quarta-feira, 22 de agosto de 2018

O sucesso que ninguém tem (ou: que todos têm)


Na televisão, em Brasília: “Só agora Hilda Hilst está ‘chegando’. Nos últimos anos de sua vida é que ela cresceu perante o público.

Em um comentário do YouTube: “Marina [Lima] era bonita, linda voz, mas poderia ter ido bem mais longe, algo foi feito errado”. E a resposta a este comentário também é muito boa de se jogar fora: “Ela perdeu a voz. Talvez se não tivesse acontecido isso ela não teria entrado no ostracismo.”

Em uma entrevista de uma curadora: “Cildo Meireles nunca chegou a ter tanto sucesso internacional, não como outros artistas conseguiram, né?”

Em uma festa, uma pessoa: “O trabalho [de Liniker] é muito legal. Estourou com apenas três músicas lançadas, nem CD tinha, é muito foda.”


Saio de um show onde Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Suzana Salles cantaram apenas canções de Itamar Assumpção e lembro que o Liniker, que tanto sucesso faz, gravou “Fim de festa”, de Itamar, um cara que não fez exatamente sucesso.
É muito, muito mais charmoso fazer sucesso sem nem gravar um CD, super jovem, do que ficar gravando LPs independentes nos anos 80 (como ele conseguia?), gravar CDs nos anos 90 e morrer em 2003 com um grande reconhecimento da crítica e dos colegas músicos, mas sem jamais chegar perto do que jovens artistas conseguem hoje (no quesito público) com seus vídeos no YouTube. Anos depois, regrava-se algo de Itamar, e como vivemos em uma época MUITO MELHOR para qualquer artista independente, quem gravou consegue alcançar um grande público internético e ainda por cima divulga o trabalho do compositor para muitas pessoas que não o conhecem. Isso é incrível.
Mas a parte ruim é quando não vemos que, junto com o esforço de Liniker, há o grande esforço de outras pessoas também – e falo especificamente do esforço de criadores como Itamar Assumpção, que fazem/fizeram o favor de compor pérolas para que depois possamos cantá-las em shows, vídeos etc.
Quando achamos o máximo alguém fazer sucesso “do nada”, “mal começando”, isso pode querer dizer que talvez (e apenas talvez) a gente não respeite muito alguém que passou a vida inteira fazendo algo com toda a dedicação, mas que, no entanto, não ganhou muita visibilidade ao lado do público jovem (que é o que mais consome música, acredito), por exemplo. Talvez a gente ache que este alguém é um pouco pior, mesmo.
E o que pensamos de nós mesmos? Sim, porque se o músico “fracassado” ali não vale muito... Nós devemos valer menos ainda, segundo nossos próprios critérios, certo? Digo isso porque geralmente criticamos quem é bem mais proativo do que nós, quem já gravou várias músicas, já fez diversos shows, escreve livros há anos, já criou uma pá de coisas, já caminhou à beça. Temos a mania de criticar quem está fazendo adoidado ou já fez adoidado.
Estamos mal, e precisamos resolver este desprezo por nós mesmos. Nossos critérios tão altos (eu diria: baixíssimos) nos levam a uma espiral que talvez só nos ajude a cair em depressão. Porque se Cildo Meireles deveria ter alcançado sucesso internacional e não o fez, se Marina Lima “poderia ter ido mais longe”, se Hilda Hilst “só agora está aparecendo para um grande público” (pois a Flip resolveu homenageá-la este ano – e se a Flip falou, tá falado), realmente não sei o que é ser bem sucedido, e não faço a menor ideia se já vi, algum dia, alguma pessoa bem sucedida. Acho que não. E, repito: fico imaginando o que as pessoas que dizem esse tipo de coisa pensam sobre elas mesmas. Pois certamente não fizeram nem um terço do que estes “fracassados” aí fizeram.  
Outra coisa que percebi é que a gente continua vivendo como se ainda estivesse nos anos 90. Como se só conseguíssemos acesso à música e à cultura através dos jornais e da televisão. A gente fica esperando que as informações caiam em nosso colo, e por isso achamos que certos artistas estão no “ostracismo”. E, para completar, nem ficamos sabendo da existência de outros milhares de cantores e compositores que não ficam devendo nada a nenhum dos grandes artistas dos anos 70 e 80 (esses que tanta saudade causam nos comentadores de YouTube: “Hoje em dia só tem lixo” – engraçado, a minha impressão é de que está a cada dia melhor, e não sou nenhuma pesquisadora inveterada de música). Daí o que se faz é ficar usando a internet para ficar choramingando que só toca bosta na rádio (desligar é uma opção, vale lembrar), ao invés de deixar de preguiça e, por exemplo dar uma olhada em algum programa de música nova ali mesmo, no YouTube (como o Cultura Livre – que dá de mil nos programecos de auditório), ou ir a shows de novos artistas e bandas, ou sair para dançar em um lugar onde toque música nova e perguntar que músicas são aquelas ao DJ, por exemplo (sempre fiz isso e conheci muita coisa boa assim). Ninguém tem a obrigação de ficar catando novos sons, nem de correr atrás das mil novidades maravilhosas que surgem por dia na internet (ouvir música é prazer, não obrigação nem prestação de contas), mas não vale dizer que tal artista “sumiu” se você nem deu uma olhada para se informar sobre o fato de que, na verdade, ele já lançou uns quatro CDs desde o último que você ouviu. Assim como não vale falar que não há nada bom sendo feito. Se conferir, vai ver que tem.
Mas fugi um pouco do assunto: o que me impressiona e me motivou a escrever este texto é o fato de que somos extremamente “exigentes” com os outros, e isso deve desmotivar muito mais a nós mesmos do que a eles (embora certamente ajude a piorar a vida de quem está do lado, ouvindo este bando de chorume – penso que esta atitude realmente pode influenciar alguém a desistir do que está fazendo, ou a se achar desprezível).
E acho que é esse comportamento que faz com que a gente, paradoxalmente, supervalorize cada passo que dê. Ao invés de lidarmos com naturalidade com o que criamos, achamos que o mundo inteiro tem que aplaudir – e daí, é claro, ficamos putos com o mundo, como se este fosse injusto e não visse o nosso valor. Quem tem que valorizar o que a gente faz somos nós. Quem tem que entender, de verdade, o que aquilo significa, somos nós; quem tem que se emocionar com o que conseguimos compor somos nós. Ninguém tem que aprovar nada. Mas a gente fica às vezes até inconveniente, convidando os amigos para curtirem a nossa página a cada semana (desculpa, já fiz muito isso, mas um belo dia resolvi mudar), até que o amigo finalmente faça a obrigação dele e curta o raio da página. Ficamos nessa posição de escrever textão no Face quando nosso espetáculo fica vazio, porque achamos inadmissível que aquela exposição censurada cause tanta comoção e o nosso espetáculo burlesco – com certeza lindo – tenha ficado quase vazio. Vejo essa postura como mimada, e creio que só sirva mesmo para tentar incutir a famosa culpa em quem estiver lendo o lamento textual (entrelinhas: “Vocês não me reconhecem como artista, vocês não me dão valor, ninguém se ajuda nessa joça. É por isso que o Brasil está do jeito que está.”). De novo: quem tem que achar maneiro pra cacete o que eu faço sou eu. E que eu valorize, mas não supervalorize algo que todos os meus colegas de profissão também fazem, também suam para conseguir, também cortam um dobrado para realizar. Valorizar é essencial para a manutenção do que fazemos; supervalorizar é o mesmo que exigir que o mundo pare de fazer o que está fazendo para dar o tapinha nas costas que tanto queremos. 
Lembrei de uma fala de um personagem do livro Solidão em família, de Esdras do Nascimento, que acho que se conecta com esse último exemplo que abordei: No dia em que você se preocupar menos com você, no dia em que você descobrir que existem pessoas ao seu redor; no dia em que você descobrir que essas pessoas vivem, sofrem, comem, respiram; que essas pessoas também têm problemas e também têm momentos de felicidade, você viverá melhor”.   

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Clubinhos musicais

1) Certa vez estava comentando com uma amiga sobre rap, e dividi com ela, distraidamente, que não gostava muito deste tipo de som, e que quase não escutava nada desse gênero. Estávamos em um festival no qual haveria o show de uma rapper na abertura, por isso o tópico. Ela, por sua vez, me disse que gostava bastante de rap, por diversas razões (a vivência que teve com pessoas que ouviam muito esse estilo, as letras etc.). Que eu me lembre, assim que falei minhas impressões sobre o rap já achei meu comentário ligeiramente desnecessário, talvez por ser algo que eu mal sabia explicar, e por não ser um comentário muito construtivo. Daí, e talvez por isso, fui ver o show com o coração mais aberto – e adorei o show de Dory de Oliveira, que me prendeu do início ao fim. Essa conversa e esse show ficaram marcados.
2) Outro dia estava discutindo o arranjo de uma música com o parceiro Pedro Costa. Falando sobre sonoridades, mencionei que o baixo daquela gravação estava me lembrando a sonoridade da Rihanna (de quem só conheço duas músicas), e, tentando explicar que não curtia muito aquele estilo, comecei a me embananar: “Eu não curto muito o estilo, apesar de achar legal essa música. Quer dizer, nem curto tanto assim essa música, específica, mas até que o estilo é legal, né? Mas eu não queria que soasse assim...”. Não sabia dizer por que não gostava, e percebi que não era importante explicar. Teria sido mais fácil falar que queria outra sonoridade, simplesmente, ao invés de usar a música popzona como contraponto. Acho que já não está mais dando tanto pé colocar diferentes estilos musicais como antagonistas (talvez). E com certeza eu já sou outra pessoa, não mais aquela que precisa ser “contra” certo gênero musical. Até porque poderia ter sido colocado na minha música um elemento que lembrasse o som da Rihanna e eu gostasse. Apenas não foi o caso.
Aliás, notei que ultimamente poucas músicas têm me irritado ou tirado do sério. Há alguns anos, na verdade, tenho me sentido assim. Creio que isso tenha a ver com a possibilidade que temos, atualmente, de só ouvirmos as músicas que escolhemos. Não precisamos ficar entediados zapeando a TV, ouvindo um monte de coisa indesejada em programas de auditórios, certo? Eu, ao menos, não pratico mais este tipo de masoquismo, e acho que tem me ajudado a valorizar mais a música que não adoro, mas respeito.
Lembro que na adolescência – essa época dá pano para manga, em quase todos os meus textos ela aparece – fui, com uma colega, a um evento onde o DJ da casa só tocaria pagode. Eu fui sabendo que a festa era de pagode, e, principalmente, fui mesmo sabendo que eu não curtia pagode (só gostava de umas poucas do Raça Negra, mas mesmo assim não sairia para dançar ao som delas). A pergunta é: que diabos eu fui fazer lá? E este é só um exemplo entre vários, pois passei por esta situação muitas vezes. Acho que este é o tipo de coisa que mina a nossa energia, e faz com que a gente pegue implicância com certo tipo de música; fique com raivinha de certos universos musicais. E como hoje em dia quase não gasto meu tempo e minha saúde fazendo exatamente aquilo que não gosto, a boa vontade com os diferentes ambientes e músicas aumentou.
Gosto bastante de um texto onde o escritor David Cain comenta uma crença bem comum: aquela onde achamos que precisamos continuar pensando da mesma forma como pensávamos na adolescência ou infância – como se esta fosse nossa “essência”, como se não pudéssemos (e devêssemos) ir melhorando com o tempo. Por que deixar certas convicções velhas, verdadeiros atrasos de vida, nos guiarem até hoje? É preciso repensar o que carregamos, pois pode haver muita coisa sem sentido insistindo em permanecer no nosso sistema. Somos feitos de tantas fases, tantas épocas, e é ótimo quando podemos curtir estas fases sem nenhum tipo de censura infundada, decretada por nós mesmos.
David Cain também fala sobre como a adolescência às vezes nos joga em situações desconfortáveis e por isso pegamos asco de certas “tribos” (ele ficou enfastiado com a galera da música eletrônica/dance, por exemplo – estilo que ele descobriu adorar, tempos depois, em outra situação, bem mais propícia e longe das buátchys que ele se forçou a ir aos 19 anos). Eu, ao ouvir pagode sem estar a fim, fiquei ainda mais arrogante em relação ao que eu curtia: considerava o rock “bem melhor” que todos os outros estilos que os colegas de escola ouviam. Só mais tarde, já mais segura de quem eu era – e sabendo que não deixaria de ser eu mesma apenas por ampliar meu gosto musical –, conheci músicas bacanas de vários outros grupos além do Raça Negra (Art Popular, Fundo de Quintal, Só pra Contrariar), e aos poucos fui achando que legal mesmo era não ser uma roqueira radical. Era bem mais “diferente” (hahaha) ouvir tudo o que me desse na telha, até mesmo porque eu já sabia que era um pouco assim – Jorge Ben, Daniela Mercury, Jon Secada, Peppino di Capri e Donna Summer eram cantores que eu ouvia muito, também, um pouco antes de mergulhar de vez no rock.
Outra coisa que tenho pensado também, ultimamente, é que é fundamental, para que se possa abrir o coração para um novo universo, que ninguém fique enchendo o saco querendo forçar o outro a gostar de algo. Mas pior ainda é quando se tenta demover alguém de gostar de algo (lembro claramente da vez em que tentaram me demover de ouvir Janis Joplin). Isso só vai fazer com a pessoa fique ainda mais interessada naquilo que “não deveria gostar” ou que fique tímida na frente do missionário musical e insegura quanto ao próprio gosto (como a gente consegue transformar em chata uma coisa tão prazerosa quanto a música, né?). Deixemos cada um gostar do que quiser e vai dar tudo certo.
Acho que o que concluí é que cada vez menos está fazendo sentido isso de se privar de algo, isso de não entender que dentro de cada universo pode haver algo que te agrade. E se nada agradar no mundo do funk, por exemplo, ele também não precisa virar o inimigo, o “algo a ser combatido” (tem roqueiro aí – super bem estabelecido musicalmente – ficando ressentido com a popularidade da MC Loma, acredite se quiser). É inegável que o universo do samba, por exemplo, ajuda a construir a identidade de tantas e tantas pessoas, e certamente elas gostam de se afirmar “do samba”; é inegável que a galera do forró também se sente acolhida neste universo e se denomina “forrozeira”; é inegável que o rock me ajudou a encontrar um lugar onde me senti entre meus pares. Mas o que proponho é só que a gente não pense que não há lugar para nós em outros universos, também, porque de fato há (independente da boa ou má vontade das pessoas destas “tribos”), e essa mistura pode ser ótima. Diria que construí muito do que faço hoje em cima do rock, do forró e do samba/MPB, e certamente também em cima de outros gêneros, sem nem perceber ou  racionalizar. Mas sei que quero tudo o que o mundo tiver para dar e que for do meu agrado.   


sexta-feira, 3 de agosto de 2018

E a culpa que não toque na poesia


Incutir culpa em alguém é algo que dá muito resultado. Funciona divinamente – já reparou? Já sentiu isso? Já fez isso com terceiros?
Irei falar aqui mais especificamente sobre a culpa dentro do âmbito das artes, pois este é o campo no qual atuo e circulo e é onde vejo a culpa rolando solta. Mas é importante já deixar claro que não acho que este joguinho inútil seja vivido apenas pelas pessoas que atuam na esfera artística. Pelo contrário: infelizmente vejo que este jogo está presente em todos os âmbitos de nossa sociedade, de forma incessante, e sem previsão nenhuma de algum dia acabar. (E por que acabar com este jogo, se ele é tão efetivo, se funciona tão bem?)
Recentemente fui a uma palestra sobre arte e política, e houve um momento em que uma pessoa mencionou um trabalho de artistas em uma ocupação. Achei interessante a forma como esta pessoa mencionou que era importante “pensarmos se não era o artista quem mais estava ganhando com aquela ação; se o grande beneficiado não era ele, afinal, muito mais do que os moradores daquela ocupação”. Digo que achei interessante a fala desta pessoa porque ela despertou algo em mim: a percepção de que aquele “pedido de reflexão” não era nada mais, nada menos, do que a expressa culpabilização do artista por este ter tido a intenção de fazer de sua arte um ato político. E outra percepção que tive foi a de que aquela era a centésima vez que eu ouvia aquele tipo de culpabilização, tão bem educada e pretensamente insenta. (Porque se fosse para contar as culpabilizações grosseiras e rancorosas que já ouvi ou li, aí o numero seria bem acima de cem).
Discordo ferrenhamente desta fala. O fato dela não ser original e já um tanto cansativa não é grave, mas deve ser notado também, visto que parece fazer parte de algum manual. Mas para mim o principal é que, pessoalmente, não vejo como, em qualquer situação, poderia haver algum beneficiado maior do que o próprio artista. Não acho possível que exista alguém que se sinta mais realizado e satisfeito do que o próprio artista que colocou uma ideia em prática. E mesmo quando ele fica insatisfeito com o que fez, para mais ninguém aquilo está tão imbuído de significado quanto para o autor. Eu posso amar aquela obra do Cildo Meireles e ela mudar minha vida, até, mas certamente a vida dele foi muito mais modificada, a identidade dele se construiu muito mais do que a minha ao fazer aquilo e a confecção daquela obra tem muito mais importância para ele do que para qualquer outra pessoa no mundo. O artista sempre vai “sair ganhando” (essa expressão é péssima – como se este fosse um jogo de ganhar e perder). Por quê? Porque a arte tem disso: você é potência quando cria, ainda mais do que quando absorve a arte de alguém. O ato artístico traz esta consequência consigo, felizmente. Então não há a menor possibilidade de que outros que não sejam o artista se beneficiem ainda mais do que próprio. E estes “outros” podem ser os moradores de uma ocupação ou os frequentadores de uma exposição. Será talvez pequena a mudança efetiva, visível, que ocorrerá na vida destes ocupantes de um edifício abandonado – mas pode ser que seja significativa e ótima. Eles não deixarão de viver em condições precárias, mas talvez o contato e a troca entre artista e moradores seja importante para ambos – e, pessoalmente, já considero um grande feito que esta troca aconteça (quantos de nós estamos dispostos a isso? A sair do conforto de nossas casas e colocar um projeto em prática? A trocar com outras pessoas, fazer uma residência em um ambiente totalmente diferente daquele ao qual estamos acostumados?).
Lembro das Guerrilla Girls, em uma conversa em São Paulo (quando vieram para uma expo no MASP), respondendo a diversas perguntas do público, e uma destas perguntas foi: “Vocês farão alguma ação nas ruas, ou ficarão restritas às instituições?”. A resposta, calma e tranquila como todas as respostas antes e depois desta, foi: “That’s your job!”, e desenvolveram a resposta explicando o quanto é importante que se espalhem as ideias, pois a ideia das Guerrilla Girls é exatamente esta: disseminar esta arte feminista e aguerrida, criticar a supremacia masculina no meio das artes. Achei interessantíssima a forma como elas não se colocaram em um lugar de culpadas (como “deveriam” se colocar, após esta pergunta – certo?) por estarem expondo a história de seus trabalhos em uma grande instituição. E ao longo de toda a fala delas foi possível ver o quão clara está em suas mentes a forma como pensam a arte política: todos nós temos responsabilidade a partir do momento que nos interessamos e achamos aquilo certo. Cobrar não cabe, visto que se trata de algo que qualquer um pode fazer (não estamos falando de política institucional). A performance, o ato estético-político, é para qualquer um que quiser e tiver coragem ou iniciativa para fazê-lo.
(“Ninguém faz nada” é uma falácia bem confortável. A partir do momento que você sabe, se sente indignado e pensa que é impossível ficar parado, esse assunto te pertence, e não a outro. Não dá para querer empurrar a responsabilidade. Se você deseja, cabe a você resolver este desejo.)
Há um trecho de uma entrevista de Mano Brown no Roda Viva, em 2007, em que o jornalista Renato Lombardi faz uma pergunta que penso ser a síntese deste tipo de jogo infrutífero: “Independente das letras e da música, o que mais o teu grupo faz para poder orientar, para poder abrir a cabeça das pessoas, dessa juventude que está aí com drogas e violência em tudo o quanto é esquina? O que mais vocês fazem, independente das letras e da mensagem que vocês passam?”
Ou seja: a arte não basta, ela por si só não serve. Mano Brown está errado em fazer “apenas” rap. Ele deveria fazer muito, muito mais. Felizmente a psicanalista Maria Rita Kehl, pouco depois, fez questão de comentar a pergunta: “Às vezes dá a impressão de que está todo mundo aqui achando que os Racionais poderiam resolver o problema da criminalidade”. E eu, daqui, penso que achamos que a arte é um negócio bem rasteiro, bem superficial, que necessita sempre de um complemento, algo mais “concreto”. A subjetividade é uma besteira.
Estamos vivendo uma época de muitos questionamentos, muito feminismo, muito mais representatividade negra e LGBTQ, muito mais espaço para debates vitais. E me sinto a cada dia entendendo um pouco mais o mundo em que vivo e as pessoas ao meu redor – penso que esta talvez seja uma sensação de muitos outros habitantes do mundo. E não acho que faça parte deste avanço tão visível (em textos, músicas, filmes, conversas) que estamos vivendo uma imersão em um mar de autocrítica infinda (devido a um grande medo de darmos um passo em falso). Eu, como artista, sinto que o medo de errar e de ser acusada de “pretensiosa”, ou de “sair ganhando em cima de alguém” em algum momento só me leva a ser mais tímida e retraída do que já sou, a ter mais medo ainda de ousar e arriscar. Não me leva, em nenhum momento, a querer melhorar e ter mais senso crítico. Apenas me paralisa. O que me faz melhorar, mesmo, é ler os bons textos da Lola Aronovich, ler ótimos livros como os de Adélia Prado, ir a exposições à lá Queermuseu, saber da existência de performances como La bête, ouvir o Sinta a Liga Crew, ver um filme como Te prometo anarquía. Toda essa arte me ajuda a viver melhor, pois me faz rever meus conceitos, e ainda me inspira como artista.  
Atenção e sensibilidade em relação a quem nos cerca são aspectos vitais para a convivência em sociedade. Mas vejo uma sanha, quase um desejo (para não dizer tesão) de apontar dedos, ferir, fazer linchamento virtual e querer o pior para quem usou a palavra errada na hora errada. Saibamos distinguir: há pessoas mal intencionadas; há pessoas distraídas que entendem sinceramente o próprio erro e merecem seguir a vida sem essa marca. Por que diabos estamos tão preocupados com o banimento eterno de algumas pessoas da sociedade (=Facebook, Twitter etc.)? Não penso que alguém que errou irá melhorar no isolamento total, sem nenhum interlocutor, sem amigos, sem chances de rever o que fez de errado.  
Para finalizar: culpa não é algo que pessoas de fora da arte incutem nos artistas; culpa não é algo que artistas incutem em quem não está fazendo arte; culpa não é algo que jornalistas e críticos de arte incutem em artistas; culpa não é algo que artistas incutem em jornalistas e críticos de arte. Culpa é algo que todos nós incutimos em todos, o tempo todo.

terça-feira, 31 de julho de 2018

Errância


O que nos impede de fazermos algo artisticamente? O que nos impede de iniciarmos uma vida de cantores, atores, escritores, poetas etc.?
Falando por mim, mas desconfiando (=tendo certeza) de que este seja o caso de muitos outros, vejo que o que me impedia era aquela tal “autorização” de alguém. Era preciso fazer um curso antes, era preciso ter anos e anos de aprendizado para, só então, começar a fazer algo – cheia de medo e me achando péssima.
Fiquei pensando que este foi o meu caso em algumas áreas da arte – menos na música. Essa eu subestimei bastante, e por isso (tudo tem um lado bom) achei que não era necessário fazer um preparatório antes de começar a cantar. Saí cantando e, no meio disso tudo, fui me encontrando e me perdendo, me encontrando e me perdendo de novo e por aí vai. Fiz um curso de teoria musical, por exemplo, mas apenas quando já cantava em um grupo vocal e vi que aquilo me ajudaria com as partituras. O estudo só me ajudou. As aulas de canto que fiz, mais tarde, também foram apenas uma valiosa manutenção da voz que eu já usava em shows e gravações. Felizmente não usei este ensino como freio, mas como auxílio para algo que eu já colocava em prática.
Mas quis escrever este texto quando percebi que o que me ajudou, mesmo, foi arriscar e pagar alguns micos, passar uns vexames e vergonhas. Olhar para trás e ver que algumas coisas que fiz musicalmente (canções ou apresentações) não eram/foram lá muito boas, foi ótimo. No sentido de que eu fui lá e paguei o mico que é preciso pagar quando se quer fazer algo. Querer estrear já brilhando pode ser armadilha para um adiamento eterno. Só passando por uns vexamezinhos (alguns destes só vistos como vexame anos e anos depois) é possível ir amadurecendo e entendendo o que é necessário modificar.
O que nos mina a energia, mesmo, é jamais iniciar. Nunca haver este rito de passagem. Nunca existir o marco zero de seu processo. Iniciar é fundamental! Fazer mal feito faz parte, para depois ir moldando este mal feito; ir fazendo deste troço mal acabado algo parecido com o que você quer dizer. É frustrante não sentir o gosto da alegria de começar algo e nem o gosto da decepção por este algo não estar ficando “lindo” como se imaginava. É muito importante se ver fazendo, e se ver capaz; importantíssimo “mandar mal” e seguir em frente. Penso que um estado melancólico de vida muitas vezes tem a ver com este não iniciar ou este não concluir. A criatividade é essencial para a vida, e é material que todo ser humano tem.
E este processo não acaba. Não é à toa que tantos artistas nomeiam seus últimos trabalhos como os “preferidos”. Há uma melhoria contínua, uma tradução cada vez mais exata daquilo que se quer expressar. Nossos trabalhos iniciais devem ser sempre vistos com respeito e carinho (pois foram os precursores de tudo), mas é saudável, penso, que eventualmente tenhamos críticas a estes. (Caso não tenhamos, ótimo!) Os primeiros trabalhos, as primeiras vezes, os primeiros riscos, as primeiras tentativas estranhas e desajeitadas são parte fundamental de nossa melhoria e do ponto onde estamos hoje – certamente um pouco mais avançados em nossa arte do que antes.
Há coisas recentes que fiz e não curto muito. Mas como eu teria feito as últimas canções, das quais gosto bastante, se não tivesse exercitado com essas anteriores? Como eu teria entendido e pensado “não é assim que quero que minhas canções sejam” se não as tivesse finalizado? Eu teria ficado tão desanimada que não teria seguido criando outras canções.
Está na hora da gente pagar os micos que a arte exige de nós. Está na hora da gente ficar se sentindo vulnerável e com vergonha por dias por algo que fizemos. É importante confundir a melodia, esquecer a letra, errar o tom, desafinar, ir melhorando, ir se gostando, ir sentindo seguro. E continuar errando, sempre, porque é inevitável e faz parte dessa coisa tão boa para a alma que é ser artista.
Para finalizar, deixo o refrão de “Errática”, letra de Mauro Aguiar com melodia de Chico Saraiva: “Eu recorro ao erro sempre que posso, e erro, e erro e erro... Sem remorso!”.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Sou da América, sul da América, South America!




Aprendi o inglês para querer entender as letras do Blind Melon. Aprendi pedindo a meu pai que as traduzisse a meu lado, e pedia a ele toda noite uma aula. Deu certo. Em pouco tempo ele já estava corrigindo as minhas cartas para os integrantes da banda, e fazendo avaliações positivas a respeito destas cartinhas. Não era a tal "facilidade" para o idioma: eram 12 anos ouvindo meu pai lendo trechos do P. G. Woodehouse em voz alta, era muito rock em alto volume, era o videogame dos meus irmãos com instruções em inglês, era todo um ambiente de língua enrolada em casa. Como não achar natural?
E foram muito mais do que 12 anos ouvindo muito rock internacional e música norte-americana, muitos filmes grrrrringous em VHS, vários livros neste idioma. E diversas expressões em inglês: "djísâs crrrráist", "mái god", "let's muuuuv".
(Foi bom reconhecer, há poucas semanas, em uma ação poético-artística de Rafa Éis – cuja proposta era, durante um passeio pela UERJ, lembrar algo valioso que se havia aprendido na infância –, que graças a meu pai aprendi um idioma que me ajudou muito durante a vida, e que até me sustentou por bastante tempo. Foi bem importante reconhecer isso.)
O primeiro livro que li em inglês, as aulas de inglês da escola (pública), que eu amava... A correção "Ella FitzGUérald" – "Não: Ella FitzDJérald"! O riso quando falei Portixed, e não Portisrréd.
Em 2018 me vejo assistindo a um filme latino-americano por noite; me vejo procurando o livro do Ernesto Sábato para reler (acho que perdi!), me vejo assistindo vídeos de músicos paraguaios, me vejo com saudades de Montevideo. E aí, vivendo todo este novo ambiente, foi inevitável perceber o quanto sempre fui extremamente norte-americanizada/inglesada. Porque o que leio/ouço/assisto da cultura hermana hoje em dia ainda não chega nem a 1%, diria, de tudo o que já consumi em inglês.
Apesar da América Latina e seu idioma sempre terem parecido marginais e especiais, ambos (língua e continente) nunca haviam recebido minha atenção. É, muito legal, mas queria tanto conhecer Chicago e sua música! É, muito legal, mas deixa eu ver o quinquagésimo filme em inglês aqui. Deixa eu ver o Daily Show, um (ótimo) programa que assisto quase todo dia no YouTube e que faz com que eu acabe sabendo mais da política de lá do que a de meu país.
Nunca vi com tanta força a influência que a cultura norte-americana sempre teve em minha vida, nunca observei isso tão bem quanto agora. É algo tão natural (um brasileiro consumir pesadamente a cultura norte-americana) que demorei para entender que nesse processo a cultura brazuca ficou um pouco para trás. E a latino-americana, então, nem se fala. (Aliás, por que a relação com os hermanos argentinos é de rivalidade/comparação?)
Ter tido acesso a tantas culturas e literaturas diferentes -- trabalhando em um sebo, viajando, fazendo faculdade, tendo acesso à internet desde 1996 -- não me impediu de ser bastante norte-americanizada. Aliás, ter acesso à internet mais incentivou isso do que o contrário, diria eu. Em 2006, quando comecei a cantar em um grupo vocal, me liguei bastante em música brasileira, e isso ajudou muito em minha descolonização. Mas ainda há muito a observar e principalmente muito a absorver de outras culturas. O mundo é gigantesco e não cabe em um só país, ou dois.
Continuo querendo conhecer Chicago e sua música; continuo lendo os livros de Jon Ronson e Andrew Solomon. São ótimos e me ajudam a viver melhor – como tantas outras coisas feitas/existentes no idioma inglês. Mas foi ótimo começar a equilibrar todo esse grande conjunto de coisas que carrego comigo há muito tempo com outras coisas e culturas – culturas essas tão ricas, tão próximas, tão irmãs. E que também me ajudam a viver muito, muito melhor.
As culturas fora do eixo Europa/EUA geralmente me levam a uma grande identificação. "Todos os longes se parecem" -- e o que não for Europa/EUA é "longe". Todas estas têm um quê de Brasil: árabes e brasileiros se identificam; indianos e brasileiros creio que se identifiquem também; africanos e brasileiros se identificam muito. Talvez até o Oriente se identifique muito com o Brasil (musicalmente, sei que sim). Acho que é nossa “marginalidade”, no sentido de sempre sermos “o outro”, que nos une. (Bem louco isso do “resto” do mundo todo ser “o outro” em relação à Europa e aos EUA...)
Mas falando dos países latinos, especificamente, vejo que estes estão sendo, para mim, como uma grande novidade empolgante (e penso que talvez o sejam para qualquer brasileiro que esteja disposto a conhecer, com o coração aberto, o que há na América Latina). É interessante observar nossa proximidade geográfica e a ironia da distância que ainda nos separa. Mas o bacana é que, mesmo havendo tantas semelhanças entre nós, sempre teremos muito a descobrir uns com os outros, infinitamente.

sábado, 7 de julho de 2018

Durma-se com um barulho desses


Durma com esse barulho: talvez você esteja  vivendo exatamente o que sempre quis viver.
Durma com esse barulho: talvez nenhum outro sonho seu seja tão fascinante quanto a sua atual realidade.
Durma com esse barulho: talvez você sempre tenha querido isso que tem agora, mas no afã de mostrar algo, no afã de ser enxergado, ignorou a mais simples das realidades.
Durma com esse barulho: como dizem, não é tão difícil ser feliz, mas o que estraga tudo é querer ser mais feliz que o outro. 
Durma com esse barulho: talvez seu principal anseio seja apenas potencializar o que você já faz.
Durma com esse barulho: o que te move não é charmoso, não pega bem e não é legitimado por ninguém. 
Durma com esse barulho: sua satisfação é invisível.

sábado, 30 de junho de 2018

Danado de bom


Chegamos na Feira de São Cristóvão relativamente cedo, em uma sexta-feira. Havia começado a chover um pouco antes, no ônibus, ainda a caminho, mas isso não importava. Chegando lá, sujamos bastante nossos pés no chão de terra da pista de dança em frente a um dos quatro palquinhos de forró pé-de-serra. Minha sandália mais tarde arrebentou, e aquela foi a primeira vez que dancei forró, mesmo. Nem sabia a diferença entre baião e xote, e nem sabia como se dançava, mas meu primeiro par foi um senhor paraibano – acredito que fosse, porque dançava “um pra lá e um pra cá” (um-um), e não dois pra lá e dois pra cá. Sorridente e com um perfume muito bom (sutil), sua voz não ouvi – não trocamos uma só palavra, nem antes nem depois, muito menos durante a longa dança, que se estendeu por várias músicas. Nesse mesmo dia subi no palquinho de Raminho e seu Trio Forró Pesado e cantei “Mata o papai”. E quais outras? Não lembro. Talvez só essa, pois à época provavelmente este era o único forró que eu sabia cantar do início ao fim (graças ao meu irmão mais velho, que vez ou outra colocava um CD do Trio Forrozão, ao vivo, para soar pela casa). 
Comi baião de dois com aipim e bebi suco de cupuaçu. Saí de lá pensando que a Feira era um pedaço do céu, pois a equação era: comida barata e deliciosa + música perfeita + ambiente gostoso, acolhedor, de todos (entrada a R$ 1,00, à época). Eu e o amigo Wilher – que hoje toca no Trio Borogodó e já tocava zabumba na Feira – saímos de lá quase de manhã. (Dançamos até funk em uma das barracas, mas o tópico funk fica para uma próxima.)
Por causa desse dia, houve finais de semana em que fui sexta, sábado e domingo a São Cristóvão. E depois de tanto dançar, curtir e me envolver, comecei a cantar forró. Algumas vezes em Seropédica, com o Forró de Cordas, que me deu essa alegria de pode fazer alguns shows muito gostosos com eles, e também em outras situações e lugares: fazendo meus próprios shows de forró, na Lapa; cantando com o Severino e Sua Gente em diversas festas juninas, também, gostosas demais – pela companhia, pela amizade, pela música. Cantar forró, percebi, me pareceu algo fácil, muito mais fácil do que quaisquer outras canções que eu já tivesse cantado. Por quê? Não sei! Mas cantei e canto forró com mais facilidade e descontração do que o faço em outros estilos. Pode ser uma impressão só minha, mas o que importa é que sinto isso.
A esta época me fascinei por diversas músicas e artistas, ouvi atentamente Luiz Gonzaga, Elba Ramalho, Trio Forrozão, Marinês, Trio Nordestino, Os 3 do Nordeste, Jorge de Altinho, Cassiano e Trio Beija-Flor e tantos outros. E confesso que pirei um pouco com “Feira de mangaio” cantada por Clara Nunes ao lado de Sivuca. Ficava ouvindo no repeat, andando de bicicleta, não sei quantas vezes. Vício bom.
(Engraçado que quando comecei a escrever esse texto um forró eletrônico estava tocando em algum lugar na vizinhança. O tal do forró de teclado – depois que passei a frequentar a Feira, este passou a ser um som que sempre me lembra de ótimas coisas, momentos de muito riso e dança. Deve ser porque na Feira ouvi, por exemplo, uma inesquecível versão para “Umbrella”, de Rihanna – “Se não valorizar”, em português).
A imersão nesse universo fez com que eu tivesse a oportunidade de, em 2012, ir a Campina Grande com Jurandy da Feira, que me convidou para participar do show dele na grande festa. Não sei se foi mais emocionante cantar no evento ao lado de Jura ou conhecer a Paraíba: andar pelas ruas embandeiradas, ver o pôr do sol ao som de outro Jurandy (o do Sax)...
E quanto às festas juninas, essas festas deliciosas? Seja cantando ou apenas curtindo uma festinha de igreja, de pracinha, na casa de alguém, observo que todos parecem se sentir um pouco mais infantis e desarmados. Há um clima de espontaneidade muito bom no ar.

Eu agradeço ao povo brasileiro, norte e centro, sul inteiro, onde reinou o baião. Foi e é delicioso incorporar mais este universo ao meu. Que bom que expandi ainda mais minha visão e audição para além do Sudeste, para além do que eu crescera ouvindo. Ouvindo baião e xote veio de lambuja, também, todo o universo nordestino, com seu sotaque e sabor inacreditáveis.