos e esses encontros podem acontecer mesmo que se tenha pouca grana. Mas se o seu padrão for alto, nunca conseguiremos entrar em um consenso sobre a quantia necessária para se viver. Para mim luxo (já que mencionei essa palavra) é poder ver boas peças e bons shows, ter um teto, me alimentar, viajar de ônibus, caminhar horas pela cidade. Luxo é ter tempo para gastar comigo. 
Foi bom entender que fui influenciada por uma fala recorrente, persistente e enganosa, desde sempre. Foi bom entender que há uma mística em volta da arte, e esta mística se torna verdade de tanto que acreditamos nela. E foi bom entender que a realidade não necessita de muita mágica, eu diria: quanto mais dedicação, mais chances de se viver de arte. Não digo que seja fácil; digo que a lógica é simples. 
Penso que o senso comum derrotista, disfarçado de mística, só serve para endeusar estrelas da música (desumanizando-as) e boicotar, desesperadamente, os planos de quem simplesmente deseja viver fazendo algo que gosta. A realidade, felizmente, tem deposto contra esta falácia na qual muitos de nós acreditamos.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Vivendo pela palavra (e para a arte)




Finalizando o livro Vivendo pela palavra, de Alice Walker, chego ao texto “Por que a galinha balinesa atravessou a estrada?”. Este ensaio me chamou bastante a atenção – e fez com que eu pensasse sobre a forma como levamos adiante (ou não) nossas ideias até que virem texto/música/arte em geral.
Alice, após voltar de uma viagem a Bali, não conseguia esquecer uma cena que presenciara: uma galinha tentando atravessar a rua com seus filhotes. Uma galinha que, enquanto não conseguia chegar ao outro lado, procurava alimentos no chão para si e seus pintinhos. “Eu realmente a vi”, conta. “Tinha a pose orgulhosa e firme das galinhas, que nos dá a impressão de que as aves, especialmente galinhas, têm personalidade e vontade”. Aquela havia sido sua experiência mais marcante em Bali, “ter visto realmente e me identificado com uma galinha”.
Todos os textos deste livro me impressionaram. Eu poderia falar de cada um deles, e seria um prazer, mas o que me chamou a atenção neste, especificamente, foi o fato da escritora ter finalmente resolvido falar sobre algo que pode ser considerado pueril, estranho, despropositado. Como é isso de se identificar com uma galinha? Como é isso de não conseguir esquecer a visão de um animal? Como é isso de ouvir a voz deste bicho – como Alice descreve, na primeira linha do texto –, em tom de cobrança, perguntando: “Por que você está sempre adiando a tarefa de escrever a meu respeito?”. 
Isso me fez pensar no quanto o artista pode ter vergonha de falar sobre o que realmente quer falar. Afinal, sempre haverá críticos para todo e qualquer tópico que escolhermos: natureza, política, amor, literatura, psicologia... Qualquer assunto existente poderá ser ridicularizado e visto com desdém, mesmo que nós, os autores, nunca saibamos disso. Qualquer forma de abordar qualquer tema que seja causará desagrados, e isso é garantido.
Lendo todo o livro de Alice pensei no quanto muitos de nós nos importamos com a recepção daquilo que fazemos – e, principalmente, com a opinião daqueles que mais admiramos (acho que uma boa prova de fogo na vida, em geral, é não se deixar levar pelo caminho que as pessoas mais importantes para nós nos impõem/sugerem). Porque Alice também escreve sobre os olhos de um cavalo (no qual via um enorme tédio, por viver sozinho no pasto); sobre seus próprios cabelos (suas “antenas”); sobre o sonho onde era namorada de Langston Hughes; sobre outro sonho onde uma anciã lhe dava o título deste mesmo livro, Living by the word; nos mostra uma carta que escreveu para Deus – e tudo isso é íntimo e pessoal demais, talvez feminino demais (ha!). Neste mesmo livro, no ensaio “No recesso da alma”, Alice fala sobre K. T. H. Cheatwood, que a criticou duramente, por exemplo, por escrever uma poesia sobre o estupro sofrido por sua tetravó, e por ver a escritora como uma “amante das afetações burguesas”, entre tantas outras acusações mais graves (como ser uma escritora negra “no fundo cheia de ódio pelos negros”, escreveu o crítico, também negro).
Alice Walker não tem vergonha de ser extremamente espiritual. Não pode abafar o que precisa escrever, pois isso seria abafar quem ela é. Esta é uma das mais fortes características de sua escrita – falar de Deus, de meditação, de sonhos, sua conexão com os animais: falar do transcendental. Que tipo de escritora seria Walker se abafasse o que tem de mais específico? O que seria de sua escrita se ela se importasse com a opinião de quem acha tudo isso ridículo?
Daí quis me perguntar: o que acontece conosco quando deixamos de falar algo que precisamos falar? Qual o efeito de uma palavra que nós censuramos em uma canção ou texto, por exemplo, por medo do julgamento? Qual o prejuízo interno quando censuramos a ideia inteira de um texto, antes mesmo de começarmos a escrevê-lo?
O que acontece quando podamos quem somos graças à preocupação excessiva com o impacto daquilo que temos a dizer?
Ontem me mostraram esta fala do artista Artur Barrio, e acho que ela tem muito a ver com tudo o que tenho pensado e sentido ultimamente: “Essa preocupação com o público, de atingir determinada corda vibratória para que isso deflagre um tipo de comunicação ou participação na obra, eu me afastei completamente disso e não tenho nenhum interesse em saber qual será a reação do público, ou se eles vão aceitar ou não. Eu faço o trabalho como se fosse estritamente para mim, não no sentido de usufruí-lo ou contemplá-lo, mas no ato de fazê-lo, criá-lo. (...) Eu não vou me dar ao luxo de pensar no outro. É um egoísmo, mas é um egoísmo criativo.”
Esta fala de Barrio me fez pensar, também, em outro aspecto relativo aos “outros”, além do da crítica: o do reconhecimento. Nossa arte, em si, nos satisfaz? Ou, enquanto ela for independente, pouco reconhecida, sempre estará em falta? Enquanto não “chegarmos lá” (onde fica esse lugar, “lá”?), a arte sempre nos trará frustração neste sentido? Se soubéssemos, hoje, que o que fazemos jamais alcançará as massas, e que as coisas continuarão como estão hoje (com pouco alcance), o que aconteceria? Largaríamos o que fazemos? Ou continuaríamos fazendo nossa arte, ainda com ânimo, não nos importando com as consequências desta (e sim com a criação, em si)? 

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Febre uruguaia



Os uruguaios Jorge Drexler e Hugo Fattoruso em um belo encontro
                         


Há uma semana, exatamente, voltei de uma viagem. O giro foi relativamente rápido, mas muito gostoso, e feito inteiramente de ônibus. E uma das paradas foi o Uruguai – Montevidéu, mais especificamente. Estava animada para conhecer este lugar, e quando cheguei à cidade imediatamente começou aquilo que meu companheiro carinhosamente apelidou de “febre uruguaia”.
Saímos do terminal Tres Cruces e fomos andar pela cidade. Já pelas redondezas me encantei com as casas, as ruas quietas em plena sexta-feira, as cores. À noite, vimos a abertura do carnaval uruguaio na 18 de Julio, enquanto um vento gostoso amenizava o calor. 
Nos dias seguintes, já acompanhados do casal de amigos que mora em Montevidéu, Siri y Gabi, vivemos e vimos outras coisas na cidade. A grande feira da Tristán Narvaja, a vista do monte da Plaza del Carnaval de Uruguay, a Rambla, um ensaio de uma murga na praça Líber Seregni, os grafites e pichações políticos (“Cordón, barrio antiautoritário”, “Barrio sin racismo ni sexismo” etc.) e tantas outras coisas que anotei com detalhes apaixonados em um diário de viagem. Realmente a febre uruguaia havia me pegado de jeito: tudo me agradava, tudo parecia acima da média, mais interessante que o normal. 
Mas a visita a Montevidéu, além de me deixar febril, me ajudou a analisar um pouco melhor minha relação – e a do Brasil, de forma geral  com a cultura hispanohablante.
Sei que o sul do país, especialmente o Rio Grande do Sul, possui um contato maior com as culturas argentina e uruguaia, e que as fronteiras do norte, noroeste, oeste e sudoeste do Brasil também trocam com os países vizinhos. Mas o sudeste, onde vivo, fica muito distante desta vivência. E o eixo pelo qual mais circulo (RJ, SP e MG) quase não se comunica com este universo. Fui pensar na música feita na América Latina, e aí ficou mais evidente o pouco que sei do que acontece neste enorme continente do qual o Brasil faz parte.
O que sei de música uruguaia? Acho que conheço apenas Jorge Drexler, Hugo Fattoruso e o compositor Lyber Bermúdez. E dos países latinos, em geral? Violeta Parra (chilena), Shakira (colombiana), Maná e Carlos Santana (mexicanos), Calle 13 (porto-riquenhos), Orishas e Celia Cruz (cubanos), Mercedes Sosa, Perota Chingó, Gustavo Cerati + Soda Stereo, Fito Páez e Gotan Project (argentinos), Yma Sumac (peruana). Isso não é nada, se considerarmos o tamanho da América Latina. E fica ainda pior quando percebo que não sei o nome de um único artista da Guatemala, por exemplo.
Fui adiante, pensando no que eu conhecia da literatura e poesia latinas: os chilenos Isabel Allende, Pablo Neruda e Antonio Skármeta; o uruguaio Eduardo Galeano; o colombiano Gabriel García Márquez, os argentinos Ernesto Sabato, Julio Cortázar e Manuel Puig (ainda não li Borges, então não conta). Mais uma vez, isso não é nada, se considerarmos o tamanho da América Latina. E fica ainda pior quando percebo que não sei o nome de um único artista do Equador, por exemplo.
Na verdade, se eu enumerar todos os nomes latinos que admiro, em diversas áreas, sei que a soma total não será nada ao lado da grande quantidade de músicos, escritores, cineastas e artistas plásticos europeus e norte-americanos que conheço e aprecio. Por que isso, se hoje há internet e não dependemos da grande mídia para quase nada (nem notícias, ou melhor: muito menos notícias)? Acho que ainda não entendi que são outros os tempos; mesmo que sempre nos sejam oferecidas muito mais opções de arte europeia e norte-americana (exemplo: Netflix), sempre há, também ótimas opções latino-americanas (na própria Netflix). É só catar.
Mas, voltando à música, especificamente: todos os artistas que citei acima eu considero muito bons. E certamente há milhares de artistas incríveis na América Latina que eu, quando conhecer, irei amar. Quem será o “Caetano Veloso do Panamá”? Digo, quais serão os grandes nomes da música de cada um dos países latinos? E quais serão os artistas independentes e de ótima qualidade oriundos destes lugares?
Entendo que jamais conhecerei tudo de bom que é feito ao redor do mundo na área das artes (e nem quero: qual seria o tempo para criar minhas próprias músicas e escrever meus próprios textos? Apenas consumir a arte de terceiros não me satisfaz). Mas achei interessante me questionar sobre o pouco conhecimento que tenho – e que o sudeste brasileiro tem, diria eu – do que é produzido nos países vizinhos. E não é nada difícil estar mais sintonizado, hoje em dia. Uma boa dica é o Sofar Sounds Latin America, por exemplo, onde pode-se conhecer vários artistas independentes, de variados países hermanos.  
Voltei da viagem com a vontade de me integrar mais a esta imensidão cultural, este gigantesco universo do qual conheço tão pouco. Seria bom também aprender de vez a falar direito o castelhano, esta língua muito pouco valorizada por nós, brasileiros (que investimos bem mais no inglês). Seria bom um dia conhecer o Paraguai, por exemplo, país visto por nós como “lugar das muambas”, e matar de vez este preconceito, assim como seria bom conhecer tantos países próximos a nós que a mídia faz o favor de vender como perigosos, pobres, feios. 
Acho que ainda há entre os brasileiros muita reserva em relação aos países latino-americanos. Muitos de nós ainda preferimos viajar para lugares bem mais distantes (= caros) do que conhecer países que estão aqui, ao lado, e são tão diferentes do nosso (e, paradoxalmente, onde há uma grande identificação com o Brasil, a começar pela língua, tão semelhante à nossa). Lembro, por exemplo, que em 2006 tive a sorte de viajar para a Argentina com o grupo vocal do qual participava. Embora tenha adorado a viagem, eu ainda não estava com as antenas tão ligadas: ser sul-americana como os argentinos não bastou para que eu me conectasse de verdade a eles. Amei Buenos Aires e Mendoza, mas à época valorizei o fato de ambas parecerem cidades europeias. Muito diferente desta vez, quando valorizei exatamente o fato do Uruguai ser América Latina, e o fato da América Latina ser tão diversa.   
A febre uruguaia foi, obviamente, mais forte durante os seis dias em que estive em Montevidéu – quando apontava para tudo quanto é prédio, encantada com a arquitetura; onde curtia todas as praças; achava as frutas especialmente saborosas e os queijos mais simples os mais deliciosos; onde ouvir a língua era um deleite; onde até o vento parecia especialmente agradável –, mas creio que o efeito pós-febre foi forte, também: começar a me conectar, de vez, com a latinidade que carrego e que une a todos nós, do México à Argentina.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O mel do melhor

Admiro muito Cátia de França e Sixto Rodriguez. São dois artistas que me inspiram. As letras de Cátia, sua pegada no violão, suas melodias, seu jeito de cantar. A poesia de Sixto, suas letras carregadas de política, sua voz. Mas também amo as atitudes destes dois, a forma como se mostram. E ambos têm algo muito interessante em comum: uma vaidade que parece ser ínfima, um ego que parece não precisar ser lustrado. E ambos são donos de uma aparência marcante, que não atende às expectativas do tal "mercado" (se atendesse, jamais seria marcante).
Pensando nisso, outro dia me toquei de algo: acho que nunca conseguiremos tirar destes artistas nada além daquilo que eles têm de melhor. Acho que eles nunca oferecerão nada além disso, sabe? Felizmente, pelo visto só teremos acesso a seus momentos mais brilhantes – ou seja, sua arte, o mel do melhor.
Não digo isso querendo endeusar Rodriguez ou Cátia de França, muito pelo contrário: digo isso porque acredito que a humanidade deles é visível, escancarada, e não há, ali, vontade de esconder isso. A perfeição (aquela, idealizada) não é para eles.
Não se trata, aqui, de reforçar aquela noção cristã que prega a culpabilização do corpo. Penso que o corpo, quando celebrado, nos salva de problemas enormes, nos faz entender coisas que a mente, sozinha, não alcança. O corpo é uma arma maravilhosa. E a questão é exatamente esta: o corpo, todo tipo de corpo, deve ser celebrado, vivido com alegria, e merece se livrar das couraças que vamos criando durante a vida. E entendo que este corpo só pode salvar nossas mentes se for amado incondicionalmente. Fora disso, torna-se prisão – mais uma para a nossa coleção de cárceres voluntários. (E amá-lo incondicionalmente pode significar modificar o próprio corpo, da forma que se desejar, de acordo com a própria vontade, e não a do outro. Mas qual é a nossa real vontade? Rápido exemplo: na adolescência me achava bonita, e fiquei chateada quando percebi que estava começando a gostar menos de mim com o passar do tempo, graças a algumas piadinhas esporádicas de terceiros em relação ao meu nariz. Se eu quisesse modificar meu rosto devido a isso, seria a pior das razões. É disso que estou falando.)
Também não exalto aqui a postura de Cátia e Sixto segundo um gosto pessoal em relação à beleza. Mas tenho consciência de que estes dois artistas não atendem a padrões exigidos a todos (padrões estes que apenas um seleto grupo consegue atender, nascendo do jeito "certo" ou corrigindo isso através de intervenções cirúrgicas – daquelas inspiradas pelos piores motivos, como mencionado acima – e uma dispendiosa manutenção do corpo).
A pouca vaidade e o pouco ego que vejo nestas duas grandes figuras me fez pensar no quanto gosto desta escolha de vida. O quanto é bom poder me espelhar em artistas que procuram falar de sua arte, e não tanto de sua imagem. Nenhum dos dois tem cara de artista (hahahaha!), aquele artista, né, que precisa se cuidar, oras, e caprichar no visual, pô, alimentar bem a timeline do Facebook, colocando fotos e mais fotos, mesmo que não tenha muito a dizer naquele exato momento (mas é preciso postar, “para não ser esquecido", entende? – essas coisas nas quais a gente acaba acreditando e que apenas servem para gastar nossa energia).
O que me fascina nestes indivíduos que resolvi abordar aqui é esta pouca importância que dão às suas imagens. Parecem desperdiçar pouco tempo com isso, parecem não ser escravos das aparências. Para uma pessoa vaidosa como eu (e que ainda assim se espanta com a excessiva vaidade no mundo da música, especificamente, e no mundo todo, em geral), observá-los é valioso; deixar-me influenciar por eles, melhor ainda. Saber que posso viver minha arte sem atender a demandas loucas (que se tornaram normas tácitas) é muito bom. Não preciso me preocupar com imagem, caso não queira. Meus momentos criativos não serão piores se minha aparência for insignificante. Penso que podem ser até melhores. 
Este assunto (beleza) é um que me intriga há tempos, e falo e penso nisso em grande parte de meu tempo. E ao falar sobre este assunto vou me livrando, aos poucos, de estigmas, de vícios, de ideias nocivas que foram me vulnerabilizando e que sei que vão fragilizando a todos nós. É visível: somos uma sociedade afetada por esta noção cruel de que alguns deram sorte na loteria física, outros não. 
Vejo uma diferença abissal entre se cuidar (gostar de si) e ser escravizado por uma obsessão com a própria imagem. Na realidade penso que quando nos tornamos obsessivos estamos claramente indo mal no quesito amor próprio – apenas a aparência nos legitima, nada mais. E a aprovação dos outros é o troféu. Nada mais frágil!
O que Rodriguez e Cátia me passam é algo muito positivo, mesmo que ambos tenham (certamente) suas crises, seus problemas, suas insatisfações. Mas o que me inspira é ver esta postura tão contra a corrente, esta atitude de quem se segura em sua música, sua arte. A imagem destes dois é apenas um detalhe inevitável – e, talvez exatamente por isso, seja uma imagem das mais belas.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Não vou me adaptar

Ando pensando sem parar na questão da inadequação. Quantos de nós já se sentiram inadequados? Quantos de nós ainda se sentem assim?
Eu diria que todos, absolutamente todos os seres humanos. A única questão é que alguns assumem isto, outros não (não digo publicamente, mas assumir para si).
Falando de mim: esta sensação foi bem frequente durante a adolescência, mesmo tendo um forte (e pequeno: éramos quatro, apenas) grupo de amigos na escola. Saindo daquele ambiente, vivia diversos momentos de inadequação. Esta sensação veio ainda mais forte quando, aos 16 anos, tive um namorado que certamente poderia ser classificado como um playboy – e é importante usar este termo, pois o mesmo diz muito sobre a inadequação que eu sentia. Analisando hoje, vejo que foi a partir desta época que passei a me ver tímida de um jeito que eu desconhecia (era um suplício estar perto dos amigos e amigas dele, às vezes de sua família também). E houve um momento crucial, que foi quando o rapaz, certa vez, disse “você não conhece ninguém”, em meio a uma conversa nossa sobre amigos e conhecidos. A partir daí, tornei-me uma viciada em conhecer pessoas. Eu precisava mostrar que era capaz de ter muitos, muitos amigos, conhecidos etc; que “eu conhecia pessoas, sim”. A partir deste breve namoro, e muito tempo após o término do mesmo, tudo ficou mais superficial – e é aí que muita coisa pode degringolar na vida de alguém: procura-se qualquer amizade, qualquer companhia, quer-se desesperadamente fazer parte de algo, sabe-se lá o quê, e na verdade não importa o quê. O foco é provar para uma pessoa, para várias, para o mundo, que você é um sujeito, que você se relaciona, que você tem ocupações, que você troca ideias, que você existe (através de outros).
Falei desta sensação na adolescência – um período onde todos se sentem especialmente inadequados – para poder falar sobre o quanto tenho me sentido inadequada ultimamente, adulta, mulher feita, “bem resolvida” (hahahah). Poderia dizer que venho me sentindo assim, por diversas razões, há uns quatro anos. Mas, pela primeira vez, tenho visto isso como algo bom.
Por que agora isso se tornou algo positivo? Deve ser porque, de tanto pensar nisso, em quem sou, em meu ego, em minhas carências, em minhas culpas estranhas e despropositadas, tenho entendido que, às vezes, sentir-se inadequado em certos ambientes é a melhor reação possível. Deve ser porque vejo a ânsia que todos nós temos em nos adaptarmos e, toda vez que não me adapto, vejo que posso estar indo por um caminho mais interessante do que aquele onde eu apenas seguiria um grupo. Deve ser porque tenho visto que ir aonde todos vão, sem se preocupar em saber que lugar é esse, muitas vezes pode ser a pior escolha. Deve ser porque tenho entendido que o que nos torna estranhos (a nossos olhos, aos olhos de outros) é o que mais nos identifica, é o que nos torna quem somos. Quando abrimos mão de características nossas apenas pelo desejo de sermos mais um na multidão, perdemos um pouco de nossa essência. Mudar pela vontade de melhorar é ótimo; mas se censurar/odiar simplesmente por suas manias, desejos, hábitos, mesmo quando sabemos que estes não são nocivos, é péssimo.
Tenho pensado neste amor à toda prova que precisamos sentir por nós mesmos. Um amor que deveria ser incondicional, aliado ao discernimento necessário para enxergarmos nossos erros. Um amor profundo que pudesse ignorar, na medida do possível, todo ataque infundado, toda a tentativa de diminuição e exclusão.
Pois eu vejo o amor incondicional que certas pessoas sentem por elas mesmas, e isso me inspira. Pessoas que não se importam com um deboche. Que não levam a sério qualquer tipo de provocação. Que não precisam rebater aqueles que as tentam diminuir, tão confiantes estão em tudo o que fazem e sentem. Imagine você se gostar tanto que, mesmo se um povo inteiro estivesse contra você, esse gostar continuasse lá, inquebrantável... Como o Dr. Stockmann em Um inimigo do povo, odiado por toda uma cidade e permanecendo inabalável; como Lucas, em A caça, permanecendo altivo mesmo quando acusado de um crime terrível; como Brizola, aguentando um auditório inteiro rindo de sua cara e se mantendo firme às suas convicções (indignou os presentes ao falar daquela emissora, sabe como é); como tantas figuras que admiro, que aguentam uma multidão de haters e não encerram suas atividades, não se moldam ao gosto de outros. Evoluem de acordo com suas próprias necessidades e vontades, mudam de acordo com o que o próprio coração delas pede.
O que entendi é que todos nós tendemos a seguir caminhos por vezes solitários (pois isso é algo que a vida exige), mas muito frequentemente desistimos para que não nos sintamos esquisitos. Certas vezes fugimos, a qualquer custo, de um momento conosco. Há uma frase de Pascal que sempre me vêm à mente: “Toda a infelicidade do homem vem de uma incapacidade de ficar em seu quarto sozinho”. A convivência em sociedade, os amigos, as relações de trabalho: tudo isso é necessário e inevitável (e pode ser muito bom), mas disso já sabemos, isso já vivemos. O que acho que ainda não fazemos é falar sobre a solidão; não sobre a sua importância. Preferimos falar da solidão como algo ligado à tristeza, melancolia, depressão e principalmente fracasso (esta última é a palavra mais assustadora nos dias de hoje, em meio às redes sociais e fotos aparentemente alegres com família, amigos etc.). A solidão ainda é muito relacionada a algo que não escolhemos, a uma condição involuntária, jamais uma opção. É comum alguém ir sozinho a um show ou qualquer evento, encontrar algum conhecido por lá e este perguntar, abismado: “Mas você está sozinho?” – talvez verdadeiramente preocupado, talvez constatando que você não está nada bem para chegar àquele ponto. Estar sozinho, aos olhos de tantos, é o mesmo que estar no fundo do poço.  
2017 foi um ano valioso no que diz respeito à percepção deste assunto, para mim. Acho que entendi (quase) de vez minha inadequação, acho que a absorvi de uma forma muito positiva. Meus momentos de solidão se tornaram ainda mais instigantes, os períodos em que posso me isolar se tornaram mais profícuos. Continuo adorando festas e a companhia dos amigos. Apenas sinto que estes momentos não precisam ser tão frequentes quanto precisavam.
Certo dia li no Facebook um texto de uma moça onde ela descrevia um pouco desta inadequação que todos nós sentimos em algum momento:
Um dia a gente ainda vai ter uma conversa honesta sobre a vida com autoestima baixa. Sobre achar que as pessoas não gostam de você, que não confiam, que guardam segredos de você. Sobre achar que sempre tem alguém melhor que você em praticamente qualquer coisa e que você não é especial e singular em nada. A gente ainda vai conversar sobre o inferno que é viver pensando que as pessoas ainda te leem por erros que você cometeu oito, dez anos atrás. Sobre chegar em casa e não conseguir dormir porque ficou achando que falou uma ou outra coisa equivocada ou no tom errado pra alguém. A gente ainda vai conversar sobre o suplício que é dizer um não. A gente ainda vai ter uma conversa sobre sentir isso toda semana, sobre ter medo de se aproximar, de convidar pra um café, de fazer perguntas íntimas pras pessoas. Sobre achar que todos têm seus pares e se sentir meio número primo que compõe os conjuntos por mero acaso. (...) [Lara Vasconcelos]
Todos já se sentiram assim, mesmo que apenas em momentos pontuais. Por que fingiríamos, então, que isso não faz parte da vida? Por que o horror em assumir que aquela pessoa lá não gosta da gente? Ou, ainda, que estamos sozinhos por que não fomos convidados para aquela reuniãozinha (sim, falemos da solidão involuntária, também)? A psicóloga Joan Rosenberg tem uma incrível fala no TED Talks que aborda exatamente este assunto. Ela enumera oito sentimentos que consideramos negativos (tristeza, vergonha, sentimento de incapacidade, raiva, vulnerabilidade – sendo este um dos que acho mais importantes de abordarmos hoje em dia – constrangimento, desapontamento e frustração), e afirma que é importante deixarmos de considerá-los ruins ou negativos, visto que são apenas desconfortáveis. Joan inicia sua fala narrando um episódio que a marcou e a ajudou a se tornar a profissional que hoje é. Aos 19 anos, tentando entrar em uma conversa de outras meninas, uma destas se vira para ela e afirma, simplesmente: “Ei, Joan, quer saber? Você é chata!”. É interessante pensar que um momento de grande terror para Joan (visto que ouvir aquilo era o que ela mais temia ouvir) pode ser visto por outros como algo ridículo, bobo. Mas a grande atenção que Joan deu a este momento, sua vontade de entendê-lo, a vontade de entender a imensa dor que este lhe trouxera, fez com que ela conseguisse não apenas superá-lo, com o tempo, mas ajudar outras pessoas a superarem outras dores, pois foi muito graças a isso que Joan quis se tornar psicóloga. Valeu muito a ela ter enfrentado aquele momento desconfortável, e tantos outros, subsequentes, e ter como saldo uma grande paz consigo.
Ainda assim, meu ego fica indignado toda vez que alguém que admiro não quer estar perto de mim. Meu ego fica furioso toda vez que não consigo mostrar que sou capaz. Meu ego se entristece muito sempre que eu sou ignorada, discreta ou ostensivamente. Mas pensar nisso, dar atenção a isso e tentar entender o porquê disso ser dolorido fez com que eu terminasse o ano de 2017 com a sensação de ter dado importantes passos em relação à enorme vaidade que carrego. Minha inadequação a algumas situações, ambientes e grupos fez com que eu entendesse, antes tarde do que nunca, que estou me adequando razoavelmente bem àquilo que sou.

sábado, 25 de novembro de 2017

O gosto da criação

Sempre lembro de uma palestra-conversa de Edu Krieger, realizada em 2015, onde o compositor falou sobre seu processo de criação. Foi uma tarde agradável, discordei de alguns pontos, concordei com vários outros, tudo ok. Mas, com o passar do tempo, fui percebendo que eu citava uma ou outra fala de Edu com amigos, vira e mexe, e que até mesmo compus algumas vezes pensando em certos pontos que ele tinha abordado. Entendi, então, que aquela tarde havia sido bem mais importante do que apenas agradável.
 Lembro vez ou outra de Edu falando, por exemplo, sobre o quanto é proveitoso ouvirmos aqueles que influenciaram os artistas que admiramos: “Como adorava Chico Buarque, fui ouvir Noel Rosa”, disse ele. Lembro de Edu nos falando sobre como, ainda muito novo, suas canções ainda tinham um excesso de inocência e eram por demais “violonísticas” (entendi isso como: um pouco viciadas naquilo que os acordes proporcionam, um pouco reféns daquilo que ele, como violonista, fazia com o instrumento). Nos falou sobre como é bom um pouco de “veneno” nas canções, algo obscuro em algum momento, um pouco de “maldade”. Falou isso e muito mais, inúmeras coisas que não saíram de minha cabeça e outras poucas que devem ter saído. Mas o mais bacana foi perceber o quanto é um grande privilégio saber sobre o processo de criação de alguém. Vi o quanto conversar sobre criação é proveitoso, o quanto se entende um pouco melhor do próprio processo ao ouvir como funciona o do outro.
Também em 2015, ano em que quis voltar a escrever e compor, li algumas matérias sobre o assunto na internet. E digo que me incentivou muito ler artigos onde compositores falavam sobre seus processos, todos generosos, incentivando aqueles (muitos) que, como eu, ou estavam enferrujados depois de tanto tempo sem praticar, ou ainda não haviam começado a prática, e por isso sentiam-se como se estivessem diante de algo misterioso.
Há pouco tempo um colega compositor criou um grupo no Facebook para falar sobre o processo de composição e poder trocar impressões com outros músicos. Foi bacana vê-lo descrever seu medo em iniciar uma nova canção, por exemplo – algo que também acontece comigo, algo que deve acontecer com tantos por aí. Acho ótima esta iniciativa de falar sobre um assunto que muitas vezes fica meio de lado, por várias possíveis razões.
Por isso considero generosa a atitude de todos que se se dispõem a falar sobre, que gostam de falar sobre (porque ninguém é obrigado a gostar de dividir isso). É bom saber da dúvida de outros, é bom saber qual a técnica, de cada um. Li agora, por exemplo, um pequeno artigo que rapidamente explicava a técnica de criação de David Bowie, a cut up technique. Recomendo a leitura, até mesmo porque há um rápido vídeo do próprio Bowie mostrando como esta técnica funciona.  
E dia desses achei um vídeo muito bacana da Karol Conka, onde ela, em um making of da gravação de “Tombei”, acabou mostrando um pouco do processo de criação desta música. É muito legal ver como a letra vai nascendo, como Karol vai gravando alguns trechos e depois diz que ela e Zegon (Tropkillaz) se encarregarão de colocar mais “músculo” na canção, que por ora ainda é só um “esqueleto”.
Ah, também não posso deixar de mencionar o livro Todas as letras de Gilberto Gil. É muito bacana ler os depoimentos de Gil sobre a criação de “Sandra” e de tantas outras. Recomendo a leitura a qualquer um, compositor ou não.
Para terminar, lembrei de mais um rápido episódio, aqui em casa: estava há um tempinho empacada em duas canções cujas letras fiquei feliz de ter escrito, mas suas melodias não me estavam satisfazendo de jeito nenhum. Daí resolvi falar como o meu companheiro, que foi muito prolífico como compositor (e hoje o é nas artes plásticas), para ver se eu estava sendo só preguiçosa ou se era assim com todo mundo: “Você conseguia fazer uma música sobre qualquer assunto que quisesse abordar?”. Ele me disse que não, que às vezes não rolava, às vezes era mesmo complexo criar uma melodia para uma letra específica, e unir os elementos melodia e letra nem sempre é fácil. Gostei de compartilhar minha dúvida, porque entendi que às vezes a coisa não sai, mesmo, e não necessariamente trata-se de preguiça. Pode ser que valha a pena tentar uma parceria (foi o que fiz). Ou deixar passar um tempo até que a letra/melodia pareça nova...
                      O interessante é que fiz este blog para falar principalmente sobre criação, mas é inevitável cair em outros assuntos, também tão bacanas de serem desenvolvidos quanto o da composição. E continuarei abordando outros tópicos, mas desejo falar mais vezes sobre este momento em que temos uma ideia e sobre tudo o que vem depois disso – o esforço para materializá-la, desenvolvê-la, melhorá-la. Ajudar a desmistificar um pouco esse momento e também essa capacidade, que todos os seres humanos têm. 

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O que a arte fez com o meu corpo



Atualmente temos testemunhado/sabido de questões muito emblemáticas em relação ao corpo. A mostra Queermuseu, cancelada pela instituição que a abrigava, e a performance La bête, do artista Wagner Schwartz, foram dois tópicos que surgiram recentemente, com grande alarme e pouquíssima ou nenhuma reflexão da parte de quem se chocou com ambas (o alarme foi tão grande e escandaloso que poderia se pensar que nada parecido já havia sido feito nas artes). Mas entendi de vez, com estes dois episódios, que quando se trata de corpo e sexualidade nós não estamos, quase nunca, dispostos a pensar sobre o assunto...
Há algum tempo inventei um termo para algo que percebi ser um fenômeno bastante comum: a baixaria dos domingos em família. Já repararam? Se não, reparem. O “domingo” é só um emblema, pode ser qualquer dia da semana. Pode ser um comentário sobre o tamanho da pica de um bebê, por exemplo (aliás, querem falar de tamanho de pênis? Sugiro o documentário Unhung Hero.) Pode ser um comentário, em uma festa repleta de crianças e idosos, sobre “aquela piranha lá”, ou “aquele viado lá”. Pode ser aquele momento em que aquele parente acha que você não está na sala, bem atrás dele, e fala, vendo TV: “Que gostosa!” (sobre uma menina de uns 20 anos, aliás), e você finalmente descobre que seu parente é igualzinho àqueles caras que sempre mexem contigo na rua, da forma mais invasiva e desrespeitosa possível. Pode ser aquele momento em que outro familiar comenta que aquela bicha, lá, deve estar feliz porque acabou de dar (“só pode”). Acho que já deu para entender o que é a baixaria dos domingos em família. Não é discussão ou diálogo sobre sexualidade. É só tratar o sexo como se fosse a coisa mais suja de todas (e é isso o que achamos que o sexo é) e fazer piadinhas sobre. Pronto!
Dito isso, queria falar um pouco sobre o quanto a arte me levou a conhecer melhor meu corpo e minha liberdade. E o quanto a arte foi me afastando desse universo chulo, e me levando, aos poucos, para um universo muito mais livre. Um universo onde me senti dona de mim e do meu corpo, um mundo de uma vivência ora alegre (festiva e colorida), ora densa (onde o autoconhecimento leva a experiências radicais). Fui observando o quão livres eram outros artistas, e me sentindo livre também por estar em contato direto com eles, ou só por conhecer suas obras.
Apesar de ter me formado em Comunicação, nos corredores da faculdade ganhei dois grandes presentes, que iriam influenciar e incrementar muito minha vida artística: o canto coral e o teatro. O canto coral foi incrível, e ainda falarei sobre esta vivência em outro texto. Mas começar a fazer teatro, especificamente, me proporcionou aquela sensação deliciosa de matar uma vontade antiga. Naquele ambiente eu me senti bem, e senti que eu me nutria de algo importantíssimo, extremamente necessário para a pessoa que era e ainda sou. (Engraçado que até anotei em minha agenda o dia em que comecei a frequentar o teatro – acho que eu já sabia o quanto aquilo seria importante em minha vida.) Só saí do grupo dois anos depois, quando comecei a trabalhar em um horário mais restrito. Foram dois anos prazerosos e alegres (2007 a 2009), e graças a esta experiência me inscrevi na Escola de Teatro Martins Penna, ingressando em 2010. Nesta última, vivi uma imensidão de subjetividades. Foi uma experiência das mais gratificantes, onde eu e meus colegas de turma trabalhamos nossos corpos sem receios, sem não-me-toques, e com plena confiança. Lá dei prosseguimento ao que o Grutacha (o grupo de teatro da faculdade) havia despertado em mim. Dei sorte de estar em uma turma confiável e amiga, e com ela quebrei vários desses tabus mínimos, quase imperceptíveis, que carregamos em nosso dia a dia.
Mas eu poderia dizer que, falando em ambientes onde meu corpo se sentiu mais livre, o Tá na Rua tem grande destaque. No início de 2016 comecei a conviver com o grupo, e neste conheci a despressurização corporal proposta por Amir Haddad. É algo tão forte e bonito que só vivendo, mesmo. Mas posso dizer que as dramaturgias, escritas com o corpo em cima de diferentes músicas, por duas horas, sem parar, fazem com que, aos poucos, caiam as nossas máscaras. Damos bandeira, mostramos quem somos, nossos medos, nossos desejos, nossa alegria, nossa melancolia, nossa inveja, nossa admiração pelo outro, nosso ciúme, nosso descontrole, nossa violência, nossa inocência, nossa malícia, nossa timidez, nossas inúmeras repressões. Tudo isso com uma dancinha, uma dancinha que vai nos levando, levando, e com o tempo nada mais temos a fazer a não ser mostrar o que vivemos tentando esconder.
E, curiosamente, eu poderia dizer que o Teatro Oficina, do qual nunca fiz parte, me influencia a repensar meu corpo tanto quanto o Tá na Rua. Estes dois grupos que tanto admiro têm um trabalho muito importante no que diz respeito à fisicalidade. A diferença é que dentro do Tá na Rua eu consigo viver isso com muito mais frequência do que apenas em visitas esporádicas ao Bixiga. Mas cada apresentação do Oficina – grupo que certamente tem uma forte ênfase na sexualidade (como celebração, mas também como política) – reverbera durante semanas, meses, em mim. É muito material para pensar, é muita coisa para sentir, e isso tudo fica ecoando e vai me libertando, cada vez mais.
(E as falas de Zé Celso e de Amir Haddad – diretores do Oficina e do Tá na Rua, respectivamente –, impressas em jornais ou livros, ou em vídeo, ou testemunhadas pessoalmente, também ficam muito tempo comigo e me ajudam a entender muito do que sou.)
Indo para a seara da performance, esse campo tão impactante e ainda relativamente tão novo, lembro de ter ido, em 2015, ver a exposição Terra comunal, de Marina Abramovic, no Sesc Pompeia. Vi um registro de Marina e seu então companheiro, Ulay, nus, em uma porta, “atravancando” a entrada dos convidados, obrigando-os a um contato com seus corpos despidos. Vi um registro de Marina muito jovem, dizendo, vezes sem conta, “Art must be beautiful, artist must be beautiful”, escovando seus cabelos sem parar (me pegando no pulo, pois caí no jogo e pensei: “como ela era bonita!”). Vi um registro da performance na qual Marina, durante doze dias, viveu em um pequeno cubículo, em uma galeria de Nova York, totalmente exposta, como uma obra viva, bebendo apenas água, indo ao banheiro, tomando banho, dormindo e meditando na frente do público. Tudo isso ecoa até hoje em mim, me obrigando a refletir sobre o que é o corpo, o porquê dele ser visto com tanto pudor, e de onde vem esse problemão quando se utiliza o corpo como sujeito, e não como objeto (porque objetificar o próprio corpo é sucesso garantido, correto? O problema é utilizar o corpo como plataforma, manifesto, celebração; o problema é ser sujeito, repito).
Mas são tantas e tantas contribuições que a arte fez em minha vida. Como contabilizá-las? As transcrições de áudio que fiz de entrevistas do grupo EmpreZa, podendo compreender melhor suas radicais experiências com o corpo; o filme Pina e suas lindas cenas de uma dança que demorei tanto a entender; as preparações corporais que tive o prazer de viver, em diferentes ocasiões que a arte me proporcionou (com Luísa Pitta, Laura Lagub, Mario Mendes, Michel Robin, Adriana Bonfatti etc.); a Marxha das cem tetas, de Iroshi Xanai; as fotografias de nu feminino e feminista para o projeto Rugidos uterinos, de Amanda Nakao; ou apenas saber da existência da performance O corpo é a obra, de Antonio Manuel, circulando nu, em plena ditadura, pelo XIX Salão de Arte Moderna, no MAM-RJ. (Estes exemplos são gotas em um oceano, o oceano de toda a arte que pude ver em 34 anos.)
Acho todas estas formas de lidar com a corporalidade muito mais saudáveis e interessantes do que com piadinhas – sem graça, invariavelmente  sobre corpo, sexualidade, gênero etc. Piadinhas estas que, aliás, sempre terão todo o perdão ou mesmo o aval da sociedade. A baixaria dos domingos em família está liberada, desde sempre. 
E acho que, apesar do corpo ter se tornado um demônio (o corpo é uma culpa) em uma sociedade hipócrita, na arte o corpo ainda é, muito, uma celebração e catarse (eu sou uma festa), ou uma investigação profunda. As duas opções me agradam muito, e preenchem importantes lacunas em mim.
Acredito que cada pessoa tenha questões específicas que deseje/necessite desenvolver. Eu tenho assuntos específicos dos quais quero falar e dos quais quero me aproximar, e o corpo (e as repressões que o envolvem) é um destes temas que me são primordiais – e felizmente a arte fala muito sobre isso, o tempo todo. Então opto por, sempre que possível, trabalhar isso em mim pelo viés artístico: além de ser efetivo, é bem mais prazeroso.