Quanto
mais eu vejo nossa necessidade de nos classificarmos, mais vejo que não sou
nada. Profissionalmente, digo.
sábado, 9 de junho de 2018
Desclassificada
quinta-feira, 31 de maio de 2018
(Não) quero ser blasé
Qual seria o problema de quem considera tudo
ridículo? Seria uma admiração mal resolvida por quem consegue levar
adiante uma ideia ou um jeito de ser? Seria algum tipo de rancor por quem banca
ser o que é?
Lembro de achar estranho e um pouco constrangedor
Fred Schneider e o B-52’s. Que diabos era aquele cara cantando daquele jeito? E
dançando daquele jeito? Tempos depois, consegui admitir para mim que aquilo
tudo era apenas fascinante, mesmo. Os vocais de Kate Pierson e Cindy Wilson em
“Rock Lobster” eram tão estranhos quanto ótimos. Tudo aquilo era muito bom, e a
questão era só me acostumar com coisas boas.
E vi esse fenômeno acontecer diversas vezes: algo
que estranhava bastante no início logo depois se tornava um vício. Essa
rejeição inicial geralmente acontecia quando algo que eu via ou ouvia era
“muito ousado pro meu gosto”, daí demorava um pouco para digerir. Mas logo
depois eu estava amando aquilo de que antes eu estava rindo. E, hoje em dia,
inúmeras coisas que eu considerava admiráveis, cool, se tornaram
apenas ridículas (ex.: fazer o que todo mundo está fazendo, mesmo sem gostar ou
querer).
A gente vai crescendo e entendendo esse tipo de
coisa, mas a ridicularização de tudo e todos continua aí, firme e forte, com
seus dedos apontados, rindo, debochada. E este ato, por mais que saibamos que é
uma besteira, pode ter um efeito bem ruim: o de conseguir fazer com que o
ridicularizado acredite que o seu jeito, ou aquilo que ama/faz, de fato talvez
seja mesmo um pouco desprezível e deva ser repensado. O cínico -ridicularizador pode ter este poder. (Cinismo é visto
como algo admirável. O descoladão geralmente é cínico-blasé. Já reparou?)
E, como a ausência de cinismo dá um sabor de ingenuidade, esta
característica acaba sendo vista por alguns como burrice, coisa de gente pouco
vivida. A espontaneidade, esta opositora do cinismo, muitas vezes leva alguém a
ser “o estranho” do grupo. Aquela pessoa da tchurma que não tem o hábito de ser
charmosamente neurastênica, que fica um pouco à margem desse tipo de
comportamento (lembrou?), rapidamente se torna “a bobinha”. Aos olhos dos
espertos.
Acho que é a ausência do cinismo que nos dá nossa essência. Livre do
cinismo somos nós mesmos, e únicos, como todo ser humano é. Daí a gente acaba sendo
estranho do jeito que deve ser, o tal do “autêntico” (coisa que fazemos questão
de não ser).
Às vezes o cinismo vem para “fazer uma graça”, piadinhas e tal; às
vezes vem apenas por uma questão de sobrevivência, mesmo – convenhamos: parece
bem mais fácil ser apenas mais um em uma multidão de sarcásticos do que ser
aquele que vai ser zoado de tempos em tempos por não ser como o rebanho. O
cínico aprendeu com alguém a ser assim para enfim ser respeitado e levado a
sério. Pena que não se respeitou!
Lembro de certa vez que comentei com alguém sobre um filme que
abordava a amizade entre dois homens, e percebi, em
certo momento, que enquanto eu falava essa pessoa fazia um sinal com o dedo do meio (“dedo no cu”)
para que outra pessoa, também à mesa, visse e risse. Detalhe que o filme por
acaso nem era sobre um casal gay, mas sobre dois amigos, mesmo. Concluo, graças
a esse e outros trocentos casos quase idênticos: que trava nós temos com as
coisas boas e sensíveis. Que mania chata nós temos de ridicularizar qualquer
tema que não seja a vida alheia, o futebol, o trabalho; os genéricos de sempre. Estamos sempre fugindo dos assuntos mais importantes.
Talvez muita coisa se resolva com um bom
destravamento, mesmo. Creio que seja apenas esse o caso, na maioria das vezes.
Vejo que, parando de se reprimir, a coisa flui e nada mais parece tão risível,
tão desprezível. O riso fica mais compartilhado, e menos direcionado à
humilhação.
O bom é perceber que não estamos aqui para
agradar a ninguém, e que seremos, sempre, ridículos. A liberdade de não ligar
para isso (ou ligar bem pouco) é impagável. Penso sobre o quanto tentei agradar
a quem me cercava, a vida inteira. Sem cessar. O incrível é: nunca deu certo.
E felizmente não deu certo. Imagina que péssimo se eu tivesse
aberto mão de quem sou, desde sempre, e tudo fluísse às mil maravilhas? Eu só
poderia entender que a vida estava dando o recado de que devemos, sim, nos
moldar aos outros e desistir de quem somos. Felizmente, a didática da vida foi
bem clara.
quarta-feira, 23 de maio de 2018
Alegria, alegria
Drummond e Elke
Em uma das
escolas onde estive conheci uma pessoa muito alegre. Trabalhava, inclusive,
como palhaça. Esta figura, com aquela força que os alegres têm, estava sempre
animada e aberta às novas amizades que todos nós estávamos fazendo por lá, uma
turma de alunos recém-chegados. Deixando claro, não era aquela animação que não
ouve o outro, histriônica e egocêntrica; a alegria dela era uma forma de chegar
mais perto de quem a cercava, e pelo coração, mesmo. Havia um rapaz, porém, que
nutria especial cisma por esta pessoa (“seu sorriso é falso”, disse ele a ela;
“ninguém está sempre feliz daquele jeito”, disse ele sobre ela). A alegria dela
o irritava.
Não sei se
existe alguma pessoa que seja alegre e não tenha ouvido este tipo de
comentário-ataque. Acho que não. Ao mesmo tempo em que a alegria é algo
fascinante, pode despertar a irritação da galera que acha que este
sentimento-comportamento é coisa de gente burra, vazia e pouco politizada.
A escritora
Gretchen Rubin fala sobre como teve contato com pessoas conhecidas por sua
animação constante, e disse que, entrevistando-as, percebeu o quanto muitas
delas cultivavam aquele sentimento com esforço e dedicação. Talvez tivessem,
sim, uma natureza alegre, mas isso não se sustentava apenas por ser algo inato.
Era preciso, dia após dia, cuidar daquele estado “natural”, fazendo-o sempre
presente – do contrário, a vida o engoliria, sem dificuldades.
Tenho um
amigo que carrega esta característica. Sua animação é visível, e acaba sendo
contagiante. Mas, tendo tido bastante contato com ele, vi que aquela era uma
opção, uma filosofia de vida – e, mais do que isso: uma arma para
passar por este mundo de uma forma menos traumática, eu diria. Ele faz um
esforço para que esta alegria esteja com ele em todos os ambientes onde está.
Esta é uma característica que faz com que tantas e tantas pessoas comecem a rir
assim que o veem, imediatamente.
Acho esta
influência da alegria algo muito poderoso. Me faz lembrar de um caso que Elke
(Mulher Maravilha) contou, em uma entrevista, sobre seu encontro com Drummond:
Uma vez,
quando eu tinha 30 e poucos anos, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana eu dou
de cara com Carlos Drummond de Andrade. Falo com ele? Não, não tenho coragem.
Aí ele veio falar comigo. Ele me abraçou, me abraçou e falou: “Elke, eu sou
doido por você!” (...) “Pois é, você sabe que eu sou fechado, sou uma pessoa
triste, taciturna. E quando estou bem triste, ligo a televisão, te vejo, fico
alegre, fico até feliz.
Gostei muito
de saber desta fala dele. Eu acho que as pessoas alegres têm exatamente este
efeito em nossas vidas: apenas a presença delas no mundo é um alívio. Não
precisa ser nem pessoalmente – se for, melhor ainda –, mas conhecê-las faz
um bem danado. Manter perto de nós pessoas animadas com as possibilidades do
mundo pode, quem sabe, nos contagiar. A mim, sempre contagia. Não falo –
novamente – de egocentrismo, mas do exato contrário. O alegre muitas vezes é um
generoso, querendo dividir o que sente; e também lutando para não esmorecer e
não se deixar levar pela roda viva do desânimo.
(Drummond me
fez notar que Elke também sempre me faz sorrir, mesmo não estando mais aqui.
Sempre que vejo ou leio suas entrevistas, uma sensação boa me vem, e um sorriso
também, de imediato.)
Muitas
pessoas admiráveis já falaram sobre isso. A antropofagia oswaldiana me abriu os
olhos para o fato de que a alegria é a prova dos nove. Daí o teatro de Zé Celso
me fez presenciar e sentir isso. E Amir Haddad me fez ter certeza absoluta
desta afirmação, quando pude vivenciar sua teatralidade carnavalizada,
exagerada, colorida e anárquica. Confundir alegria com falta de discernimento
ou consciência política é ser (aí, sim) bastante raso. A alegria pode
revolucionar intimamente – e o pessoal é político. Creio plenamente
nisso.
Acho
importante ressaltar que me identifico muito com os taciturnos, fechados,
tímidos e reservados; e cada vez mais. Mas não acho que estes sejam os
opositores do alegre; não necessariamente. Acho que tanto um quanto o outro
desejam entender o mundo ao máximo, viver intensamente; ambos querem ter uma
existência distante da mediocridade. Porém, buscam isso de formas distintas.
Além do mais, o alegre não é alegre o tempo todo e inevitavelmente tem seus
momentos de escuridão; e a pessoa reservada também tem seus momentos de euforia
e leveza.
Eu diria que
o introvertido Drummond, o poeta melancólico das eternas dores itabiranas que
se apaixona pela alegria de Elke, é um exemplo perfeito deste entusiasmo que
todos nós desejamos ou temos dentro de nós, e que às vezes transborda na
presença de uma figura ensolarada.
segunda-feira, 14 de maio de 2018
A cara dos caretas
Um dia eu acordei de manhã,
fui no meu armário e vi que só usava preto. Eu pensei: “Nada disso”.
Peguei uma calça e rasguei toda, botei uma meia roxa, enchi a cara de
batom, desgrenhei o cabelo e fui para a rua. Levei porrada. Meu dente entrou
pelo lábio, tenho a marca até hoje. Fui parar no [hospital] Miguel Couto. Mas pior foi tomar cuspida na cara, como
aconteceu em Ipanema.
Essa declaração aí de cima é da Elke Maravilha. Já
faz alguns anos que li esta entrevista, mas nunca esqueci deste trecho, onde
ela descreve como começou a se vestir daquele jeito inconfundível – e
as consequências disso. Quando pensei em escrever sobre caretice, imediatamente
lembrei desta fala.
Eu defino caretice bem por aí: para mim o careta é
este ser humano que dá um soco em uma pessoa pelo simples fato dela ser
diferente, excêntrica – ou seja lá a palavra que venhamos a escolher para
definir a indefinível Elke – e fazer o que bem entende com sua vida (e suas
roupas). Minha imagem de caretice é essa. Nada a ver com uma pessoa certinha,
quadrada ou abstêmia – não é isso o que me vem à cabeça para falar sobre o
assunto. Caretice é algo muito mais danoso, porque tem a ver com a invasão da
vida do outro. Também é rir, pelas costas ou pela frente, das escolhas daquela
ali, do jeito ingênuo deste aqui, da voz aguda daquele lá. A caretice esbarra
na violência verbal (e por vezes na física, como vimos) e invariavelmente cai
no desrespeito.
O careta não aguenta a vastidão do mundo, o tamanho
das coisas. Todo e qualquer um que for “diferente” é piada: o sotaque de quem
vem de outra cidade, a forma de se vestir daquela menina ali, aquele rapaz que
dança desbragadamente (que tal dançar junto, ao invés de rir?). Acho que não
ser careta é algo que poucos conseguem, visto que temos uma sociedade que nos
empurra para a normopatia o tempo todo. Até dá para ser diferente, mas desde
que isso seja aprovado pela moda (certa vez uma amiga comentou, percebendo a
ironia da coisa: “As mulheres até podem adotar o visual grisalho, desde que
este seja pintado – cabelo branco natural, jamais”). Existe o diferente que a
sociedade permite, e o que ela não tolera.
Lembro que tive a – péssima – experiência de ser
mesária em 2016, e uma cena me marcou. Em certo momento, uma moça entrou
com vários adesivos de seu candidato colados em sua roupa – e um especial,
colado em sua testa. Todos os mesários foram respeitosos enquanto ela estava
ali (bem, ao menos isso), mas após sua saída a patrulha ficou falando sobre o
assunto por uns bons minutos, indignada com a atitude. Fiquei pensando: é isso
o que nos está chocando? Um adesivo na testa? (Enquanto isso, no mesmo dia, à
tarde, rolou um tiroteio intenso no Rio Comprido, perto de onde estávamos – taí
algo chocante e absurdo, para quem estava precisando.)
Eu penso que é partindo deste tipo de coisinha (a
implicância com o sotaque do outro, por exemplo... Perdoem a repetição, mas é o
meu exemplo preferido) que começamos a nos encaminhar para coisas mais graves.
Na minha percepção, rir da forma como o outro se expressa é desrespeito (não
é?), e o que é o preconceito se não exatamente isso?
E aí vem a parte mais curiosa: os mais descolados,
os gente boa, os garotões, são os piores. O lelek (ou a patricinha),
provavelmente, tem a mente mais fechada que a fofoqueira do bairro. Ele é
aquele que, pode apostar, cedo ou tarde vai se revelar como o conservador que
sempre foi. Sempre observo essa discrepância entre a capa de libertário e o
pensamento provinciano. Talvez a vizinha faladeira, que casou cedo e trabalha
em casa, seja bem mais acessível e dialogável que muitos desses que já rodaram
o mundo viajando (e não aprenderam quase nada com isso).
Falando especificamente sobre juventude, agora, penso
que esta não faz com que uma pessoa carregue pensamentos novos, pelo simples
fato de ser ou parecer jovem. Muitas vezes ela carrega, até, uma vontade danada
de se enquadrar e ser apenas mais uma, indiferençável, na multidão. E um idoso
pode ser muito mais ousado do que tantos e tantos jovens
adultos.
Acho que essa caretice dos “liberais” – que se veem
como pessoas de mente aberta mesmo quando implicam com a aparência do outro
(“brega”, “cafona”, “caipira” etc.) – consegue ser ainda mais intragável do que
aquela que todo mundo condena, todo mundo vê, todo mundo acha absurda e
antiquada. A caretice dos descolados, do mundo hipster, roqueiro, surfista, do
mundo das artes, dos moderninhos etc. é mais perniciosa ainda porque é
camuflada. Condena quem é diferente, olha torto e ainda acha que pensa fora da caixa.
E a Dona Candinha é quem leva a fama.
quarta-feira, 2 de maio de 2018
O paraíso são os outros
Gosto muito de uma frase de Gianfrancesco
Guarnieri que encontrei em sua biografia-depoimento Um grito solto no ar: “Todo autodidata, creio eu, sente alguma
insegurança em relação ao seu trabalho, e está sempre em busca de alguém que
possa dar uma benção”.
Concordo plenamente. Ao mesmo tempo em que o
pensamento antropofágico (só me
interessa o que não é meu) é maravilhoso, há outro pensamento, extremamente nocivo e de sentido contrário a esse,
que prega: o paraíso são os outros.
É o outro que vai dizer: “Você presta”. Porque se
nós tivermos essa consciência de que prestamos, grande coisa: isso não quer
dizer nada, não tem valor algum. Se o outro aprovar algo nosso, eba, vitória! Mesmo que ele aprove exatamente aquilo que fizemos de mais medíocre, o simples fato dele ser outro já é uma grande conquista. Pode ser qualquer um, o que importa é não ser a gente.
Percebi isso, acho, vendo o meu release (pra que
diabos a gente faz isso?): tudo o que coloquei em meu currículo musical foi “cantei
com fulano, trabalhei com sicrano, participei do CD de beltrano”. Ok, e quanto
ao que eu faço dentro do meu próprio trabalho? Não tem valor, uai. Se eu for
uma artista que basicamente cria, grava as próprias canções e resumidamente trabalha
em cima do próprio trabalho (não participando de outros), não tenho
legitimidade alguma. Quase não existo.
Estou exagerando? Pode ser, mas infelizmente não
estou mentindo (eu aumento, mas não
invento). Lembro que no Sonora 2017, do qual participei, a cantora e
produtora Mô Maiê me apresentou antes que eu entrasse no palco, e percebi:
vixe, que release ruim! Não falei nada relevante sobre mim, citei um bando
de (outros) nomes e só. Quase uma carteirada. E certamente esta percepção se deu porque logo antes a cantora
Amanda Gasparetto havia sido apresentada, também, e achei linda a forma como ela usou o próprio release para descrever suas canções, mencionando o mar como principal inspiração. (Não quero cagar regra criar regras, tampouco: apenas entendi que me identifico mais com essa abordagem sem pretensões de currículo lattes.)
Desde que me mudei para um lugar ligeiramente
afastado das efervescências, comecei a pensar mais sobre autonomia, solidão,
autossuficiência, a influência dos grupos sociais, a
necessidade de se afastar um pouco e as benesses disso. Aproveitando esta
grande oportunidade de ficar mais comigo, pude compreender que, até então, para
mim, o paraíso sempre havia sido os outros. Era o outro quem me aprovava, era o
outro quem me dizia se eu existia ou não. Sempre foi o outro quem me dava permissão para ser isso ou aquilo e ditava a forma como eu deveria tocar meu trabalho.
E ninguém sabe melhor sobre nós do que nós
mesmos. Mesmo que a gente não consiga se definir (em palavras), a gente sabe
muito bem o que bate mal e sabe muito bem quando está se desrespeitando,
mesmo que finja estar tudo ok (para não criar o
temido climão, sabe? Aliás, acho que está na hora da gente fazer um Manifesto Pró-Climão.
Falando por mim, estou deixando passar uma quantidade abissal de absurdos,
preconceitos e desrespeitos apenas para não criar uma atmosfera ruim. E acho que às
vezes é necessário fazê-lo – tão difícil quanto necessário).
Seguindo o mesmo pensamento de “o paraíso são os
outros; nós somos um inferno” (eita, essa ficou forçada... Sartre que me perdoe), também observei o quanto
vemos nosso esforço, as conquistas que se dão graças à nossa proatividade, como
menores. A produção que nós mesmos fazemos não tem o mesmo valor do que aquela
produção que o outro faz e nos convida. É neste momento do convite que a gente
acha que está sendo minimamente reconhecido, enfim. “Me procuraram”, “me chamaram”, “vieram atrás de mim” é bem
mais charmoso do que “fiz um show em minha casa” ou “liguei para lá e consegui uma data”. Mais
uma vez exagerando um pouco: diria que vemos quase como uma queimação de filme
quando nos oferecemos para algo. Ao invés de sentirmos orgulho pelo que conseguimos
através de nosso próprio esforço, ficamos meio aborrecidos por só conseguirmos
as coisas desse jeito.
Receber convites é uma delícia. Não ter que suar,
não precisar correr atrás, simplesmente ir lá e tocar é um verdadeiro presente. Mas só assim tem valor?
Pessoalmente, no que diz respeito a shows, tenho
evitado a fadiga. Por isso, não tenho mendigado pedido datas para locais que
sei que vão mandar aquele “não” gostoso – seja ele um não verbal/textual; seja ele uma ausência de resposta. E por quê? Porque já fiz isso durante
seis anos com minha antiga banda e já tive minha cota (além de ser um flashback
danado – parece que o tempo não passou –, é uma coisa bem desgastante,
e também é uma situação onde o artista se coloca como menor do que um espaço,
um ambiente, uma construção – que parada bizarra! – ou menor do que um
produtor/produtora, enquanto sabemos que isso de pessoas maiores ou menores é
uma mania de hierarquização insana). Atualmente só acho que vale tentar fechar
datas em lugares onde há um diálogo bacana e sei que se rolar um “não” é porque
não há data, mesmo. Aqui no RJ e em São Paulo só conheço quatro lugares assim,
onde há uma abertura verdadeira, sem que seja necessário implorar por uma
oportunidade (dois são espaços da prefeitura com administradores acessíveis – pois,
pasmem, há espaços da prefeitura geridos por pessoas que agem como se aquele
espaço não fosse público –; os outros
dois são casas cujos donos são pessoas verdadeiramente abertas. Nestes casos, não vejo hierarquização). Contei isso tudo neste parágrafo porque
achei importante dizer que minha ânsia atual não tem sido a de sair por aí catando,
alucinadamente, lugares para tocar – mas se fosse, que bom para mim, e que eu
tivesse a decência de escolher lugares bacanas (é essencial manter a autoestima
e não alimentar este círculo vicioso onde os artistas constantemente se
rebaixam).
Está cada dia mais claro para mim que os outros
são ótimos, mas estão longe de ser mais importantes do que eu no que diz
respeito a mim mesma. Eles, mesmo que queiram, não poderão suprir nada de
essencial em mim. Nada que me esteja faltando, que eu saiba que estou me devendo.
Não adianta querer a salvação (de quê?)
oferecida pelo outro, porque os problemas fundamentais somos nós que
resolvemos. Continuo achando que o outro tem o olhar privilegiado sobre nós e
pode ajudar muito com opiniões (quando solicitadas), mas o grau de importância do
que ele fala jamais será maior do que a reflexão que fazemos sobre nós mesmos. E
continuo amando receber convites, pelos quais sou muito grata. Apenas
não estou mais achando interessante me colocar na posição de pedir favores, pedir
oportunidades, esperar ansiosamente por respostas (que nunca virão). Prefiro investir
minha energia com coisas que me trazem satisfação sempre – e a criação é uma
delas.
quinta-feira, 12 de abril de 2018
Arte numa hora dessas?
Os últimos dias, como sabemos, foram muito
estranhos.
É inevitável questionar a toda hora,
intimamente, o que está acontecendo com o país. É inevitável lembrar,
frequentemente, da quantidade de golpes que o Brasil vem sofrendo - de forma explícita - desde o
início de 2016. Como lidar com tudo isso?
Pessoalmente, não tenho o menor desejo de me
envolver com a política de forma partidária. Procuro ler sobre, discutir sobre, e ver filmes e palestras a respeito da política que me interessa. É esta a forma como
eu lido com este assunto, e não há culpa que me faça pensar de outra forma.
E falo de culpa porque entendo que muitos de nós,
enquanto artistas e cidadãos, tendemos a achar que apenas estando dentro da
política poderíamos fazer algo de efetivo. Pensamos que nossa arte não basta,
que nossos atos cotidianos não servem de nada, nunca servirão. Pensamos que apenas
o macro interessa. A micropolítica seria, portanto, uma grande besteira.
Discordo muito deste pensamento. Acho que a arte
e nossos atos, a relação que temos com quem nos cerca, a atitude para com a
cidade na qual vivemos, tudo isso é de grande importância. Acho, até, que a
micropolítica é nossa única opção, no fim das contas. Para nós, que não temos o menor interesse em um
envolvimento intenso com a política partidária, esse micro é muito.
E penso que a arte faz parte desta
micropolítica. Penso que a arte é, essencialmente, sensibilidade, e não tenho dúvidas de que a política pede exatamente isso. Esse material sensível é o que nos faz compreender o
outro - e não seria a política justamente sobre pensar este outro? Também não tenho dúvidas de que a total falta de ética de tantos e tantos políticos (“tem que ser um que
a gente mata”) tem a ver com não enxergar nada além de si. E se a arte ajudar neste despertar para a existência do outro e também para o que nós, como indivíduos, temos de melhor, como ignorá-la? Como fingir que
não precisamos dela?
Não vejo a arte como algo a
ser endeusado, tampouco. Ela faz parte de todo e qualquer ser humano. É dia a dia, vai costurando nossas ações e nosso imaginário. Está na forma como escolhemos escrever, nos livros que lemos, nas músicas que cantarolamos, nos filmes que
assistimos. Não é exterior, “coisa só pra quem
pode”, coisa que pouca gente entende. E se negar a ver a sensibilidade e o
autoconhecimento que a arte desperta é tão inútil quanto prejudicial.
Quantas obras de arte já me ajudaram a ser uma pessoa mais conectada com o mundo? Quantas obras já me ajudaram a entender coisas básicas sobre a vida? Alguns rápidos exemplos: através do cinema entendi o absurdo da pena de morte (Dead man walking e The exonerated), a influência nefasta da propaganda infantil (Muito além do peso), a importância do
humor mirar o poderoso, e não o oprimido (O
riso dos outros); através do teatro entendi muito sobre a opressão “bondosa”
do patrão brasileiro (O patrão cordial)
e muito também sobre meu corpo (Amir Haddad e Zé Celso); através das artes visuais e
performáticas quase entendi o que é ser um imigrante (Antony Gormley) e o
quanto aquietar a mente é se abrir para bons insights (Marina Abramovich). Através da música fiz meu lar, me senti parte de um mundo
empolgante e incrível, construí meu universo, pude ter um lugar perfeito para
minhas abstrações e prazeres – apenas tudo isso. Já os livros, bem... Com eles
entendi tudo de mais valioso que poderia entender. A escrita literária,
jornalística, biográfica e todas outras possíveis a que tive acesso me
transformaram em alguém com lust for life
(“a vida é boa, há tantas coisas ótimas para se ler”, esse se tornou um
pensamento). Na realidade música e literatura, especificamente, são artes tão
fundamentais em minha vida que fica difícil falar sobre a importância destas em
tudo o que já vivi e vivo...
Esse texto curto é apenas minha forma de mostrar o
quanto penso que não devemos subestimar a arte que fazemos e a arte que
apreciamos. Ela é tão poderosa que, como sabem aqueles que desejam boicotá-la,
chega a ser perigosa (a exposição Queermuseu, a performance de Wagner Schwartz,
a possível extinção do registro profissional da classe, a prisão dos atores de Roda viva, a prisão do palhaço Tico
Bonito... lembram? Apenas gotas em um oceano de repressão às artes). Para
reforçar, finalizo com um pensamento de Eduardo Galeano, registrado no comovente Dias e noites de amor e de guerra:
“Pensei que conhecia umas tantas histórias boas
para contar aos outros, e descobri, e confirmei, que meu assunto era escrever.
Muitas vezes tinha chegado a me convencer de que esse ofício solitário não
valia a pena se um o comparava, digamos, com a militância ou a aventura. Tinha
escrito e publicado muito, mas me faltou coragem para chegar ao fundo de mim e
abrir-me por completo e oferecer isso. Escrever era perigoso, como fazer o amor
quando se faz como deve.”
terça-feira, 27 de março de 2018
Meu caminho pelo mundo (eu mesmo traço)
Que tipo de artista é você?
Ou, melhor: que tipo
de pessoa é você? E como esta pessoa que você é o influencia no modo de viver sua arte?
Há muitas formas de pensar
e agir dentro deste universo.
Há artistas-empreendedores, que têm prazer em gerenciar
a própria carreira; há aqueles que não querem pensar em nada que não seja
apenas a música; há aqueles que se esforçam para divulgar o próprio trabalho e
alimentam as redes constantemente; há aqueles que evitam fazer shows exatamente para não
precisarem fazer esse tipo de coisa (divulgar e falar de si); há aqueles que valorizam bastante o
conceito visual (figurino, cenário, fotos); há aqueles que não pensam que a
parte visual tenha relação com a parte artística; há aqueles que gostam de se
envolver com projetos diversos; há aqueles que só querem saber do próprio
trabalho e de nenhum outro; há aqueles que preferem autonomia total e poucas
parcerias (ou nenhuma); há aqueles que gostam apenas de compor; há aqueles que
gostam apenas de interpretar; há aqueles que gostam de tocar um instrumento enquanto
cantam (e se sentem nus sem o violão ou piano); há aqueles que não se interessam muito por instrumentos e preferem só cantar/compor; há aqueles que amam apenas a música
e mais nada; há aqueles que precisam do cinema/teatro/literatura etc. para fazerem sua
música; há aqueles que gostam de falar sobre o processo de composição; há
outros que preferem mostrar só o seu trabalho, não seus
processos; há aqueles que buscam viver de música, sem almejar sucesso comercial;
há aqueles que precisam do sucesso comercial e de um grande séquito; há aqueles
que buscam fazer composições rebuscadas; há aqueles que buscam a simplicidade;
há aqueles que amam a contracorrente e se inspiram nesta; há aqueles que amam
estar em grandes projetos (musicais, televisão); há aqueles que gostam de festivais competitivos; há aqueles que não têm a veia da competição; há aqueles aficionados em tocar em todos os lugares possíveis, de bares a teatros; há aqueles que tocam bem pouco porque só querem tocar em lugares específicos; há aqueles que escolhem ter trabalhos paralelos à música para fazerem estritamente apenas o que querem nesta área; há outros que preferem trabalhar apenas com o que se relacione à música (dando aulas, gravando jingles etc.), mesmo fora de seu trabalho artístico; há aqueles que pensam que
música é leveza e descontração; há aqueles que pensam que música não é
brincadeira; há aqueles que valorizam a boa técnica dos músicos, antes de
tudo; há aqueles que valorizam as boas relações com os músicos, antes de tudo;
há aqueles que têm uma preocupação maior com as letras; há aqueles que têm um interesse
maior pela melodia; há aqueles que querem se cercar de grandes nomes
consagrados; há aqueles que preferem trabalhar com “desconhecidos”; há aqueles
que gostam mais de gravar do que se apresentar ao vivo; há aqueles que adoram
fazer shows e acham a gravação uma coisa meio tensa; há aqueles que se esforçam
para fazer um bom arranjo; há aqueles que preferem gravações simples, para que a canção sobressaia; há aqueles que não acham tão importante
assim a afinação vocal; há aqueles que se martirizam caso a afinação não esteja
impecável; há aqueles que acham que tocar na rua é um pouco constrangedor; há
aqueles que encontraram na rua sua libertação total; há aqueles que publicam cada
canção nova que fazem na internet; há aqueles que preferem divulgar as canções em formato
de álbum, em um só pacote; há aqueles que precisam de um produtor musical para
pensar suas canções; há aqueles que preferem fazer a própria produção, sem mais
ninguém opinando; há aqueles que precisam de bastante isolamento para conseguirem criar;
há aqueles que necessitam da interação com outros para se sentirem inspirados.
Há muito, muito mais opções do que as que citei aqui.
A partir do momento que eu entendi as inúmeras
especificidades que podem existir na vida de um artista, entendi que não há caminhos a seguir, mas caminhos a se inventar. E me perguntei: o que combina mais
com a pessoa que sou? E como vou construir minha vida dentro da arte: seguindo
algo preestabelecido ou estabelecendo, eu mesma, todos os detalhes?
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