sexta-feira, 3 de agosto de 2018

E a culpa que não toque na poesia


Incutir culpa em alguém é algo que dá muito resultado. Funciona divinamente – já reparou? Já sentiu isso? Já fez isso com terceiros?
Irei falar aqui mais especificamente sobre a culpa dentro do âmbito das artes, pois este é o campo no qual atuo e circulo e é onde vejo a culpa rolando solta. Mas é importante já deixar claro que não acho que este joguinho inútil seja vivido apenas pelas pessoas que atuam na esfera artística. Pelo contrário: infelizmente vejo que este jogo está presente em todos os âmbitos de nossa sociedade, de forma incessante, e sem previsão nenhuma de algum dia acabar. (E por que acabar com este jogo, se ele é tão efetivo, se funciona tão bem?)
Recentemente fui a uma palestra sobre arte e política, e houve um momento em que uma pessoa mencionou um trabalho de artistas em uma ocupação. Achei interessante a forma como esta pessoa mencionou que era importante “pensarmos se não era o artista quem mais estava ganhando com aquela ação; se o grande beneficiado não era ele, afinal, muito mais do que os moradores daquela ocupação”. Digo que achei interessante a fala desta pessoa porque ela despertou algo em mim: a percepção de que aquele “pedido de reflexão” não era nada mais, nada menos, do que a expressa culpabilização do artista por este ter tido a intenção de fazer de sua arte um ato político. E outra percepção que tive foi a de que aquela era a centésima vez que eu ouvia aquele tipo de culpabilização, tão bem educada e pretensamente insenta. (Porque se fosse para contar as culpabilizações grosseiras e rancorosas que já ouvi ou li, aí o numero seria bem acima de cem).
Discordo ferrenhamente desta fala. O fato dela não ser original e já um tanto cansativa não é grave, mas deve ser notado também, visto que parece fazer parte de algum manual. Mas para mim o principal é que, pessoalmente, não vejo como, em qualquer situação, poderia haver algum beneficiado maior do que o próprio artista. Não acho possível que exista alguém que se sinta mais realizado e satisfeito do que o próprio artista que colocou uma ideia em prática. E mesmo quando ele fica insatisfeito com o que fez, para mais ninguém aquilo está tão imbuído de significado quanto para o autor. Eu posso amar aquela obra do Cildo Meireles e ela mudar minha vida, até, mas certamente a vida dele foi muito mais modificada, a identidade dele se construiu muito mais do que a minha ao fazer aquilo e a confecção daquela obra tem muito mais importância para ele do que para qualquer outra pessoa no mundo. O artista sempre vai “sair ganhando” (essa expressão é péssima – como se este fosse um jogo de ganhar e perder). Por quê? Porque a arte tem disso: você é potência quando cria, ainda mais do que quando absorve a arte de alguém. O ato artístico traz esta consequência consigo, felizmente. Então não há a menor possibilidade de que outros que não sejam o artista se beneficiem ainda mais do que próprio. E estes “outros” podem ser os moradores de uma ocupação ou os frequentadores de uma exposição. Será talvez pequena a mudança efetiva, visível, que ocorrerá na vida destes ocupantes de um edifício abandonado – mas pode ser que seja significativa e ótima. Eles não deixarão de viver em condições precárias, mas talvez o contato e a troca entre artista e moradores seja importante para ambos – e, pessoalmente, já considero um grande feito que esta troca aconteça (quantos de nós estamos dispostos a isso? A sair do conforto de nossas casas e colocar um projeto em prática? A trocar com outras pessoas, fazer uma residência em um ambiente totalmente diferente daquele ao qual estamos acostumados?).
Lembro das Guerrilla Girls, em uma conversa em São Paulo (quando vieram para uma expo no MASP), respondendo a diversas perguntas do público, e uma destas perguntas foi: “Vocês farão alguma ação nas ruas, ou ficarão restritas às instituições?”. A resposta, calma e tranquila como todas as respostas antes e depois desta, foi: “That’s your job!”, e desenvolveram a resposta explicando o quanto é importante que se espalhem as ideias, pois a ideia das Guerrilla Girls é exatamente esta: disseminar esta arte feminista e aguerrida, criticar a supremacia masculina no meio das artes. Achei interessantíssima a forma como elas não se colocaram em um lugar de culpadas (como “deveriam” se colocar, após esta pergunta – certo?) por estarem expondo a história de seus trabalhos em uma grande instituição. E ao longo de toda a fala delas foi possível ver o quão clara está em suas mentes a forma como pensam a arte política: todos nós temos responsabilidade a partir do momento que nos interessamos e achamos aquilo certo. Cobrar não cabe, visto que se trata de algo que qualquer um pode fazer (não estamos falando de política institucional). A performance, o ato estético-político, é para qualquer um que quiser e tiver coragem ou iniciativa para fazê-lo.
(“Ninguém faz nada” é uma falácia bem confortável. A partir do momento que você sabe, se sente indignado e pensa que é impossível ficar parado, esse assunto te pertence, e não a outro. Não dá para querer empurrar a responsabilidade. Se você deseja, cabe a você resolver este desejo.)
Há um trecho de uma entrevista de Mano Brown no Roda Viva, em 2007, em que o jornalista Renato Lombardi faz uma pergunta que penso ser a síntese deste tipo de jogo infrutífero: “Independente das letras e da música, o que mais o teu grupo faz para poder orientar, para poder abrir a cabeça das pessoas, dessa juventude que está aí com drogas e violência em tudo o quanto é esquina? O que mais vocês fazem, independente das letras e da mensagem que vocês passam?”
Ou seja: a arte não basta, ela por si só não serve. Mano Brown está errado em fazer “apenas” rap. Ele deveria fazer muito, muito mais. Felizmente a psicanalista Maria Rita Kehl, pouco depois, fez questão de comentar a pergunta: “Às vezes dá a impressão de que está todo mundo aqui achando que os Racionais poderiam resolver o problema da criminalidade”. E eu, daqui, penso que achamos que a arte é um negócio bem rasteiro, bem superficial, que necessita sempre de um complemento, algo mais “concreto”. A subjetividade é uma besteira.
Estamos vivendo uma época de muitos questionamentos, muito feminismo, muito mais representatividade negra e LGBTQ, muito mais espaço para debates vitais. E me sinto a cada dia entendendo um pouco mais o mundo em que vivo e as pessoas ao meu redor – penso que esta talvez seja uma sensação de muitos outros habitantes do mundo. E não acho que faça parte deste avanço tão visível (em textos, músicas, filmes, conversas) que estamos vivendo uma imersão em um mar de autocrítica infinda (devido a um grande medo de darmos um passo em falso). Eu, como artista, sinto que o medo de errar e de ser acusada de “pretensiosa”, ou de “sair ganhando em cima de alguém” em algum momento só me leva a ser mais tímida e retraída do que já sou, a ter mais medo ainda de ousar e arriscar. Não me leva, em nenhum momento, a querer melhorar e ter mais senso crítico. Apenas me paralisa. O que me faz melhorar, mesmo, é ler os bons textos da Lola Aronovich, ler ótimos livros como os de Adélia Prado, ir a exposições à lá Queermuseu, saber da existência de performances como La bête, ouvir o Sinta a Liga Crew, ver um filme como Te prometo anarquía. Toda essa arte me ajuda a viver melhor, pois me faz rever meus conceitos, e ainda me inspira como artista.  
Atenção e sensibilidade em relação a quem nos cerca são aspectos vitais para a convivência em sociedade. Mas vejo uma sanha, quase um desejo (para não dizer tesão) de apontar dedos, ferir, fazer linchamento virtual e querer o pior para quem usou a palavra errada na hora errada. Saibamos distinguir: há pessoas mal intencionadas; há pessoas distraídas que entendem sinceramente o próprio erro e merecem seguir a vida sem essa marca. Por que diabos estamos tão preocupados com o banimento eterno de algumas pessoas da sociedade (=Facebook, Twitter etc.)? Não penso que alguém que errou irá melhorar no isolamento total, sem nenhum interlocutor, sem amigos, sem chances de rever o que fez de errado.  
Para finalizar: culpa não é algo que pessoas de fora da arte incutem nos artistas; culpa não é algo que artistas incutem em quem não está fazendo arte; culpa não é algo que jornalistas e críticos de arte incutem em artistas; culpa não é algo que artistas incutem em jornalistas e críticos de arte. Culpa é algo que todos nós incutimos em todos, o tempo todo.

terça-feira, 31 de julho de 2018

Errância


O que nos impede de fazermos algo artisticamente? O que nos impede de iniciarmos uma vida de cantores, atores, escritores, poetas etc.?
Falando por mim, mas desconfiando (=tendo certeza) de que este seja o caso de muitos outros, vejo que o que me impedia era aquela tal “autorização” de alguém. Era preciso fazer um curso antes, era preciso ter anos e anos de aprendizado para, só então, começar a fazer algo – cheia de medo e me achando péssima.
Fiquei pensando que este foi o meu caso em algumas áreas da arte – menos na música. Essa eu subestimei bastante, e por isso (tudo tem um lado bom) achei que não era necessário fazer um preparatório antes de começar a cantar. Saí cantando e, no meio disso tudo, fui me encontrando e me perdendo, me encontrando e me perdendo de novo e por aí vai. Fiz um curso de teoria musical, por exemplo, mas apenas quando já cantava em um grupo vocal e vi que aquilo me ajudaria com as partituras. O estudo só me ajudou. As aulas de canto que fiz, mais tarde, também foram apenas uma valiosa manutenção da voz que eu já usava em shows e gravações. Felizmente não usei este ensino como freio, mas como auxílio para algo que eu já colocava em prática.
Mas quis escrever este texto quando percebi que o que me ajudou, mesmo, foi arriscar e pagar alguns micos, passar uns vexames e vergonhas. Olhar para trás e ver que algumas coisas que fiz musicalmente (canções ou apresentações) não eram/foram lá muito boas, foi ótimo. No sentido de que eu fui lá e paguei o mico que é preciso pagar quando se quer fazer algo. Querer estrear já brilhando pode ser armadilha para um adiamento eterno. Só passando por uns vexamezinhos (alguns destes só vistos como vexame anos e anos depois) é possível ir amadurecendo e entendendo o que é necessário modificar.
O que nos mina a energia, mesmo, é jamais iniciar. Nunca haver este rito de passagem. Nunca existir o marco zero de seu processo. Iniciar é fundamental! Fazer mal feito faz parte, para depois ir moldando este mal feito; ir fazendo deste troço mal acabado algo parecido com o que você quer dizer. É frustrante não sentir o gosto da alegria de começar algo e nem o gosto da decepção por este algo não estar ficando “lindo” como se imaginava. É muito importante se ver fazendo, e se ver capaz; importantíssimo “mandar mal” e seguir em frente. Penso que um estado melancólico de vida muitas vezes tem a ver com este não iniciar ou este não concluir. A criatividade é essencial para a vida, e é material que todo ser humano tem.
E este processo não acaba. Não é à toa que tantos artistas nomeiam seus últimos trabalhos como os “preferidos”. Há uma melhoria contínua, uma tradução cada vez mais exata daquilo que se quer expressar. Nossos trabalhos iniciais devem ser sempre vistos com respeito e carinho (pois foram os precursores de tudo), mas é saudável, penso, que eventualmente tenhamos críticas a estes. (Caso não tenhamos, ótimo!) Os primeiros trabalhos, as primeiras vezes, os primeiros riscos, as primeiras tentativas estranhas e desajeitadas são parte fundamental de nossa melhoria e do ponto onde estamos hoje – certamente um pouco mais avançados em nossa arte do que antes.
Há coisas recentes que fiz e não curto muito. Mas como eu teria feito as últimas canções, das quais gosto bastante, se não tivesse exercitado com essas anteriores? Como eu teria entendido e pensado “não é assim que quero que minhas canções sejam” se não as tivesse finalizado? Eu teria ficado tão desanimada que não teria seguido criando outras canções.
Está na hora da gente pagar os micos que a arte exige de nós. Está na hora da gente ficar se sentindo vulnerável e com vergonha por dias por algo que fizemos. É importante confundir a melodia, esquecer a letra, errar o tom, desafinar, ir melhorando, ir se gostando, ir sentindo seguro. E continuar errando, sempre, porque é inevitável e faz parte dessa coisa tão boa para a alma que é ser artista.
Para finalizar, deixo o refrão de “Errática”, letra de Mauro Aguiar com melodia de Chico Saraiva: “Eu recorro ao erro sempre que posso, e erro, e erro e erro... Sem remorso!”.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Sou da América, sul da América, South America!




Aprendi o inglês para querer entender as letras do Blind Melon. Aprendi pedindo a meu pai que as traduzisse a meu lado, e pedia a ele toda noite uma aula. Deu certo. Em pouco tempo ele já estava corrigindo as minhas cartas para os integrantes da banda, e fazendo avaliações positivas a respeito destas cartinhas. Não era a tal "facilidade" para o idioma: eram 12 anos ouvindo meu pai lendo trechos do P. G. Woodehouse em voz alta, era muito rock em alto volume, era o videogame dos meus irmãos com instruções em inglês, era todo um ambiente de língua enrolada em casa. Como não achar natural?
E foram muito mais do que 12 anos ouvindo muito rock internacional e música norte-americana, muitos filmes grrrrringous em VHS, vários livros neste idioma. E diversas expressões em inglês: "djísâs crrrráist", "mái god", "let's muuuuv".
(Foi bom reconhecer, há poucas semanas, em uma ação poético-artística de Rafa Éis – cuja proposta era, durante um passeio pela UERJ, lembrar algo valioso que se havia aprendido na infância –, que graças a meu pai aprendi um idioma que me ajudou muito durante a vida, e que até me sustentou por bastante tempo. Foi bem importante reconhecer isso.)
O primeiro livro que li em inglês, as aulas de inglês da escola (pública), que eu amava... A correção "Ella FitzGUérald" – "Não: Ella FitzDJérald"! O riso quando falei Portixed, e não Portisrréd.
Em 2018 me vejo assistindo a um filme latino-americano por noite; me vejo procurando o livro do Ernesto Sábato para reler (acho que perdi!), me vejo assistindo vídeos de músicos paraguaios, me vejo com saudades de Montevideo. E aí, vivendo todo este novo ambiente, foi inevitável perceber o quanto sempre fui extremamente norte-americanizada/inglesada. Porque o que leio/ouço/assisto da cultura hermana hoje em dia ainda não chega nem a 1%, diria, de tudo o que já consumi em inglês.
Apesar da América Latina e seu idioma sempre terem parecido marginais e especiais, ambos (língua e continente) nunca haviam recebido minha atenção. É, muito legal, mas queria tanto conhecer Chicago e sua música! É, muito legal, mas deixa eu ver o quinquagésimo filme em inglês aqui. Deixa eu ver o Daily Show, um (ótimo) programa que assisto quase todo dia no YouTube e que faz com que eu acabe sabendo mais da política de lá do que a de meu país.
Nunca vi com tanta força a influência que a cultura norte-americana sempre teve em minha vida, nunca observei isso tão bem quanto agora. É algo tão natural (um brasileiro consumir pesadamente a cultura norte-americana) que demorei para entender que nesse processo a cultura brazuca ficou um pouco para trás. E a latino-americana, então, nem se fala. (Aliás, por que a relação com os hermanos argentinos é de rivalidade/comparação?)
Ter tido acesso a tantas culturas e literaturas diferentes -- trabalhando em um sebo, viajando, fazendo faculdade, tendo acesso à internet desde 1996 -- não me impediu de ser bastante norte-americanizada. Aliás, ter acesso à internet mais incentivou isso do que o contrário, diria eu. Em 2006, quando comecei a cantar em um grupo vocal, me liguei bastante em música brasileira, e isso ajudou muito em minha descolonização. Mas ainda há muito a observar e principalmente muito a absorver de outras culturas. O mundo é gigantesco e não cabe em um só país, ou dois.
Continuo querendo conhecer Chicago e sua música; continuo lendo os livros de Jon Ronson e Andrew Solomon. São ótimos e me ajudam a viver melhor – como tantas outras coisas feitas/existentes no idioma inglês. Mas foi ótimo começar a equilibrar todo esse grande conjunto de coisas que carrego comigo há muito tempo com outras coisas e culturas – culturas essas tão ricas, tão próximas, tão irmãs. E que também me ajudam a viver muito, muito melhor.
As culturas fora do eixo Europa/EUA geralmente me levam a uma grande identificação. "Todos os longes se parecem" -- e o que não for Europa/EUA é "longe". Todas estas têm um quê de Brasil: árabes e brasileiros se identificam; indianos e brasileiros creio que se identifiquem também; africanos e brasileiros se identificam muito. Talvez até o Oriente se identifique muito com o Brasil (musicalmente, sei que sim). Acho que é nossa “marginalidade”, no sentido de sempre sermos “o outro”, que nos une. (Bem louco isso do “resto” do mundo todo ser “o outro” em relação à Europa e aos EUA...)
Mas falando dos países latinos, especificamente, vejo que estes estão sendo, para mim, como uma grande novidade empolgante (e penso que talvez o sejam para qualquer brasileiro que esteja disposto a conhecer, com o coração aberto, o que há na América Latina). É interessante observar nossa proximidade geográfica e a ironia da distância que ainda nos separa. Mas o bacana é que, mesmo havendo tantas semelhanças entre nós, sempre teremos muito a descobrir uns com os outros, infinitamente.

sábado, 7 de julho de 2018

Durma-se com um barulho desses


Durma com esse barulho: talvez você esteja  vivendo exatamente o que sempre quis viver.
Durma com esse barulho: talvez nenhum outro sonho seu seja tão fascinante quanto a sua atual realidade.
Durma com esse barulho: talvez você sempre tenha querido isso que tem agora, mas no afã de mostrar algo, no afã de ser enxergado, ignorou a mais simples das realidades.
Durma com esse barulho: como dizem, não é tão difícil ser feliz, mas o que estraga tudo é querer ser mais feliz que o outro. 
Durma com esse barulho: talvez seu principal anseio seja apenas potencializar o que você já faz.
Durma com esse barulho: o que te move não é charmoso, não pega bem e não é legitimado por ninguém. 
Durma com esse barulho: sua satisfação é invisível.

sábado, 30 de junho de 2018

Danado de bom


Chegamos na Feira de São Cristóvão relativamente cedo, em uma sexta-feira. Havia começado a chover um pouco antes, no ônibus, ainda a caminho, mas isso não importava. Chegando lá, sujamos bastante nossos pés no chão de terra da pista de dança em frente a um dos quatro palquinhos de forró pé-de-serra. Minha sandália mais tarde arrebentou, e aquela foi a primeira vez que dancei forró, mesmo. Nem sabia a diferença entre baião e xote, e nem sabia como se dançava, mas meu primeiro par foi um senhor paraibano – acredito que fosse, porque dançava “um pra lá e um pra cá” (um-um), e não dois pra lá e dois pra cá. Sorridente e com um perfume muito bom (sutil), sua voz não ouvi – não trocamos uma só palavra, nem antes nem depois, muito menos durante a longa dança, que se estendeu por várias músicas. Nesse mesmo dia subi no palquinho de Raminho e seu Trio Forró Pesado e cantei “Mata o papai”. E quais outras? Não lembro. Talvez só essa, pois à época provavelmente este era o único forró que eu sabia cantar do início ao fim (graças ao meu irmão mais velho, que vez ou outra colocava um CD do Trio Forrozão, ao vivo, para soar pela casa). 
Comi baião de dois com aipim e bebi suco de cupuaçu. Saí de lá pensando que a Feira era um pedaço do céu, pois a equação era: comida barata e deliciosa + música perfeita + ambiente gostoso, acolhedor, de todos (entrada a R$ 1,00, à época). Eu e o amigo Wilher – que hoje toca no Trio Borogodó e já tocava zabumba na Feira – saímos de lá quase de manhã. (Dançamos até funk em uma das barracas, mas o tópico funk fica para uma próxima.)
Por causa desse dia, houve finais de semana em que fui sexta, sábado e domingo a São Cristóvão. E depois de tanto dançar, curtir e me envolver, comecei a cantar forró. Algumas vezes em Seropédica, com o Forró de Cordas, que me deu essa alegria de pode fazer alguns shows muito gostosos com eles, e também em outras situações e lugares: fazendo meus próprios shows de forró, na Lapa; cantando com o Severino e Sua Gente em diversas festas juninas, também, gostosas demais – pela companhia, pela amizade, pela música. Cantar forró, percebi, me pareceu algo fácil, muito mais fácil do que quaisquer outras canções que eu já tivesse cantado. Por quê? Não sei! Mas cantei e canto forró com mais facilidade e descontração do que o faço em outros estilos. Pode ser uma impressão só minha, mas o que importa é que sinto isso.
A esta época me fascinei por diversas músicas e artistas, ouvi atentamente Luiz Gonzaga, Elba Ramalho, Trio Forrozão, Marinês, Trio Nordestino, Os 3 do Nordeste, Jorge de Altinho, Cassiano e Trio Beija-Flor e tantos outros. E confesso que pirei um pouco com “Feira de mangaio” cantada por Clara Nunes ao lado de Sivuca. Ficava ouvindo no repeat, andando de bicicleta, não sei quantas vezes. Vício bom.
(Engraçado que quando comecei a escrever esse texto um forró eletrônico estava tocando em algum lugar na vizinhança. O tal do forró de teclado – depois que passei a frequentar a Feira, este passou a ser um som que sempre me lembra de ótimas coisas, momentos de muito riso e dança. Deve ser porque na Feira ouvi, por exemplo, uma inesquecível versão para “Umbrella”, de Rihanna – “Se não valorizar”, em português).
A imersão nesse universo fez com que eu tivesse a oportunidade de, em 2012, ir a Campina Grande com Jurandy da Feira, que me convidou para participar do show dele na grande festa. Não sei se foi mais emocionante cantar no evento ao lado de Jura ou conhecer a Paraíba: andar pelas ruas embandeiradas, ver o pôr do sol ao som de outro Jurandy (o do Sax)...
E quanto às festas juninas, essas festas deliciosas? Seja cantando ou apenas curtindo uma festinha de igreja, de pracinha, na casa de alguém, observo que todos parecem se sentir um pouco mais infantis e desarmados. Há um clima de espontaneidade muito bom no ar.

Eu agradeço ao povo brasileiro, norte e centro, sul inteiro, onde reinou o baião. Foi e é delicioso incorporar mais este universo ao meu. Que bom que expandi ainda mais minha visão e audição para além do Sudeste, para além do que eu crescera ouvindo. Ouvindo baião e xote veio de lambuja, também, todo o universo nordestino, com seu sotaque e sabor inacreditáveis.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Seção pretensão


Você já pediu permissão para ser artista?
Fico feliz por quem não esteja nem entendendo bem essa pergunta, pelo fato de nunca ter se sentido assim.
Mas lembro de inúmeras vezes em que senti, claramente, um grande medo de fazer minha arte sem a autorização de ninguém.
Estava conversando com meu companheiro esses dias, e me vi percebendo exatamente o quanto ele nunca havia pedido permissão para fazer nada do que fez. Coloca sua arte no mundo, sempre, e até hoje não achou que não teria o direito de fazê-lo. Nunca perguntou a alguém se, sendo artista visual, poderia fazer um documentário (“área do cinema”), apenas fez. Utilizou diversas mídias, à vontade. Escreveu livros, fez músicas. Não pela vontade de se classificar como “multimídia”, mas pela vontade de criar sem freios ou limites. Acho que ele não acredita em “proprietários das artes”: ela é de todos, chega quem quer.
Mas muitos de nós ainda nos colocamos em caixas e pensamos que precisamos da tal benção de alguém, ou que precisamos de cursos e graduações para realizarmos algo. Os cursos e as graduações podem ser experiências fascinantes (muitas vezes são épocas marcantes, ricas e cheias de encontros), mas se a gente estiver usando esta futura graduação ou curso apenas para adiar aquilo que a gente já poderia estar fazendo, é só autoboicote, mesmo. “Queria muito escrever, mas aquele curso de escrita literária está meio caro”; “queria muito dançar, mas não tenho grana pra me matricular na Deborah Colker”; “poxa, o curso de interpretação que a fulana vai dar é em São Paulo, que pena, não vai ser dessa vez que finalmente vou começar a interpretar”. Não é incomum inventarmos desculpas esfarrapadas para continuarmos chafurdando no medo. A especialização está aí para ajudar, não para servir de freio de mão. (Sou, aliás, totalmente a favor dessa experiência deliciosa que é estudar o que se ama.)  
Na infância, felizmente, a maioria das pessoas se sente livre, (quase todo mundo ainda se sente artista). Quando crescemos é que a competitividade, a cobrança e a comparação falam mais alto (não que estas três maravilhas não existam na infância – quem dera! –, mas vejo que a coisa pega com força, mesmo, mais tarde); então fui crescendo, virei adolescente e, depois, já “gente grande”, fui achando que era preciso antes de qualquer coisa, estudar muito, talvez muitos anos, para fazer coisas que eu já poderia fazer. Só depois desses estudos eu seria “algo” ou “alguém”.
(Também podemos usar como freio de mão um “guru”, alguém que a gente adore e que nos diga exatamente o que devemos fazer. Só ele sabe! “Ele aprovou”, então está tudo sob controle: você está autorizado a seguir em frente -- ufa!)
Penso que muitos de nós estamos procurando a carteirinha de artista em algum lugar, mas essa carteirinha não nos é dada nunca. Ela não vem com o diploma, nem com o certificado de curso de interpretação, nem com as fotos daquele concurso de pintura que fizemos. Nem o currículo recheado de informações e atuações na área artística mostra que você é um “artista certificado”. Porque sempre haverá alguém com padrões muito maiores que os nossos, prontinho para falar que o que a gente fez não é suficiente, não dá nem pro começo. Então a gente busca de qualquer jeito essa legitimidade, mas ela não vem nunca, e o resultado é: ficamos desesperados, querendo respeito e dando carteirada (talvez a da Ordem dos Músicos sirva, quem sabe?), como se fossem os outros que devessem nos respeitar, e não nós mesmos.
Precisamos escrever nas redes sociais absolutamente tudo o que já alcançamos, para que ninguém duvide de nossa capacidade. Mas a má notícia é que vão continuar duvidando, sempre. E a boa notícia é que se a gente parar de duvidar, o problema está resolvido e a gente não vai mais se impedir de fazer nada.
Daí comecei também a pensar, nesses últimos dias, sobre o que ando querendo fazer. E em como isso pode soar pretensioso, para alguns (e ao mesmo tempo pífio, para outros). Será que meus projetos – que não são nada de mais, na verdade – estão “fora de minha alçada”? Será que estou achando que sou uma grande coisa, e querendo fazer mais do que deveria? Bem, segundo minha visão, não; nem um pouco. Pensando sobre isso, entendi que realmente não há nada que a gente não “deva” fazer artisticamente – não estou falando de questões éticas; refiro-me à questão da linguagem/área.
Não sinto (mais) a necessidade de me denominar isso ou aquilo, mas entendo que preciso ser pretensiosa (no melhor dos sentidos) caso eu realmente queira fazer três coisas ao mesmo tempo (todas ligadas ao meu trabalho artístico como cantora), por exemplo. Porque estas coisas me dão força, porque estas coisas se alimentam, porque não há outra forma de fazer acontecer que não seja: ir lá e fazer. Sem esperar que alguém “permita” – ou, pior, que alguém, algum dia, do nada, bata à minha porta e me convide para fazer exatamente essas coisas que quero fazer. Taí algo que não vai rolar nunca.
Desejo a todos nós uma grande cara de pau e muita coragem para que sejamos pretensiosos, sem crises, sempre que necessário. Que a gente consiga ser aquele que “pretende demasiadamente” (segundo o dicionário), aquele metido que vai lá e faz, sem a permissão de ninguém.

* O título desse texto é uma referência à “Seção Pretensão”, da revista MAD, na qual os leitores enviavam seus desenhos e charges. Me vi pensando que o nome da seção não podia ser melhor para mostrar o quanto a tal da pretensão pode ser muito positiva.

sábado, 9 de junho de 2018

Desclassificada

Quanto mais eu vejo nossa necessidade de nos classificarmos, mais vejo que não sou nada. Profissionalmente, digo.
Acho que a única coisa que não posso negar que sou é cantora. Mesmo assim, há controvérsias.
Quanto mais vejo que somos DJs, designers, empreendedores, ilustradores, cervejeiros, atores, jornalistas, dançarinos e estudantes de pós-graduação, tenho certeza de que não sou nada do que já declarei ser.
Todas as vezes em que quis me definir, a verdade é que menti.
Talvez eu só seja, mesmo, cantora. E para mim está ótimo assim.
Mas, como disse, há controvérsias.
Já disseram que eu não era exatamente uma cantora, assim, propriamente. Entende? Na boa, é claro. E não sei, na verdade, se há alguma coisa que eu de fato seja que, em algum momento, não tenha sido negada por outrem.
(Por outro lado, pude saber que eu era várias coisas: vieram me dizer. Eu nem sabia, mas ainda bem que me avisaram.)
Talvez nem artista eu seja, porque um artista vive do que faz, dirão. Drummond, Guinga, Paulo Bruscky e Bukowski viveram/vivem também de outras coisas, mas todo mundo sabe que esses são artistas, de fato – aliás, creio que alguns apostariam que estes viveram/vivem única e exclusivamente de suas artes, pois é o que parece. E muitos de meus amigos artistas, também, se sustentam com outras coisas, além da arte. Mas eu não sei se posso me classificar assim, visto que não sou Bukowski, nem Drummond, nem Paulo Bruscky, nem Guinga, nem meus amigos.
Agora falando sério: na mesma medida em que acho lamentável o interesse de terceiros em nos classificar (principalmente em nos desclassificar, na verdade), penso que quero cada vez mais não ser o que já tanto disse que sou. Não sou atriz nem professora de canto. Não sou estudante de pós-graduação coisa nenhuma. Não sou nada além de alguém que canta. (Acabei de descobrir que melhor do que ser uma cantora é ser alguém que canta.)
E por que diabos falar nisso, então? Era mais fácil deixar isso para lá e simplesmente não me classificar como nada, parar de mentir e vida que segue. Mas acontece que escrever é bom para organizar os pensamentos, daí a vontade de vir aqui um pouquinho e falar sobre essa besteira.
Como mencionei, a vontade de classificar vinda dos outros existe. Mas a vontade de autoclassificação é muito maior. Afinal, o mundo pede isso. Quem é você? Se você for pouco, não serve. Só isso? Cadê a polivalência, a versatilidade? E, engraçado: é preciso polivalência e especialização, ao mesmo tempo. Conheça muitas coisas, e muito bem todas elas. Bem, na verdade o mundo (=sistema) tem o direito de pedir isso. Bobos somos nós, que obedecemos. Era só deixar o “mundo” falando sozinho, com suas exigências impossíveis (estagiário com experiência etc.). 
Por que a gente cai nessa de que tem que ter diversas vírgulas na hora da apresentação – cantor, produtor, VJ, influencer, redator, multiartista? Sério, já me peguei algumas (várias) vezes pensando que eu era pouco, muito pouco, graças a esse parâmetro aí. Felizmente cheguei à conclusão de que eu só era uma coisa, mesmo, se tanto, e isso me deu um alívio danado.
Porque, na verdade... Penso que somos uma grande quantidade de coisas. Mas não sei se elas servem para o currículo. Acho que não. E não sei se elas precisam ser ditas. Acho que trata-se de uma tentativa de conquistar respeito (algo que não deveria ser conquistado, e sim distribuído livremente entre todos, sem distinção). Mas, como este é um material escasso, vem essa necessidade (minha e de tantos) de provar algo a alguém. Fica sendo uma pequena briga: “Se você por acaso está pensando que não sou porra nenhuma, agora aguenta: sou isso, isso, isso e isso. E isso também. Durma com esse barulho”.
E por que a gente não seria assim? Competitividade é a palavra de ordem. Por que não nos sentiríamos inseguros? Não temos motivos para carregar um sentimento de confiança. A qualquer momento pode vir alguém querendo reduzir nossas convicções a pó. Com qual intuito, vai saber. Ou melhor, sabemos: o mesmo intuito que temos quando vamos até o outro com o propósito de reduzir a confiança dele a pó.
Não estou pregando a falsa modéstia, nem achando que é preciso esconder nenhum fato. Temos mesmo que reconhecer nosso próprio esforço e as vontades que conseguimos levar adiante, temos mesmo que sentir satisfação por termos alcançado tanto. 
Mas não acho (não mais) que estar satisfeito implique avisar a terceiros sobre isso. Ser ou fazer independe de alguém saber disso. Sendo noticiada ou não, a coisa está acontecendo.