sábado, 30 de junho de 2018

Danado de bom


Chegamos na Feira de São Cristóvão relativamente cedo, em uma sexta-feira. Havia começado a chover um pouco antes, no ônibus, ainda a caminho, mas isso não importava. Chegando lá, sujamos bastante nossos pés no chão de terra da pista de dança em frente a um dos quatro palquinhos de forró pé-de-serra. Minha sandália mais tarde arrebentou, e aquela foi a primeira vez que dancei forró, mesmo. Nem sabia a diferença entre baião e xote, e nem sabia como se dançava, mas meu primeiro par foi um senhor paraibano – acredito que fosse, porque dançava “um pra lá e um pra cá” (um-um), e não dois pra lá e dois pra cá. Sorridente e com um perfume muito bom (sutil), sua voz não ouvi – não trocamos uma só palavra, nem antes nem depois, muito menos durante a longa dança, que se estendeu por várias músicas. Nesse mesmo dia subi no palquinho de Raminho e seu Trio Forró Pesado e cantei “Mata o papai”. E quais outras? Não lembro. Talvez só essa, pois à época provavelmente este era o único forró que eu sabia cantar do início ao fim (graças ao meu irmão mais velho, que vez ou outra colocava um CD do Trio Forrozão, ao vivo, para soar pela casa). 
Comi baião de dois com aipim e bebi suco de cupuaçu. Saí de lá pensando que a Feira era um pedaço do céu, pois a equação era: comida barata e deliciosa + música perfeita + ambiente gostoso, acolhedor, de todos (entrada a R$ 1,00, à época). Eu e o amigo Wilher – que hoje toca no Trio Borogodó e já tocava zabumba na Feira – saímos de lá quase de manhã. (Dançamos até funk em uma das barracas, mas o tópico funk fica para uma próxima.)
Por causa desse dia, houve finais de semana em que fui sexta, sábado e domingo a São Cristóvão. E depois de tanto dançar, curtir e me envolver, comecei a cantar forró. Algumas vezes em Seropédica, com o Forró de Cordas, que me deu essa alegria de pode fazer alguns shows muito gostosos com eles, e também em outras situações e lugares: fazendo meus próprios shows de forró, na Lapa; cantando com o Severino e Sua Gente em diversas festas juninas, também, gostosas demais – pela companhia, pela amizade, pela música. Cantar forró, percebi, me pareceu algo fácil, muito mais fácil do que quaisquer outras canções que eu já tivesse cantado. Por quê? Não sei! Mas cantei e canto forró com mais facilidade e descontração do que o faço em outros estilos. Pode ser uma impressão só minha, mas o que importa é que sinto isso.
A esta época me fascinei por diversas músicas e artistas, ouvi atentamente Luiz Gonzaga, Elba Ramalho, Trio Forrozão, Marinês, Trio Nordestino, Os 3 do Nordeste, Jorge de Altinho, Cassiano e Trio Beija-Flor e tantos outros. E confesso que pirei um pouco com “Feira de mangaio” cantada por Clara Nunes ao lado de Sivuca. Ficava ouvindo no repeat, andando de bicicleta, não sei quantas vezes. Vício bom.
(Engraçado que quando comecei a escrever esse texto um forró eletrônico estava tocando em algum lugar na vizinhança. O tal do forró de teclado – depois que passei a frequentar a Feira, este passou a ser um som que sempre me lembra de ótimas coisas, momentos de muito riso e dança. Deve ser porque na Feira ouvi, por exemplo, uma inesquecível versão para “Umbrella”, de Rihanna – “Se não valorizar”, em português).
A imersão nesse universo fez com que eu tivesse a oportunidade de, em 2012, ir a Campina Grande com Jurandy da Feira, que me convidou para participar do show dele na grande festa. Não sei se foi mais emocionante cantar no evento ao lado de Jura ou conhecer a Paraíba: andar pelas ruas embandeiradas, ver o pôr do sol ao som de outro Jurandy (o do Sax)...
E quanto às festas juninas, essas festas deliciosas? Seja cantando ou apenas curtindo uma festinha de igreja, de pracinha, na casa de alguém, observo que todos parecem se sentir um pouco mais infantis e desarmados. Há um clima de espontaneidade muito bom no ar.

Eu agradeço ao povo brasileiro, norte e centro, sul inteiro, onde reinou o baião. Foi e é delicioso incorporar mais este universo ao meu. Que bom que expandi ainda mais minha visão e audição para além do Sudeste, para além do que eu crescera ouvindo. Ouvindo baião e xote veio de lambuja, também, todo o universo nordestino, com seu sotaque e sabor inacreditáveis.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Seção pretensão


Você já pediu permissão para ser artista?
Fico feliz por quem não esteja nem entendendo bem essa pergunta, pelo fato de nunca ter se sentido assim.
Mas lembro de inúmeras vezes em que senti, claramente, um grande medo de fazer minha arte sem a autorização de ninguém.
Estava conversando com meu companheiro esses dias, e me vi percebendo exatamente o quanto ele nunca havia pedido permissão para fazer nada do que fez. Coloca sua arte no mundo, sempre, e até hoje não achou que não teria o direito de fazê-lo. Nunca perguntou a alguém se, sendo artista visual, poderia fazer um documentário (“área do cinema”), apenas fez. Utilizou diversas mídias, à vontade. Escreveu livros, fez músicas. Não pela vontade de se classificar como “multimídia”, mas pela vontade de criar sem freios ou limites. Acho que ele não acredita em “proprietários das artes”: ela é de todos, chega quem quer.
Mas muitos de nós ainda nos colocamos em caixas e pensamos que precisamos da tal benção de alguém, ou que precisamos de cursos e graduações para realizarmos algo. Os cursos e as graduações podem ser experiências fascinantes (muitas vezes são épocas marcantes, ricas e cheias de encontros), mas se a gente estiver usando esta futura graduação ou curso apenas para adiar aquilo que a gente já poderia estar fazendo, é só autoboicote, mesmo. “Queria muito escrever, mas aquele curso de escrita literária está meio caro”; “queria muito dançar, mas não tenho grana pra me matricular na Deborah Colker”; “poxa, o curso de interpretação que a fulana vai dar é em São Paulo, que pena, não vai ser dessa vez que finalmente vou começar a interpretar”. Não é incomum inventarmos desculpas esfarrapadas para continuarmos chafurdando no medo. A especialização está aí para ajudar, não para servir de freio de mão. (Sou, aliás, totalmente a favor dessa experiência deliciosa que é estudar o que se ama.)  
Na infância, felizmente, a maioria das pessoas se sente livre, (quase todo mundo ainda se sente artista). Quando crescemos é que a competitividade, a cobrança e a comparação falam mais alto (não que estas três maravilhas não existam na infância – quem dera! –, mas vejo que a coisa pega com força, mesmo, mais tarde); então fui crescendo, virei adolescente e, depois, já “gente grande”, fui achando que era preciso antes de qualquer coisa, estudar muito, talvez muitos anos, para fazer coisas que eu já poderia fazer. Só depois desses estudos eu seria “algo” ou “alguém”.
(Também podemos usar como freio de mão um “guru”, alguém que a gente adore e que nos diga exatamente o que devemos fazer. Só ele sabe! “Ele aprovou”, então está tudo sob controle: você está autorizado a seguir em frente -- ufa!)
Penso que muitos de nós estamos procurando a carteirinha de artista em algum lugar, mas essa carteirinha não nos é dada nunca. Ela não vem com o diploma, nem com o certificado de curso de interpretação, nem com as fotos daquele concurso de pintura que fizemos. Nem o currículo recheado de informações e atuações na área artística mostra que você é um “artista certificado”. Porque sempre haverá alguém com padrões muito maiores que os nossos, prontinho para falar que o que a gente fez não é suficiente, não dá nem pro começo. Então a gente busca de qualquer jeito essa legitimidade, mas ela não vem nunca, e o resultado é: ficamos desesperados, querendo respeito e dando carteirada (talvez a da Ordem dos Músicos sirva, quem sabe?), como se fossem os outros que devessem nos respeitar, e não nós mesmos.
Precisamos escrever nas redes sociais absolutamente tudo o que já alcançamos, para que ninguém duvide de nossa capacidade. Mas a má notícia é que vão continuar duvidando, sempre. E a boa notícia é que se a gente parar de duvidar, o problema está resolvido e a gente não vai mais se impedir de fazer nada.
Daí comecei também a pensar, nesses últimos dias, sobre o que ando querendo fazer. E em como isso pode soar pretensioso, para alguns (e ao mesmo tempo pífio, para outros). Será que meus projetos – que não são nada de mais, na verdade – estão “fora de minha alçada”? Será que estou achando que sou uma grande coisa, e querendo fazer mais do que deveria? Bem, segundo minha visão, não; nem um pouco. Pensando sobre isso, entendi que realmente não há nada que a gente não “deva” fazer artisticamente – não estou falando de questões éticas; refiro-me à questão da linguagem/área.
Não sinto (mais) a necessidade de me denominar isso ou aquilo, mas entendo que preciso ser pretensiosa (no melhor dos sentidos) caso eu realmente queira fazer três coisas ao mesmo tempo (todas ligadas ao meu trabalho artístico como cantora), por exemplo. Porque estas coisas me dão força, porque estas coisas se alimentam, porque não há outra forma de fazer acontecer que não seja: ir lá e fazer. Sem esperar que alguém “permita” – ou, pior, que alguém, algum dia, do nada, bata à minha porta e me convide para fazer exatamente essas coisas que quero fazer. Taí algo que não vai rolar nunca.
Desejo a todos nós uma grande cara de pau e muita coragem para que sejamos pretensiosos, sem crises, sempre que necessário. Que a gente consiga ser aquele que “pretende demasiadamente” (segundo o dicionário), aquele metido que vai lá e faz, sem a permissão de ninguém.

* O título desse texto é uma referência à “Seção Pretensão”, da revista MAD, na qual os leitores enviavam seus desenhos e charges. Me vi pensando que o nome da seção não podia ser melhor para mostrar o quanto a tal da pretensão pode ser muito positiva.

sábado, 9 de junho de 2018

Desclassificada

Quanto mais eu vejo nossa necessidade de nos classificarmos, mais vejo que não sou nada. Profissionalmente, digo.
Acho que a única coisa que não posso negar que sou é cantora. Mesmo assim, há controvérsias.
Quanto mais vejo que somos DJs, designers, empreendedores, ilustradores, cervejeiros, atores, jornalistas, dançarinos e estudantes de pós-graduação, tenho certeza de que não sou nada do que já declarei ser.
Todas as vezes em que quis me definir, a verdade é que menti.
Talvez eu só seja, mesmo, cantora. E para mim está ótimo assim.
Mas, como disse, há controvérsias.
Já disseram que eu não era exatamente uma cantora, assim, propriamente. Entende? Na boa, é claro. E não sei, na verdade, se há alguma coisa que eu de fato seja que, em algum momento, não tenha sido negada por outrem.
(Por outro lado, pude saber que eu era várias coisas: vieram me dizer. Eu nem sabia, mas ainda bem que me avisaram.)
Talvez nem artista eu seja, porque um artista vive do que faz, dirão. Drummond, Guinga, Paulo Bruscky e Bukowski viveram/vivem também de outras coisas, mas todo mundo sabe que esses são artistas, de fato – aliás, creio que alguns apostariam que estes viveram/vivem única e exclusivamente de suas artes, pois é o que parece. E muitos de meus amigos artistas, também, se sustentam com outras coisas, além da arte. Mas eu não sei se posso me classificar assim, visto que não sou Bukowski, nem Drummond, nem Paulo Bruscky, nem Guinga, nem meus amigos.
Agora falando sério: na mesma medida em que acho lamentável o interesse de terceiros em nos classificar (principalmente em nos desclassificar, na verdade), penso que quero cada vez mais não ser o que já tanto disse que sou. Não sou atriz nem professora de canto. Não sou estudante de pós-graduação coisa nenhuma. Não sou nada além de alguém que canta. (Acabei de descobrir que melhor do que ser uma cantora é ser alguém que canta.)
E por que diabos falar nisso, então? Era mais fácil deixar isso para lá e simplesmente não me classificar como nada, parar de mentir e vida que segue. Mas acontece que escrever é bom para organizar os pensamentos, daí a vontade de vir aqui um pouquinho e falar sobre essa besteira.
Como mencionei, a vontade de classificar vinda dos outros existe. Mas a vontade de autoclassificação é muito maior. Afinal, o mundo pede isso. Quem é você? Se você for pouco, não serve. Só isso? Cadê a polivalência, a versatilidade? E, engraçado: é preciso polivalência e especialização, ao mesmo tempo. Conheça muitas coisas, e muito bem todas elas. Bem, na verdade o mundo (=sistema) tem o direito de pedir isso. Bobos somos nós, que obedecemos. Era só deixar o “mundo” falando sozinho, com suas exigências impossíveis (estagiário com experiência etc.). 
Por que a gente cai nessa de que tem que ter diversas vírgulas na hora da apresentação – cantor, produtor, VJ, influencer, redator, multiartista? Sério, já me peguei algumas (várias) vezes pensando que eu era pouco, muito pouco, graças a esse parâmetro aí. Felizmente cheguei à conclusão de que eu só era uma coisa, mesmo, se tanto, e isso me deu um alívio danado.
Porque, na verdade... Penso que somos uma grande quantidade de coisas. Mas não sei se elas servem para o currículo. Acho que não. E não sei se elas precisam ser ditas. Acho que trata-se de uma tentativa de conquistar respeito (algo que não deveria ser conquistado, e sim distribuído livremente entre todos, sem distinção). Mas, como este é um material escasso, vem essa necessidade (minha e de tantos) de provar algo a alguém. Fica sendo uma pequena briga: “Se você por acaso está pensando que não sou porra nenhuma, agora aguenta: sou isso, isso, isso e isso. E isso também. Durma com esse barulho”.
E por que a gente não seria assim? Competitividade é a palavra de ordem. Por que não nos sentiríamos inseguros? Não temos motivos para carregar um sentimento de confiança. A qualquer momento pode vir alguém querendo reduzir nossas convicções a pó. Com qual intuito, vai saber. Ou melhor, sabemos: o mesmo intuito que temos quando vamos até o outro com o propósito de reduzir a confiança dele a pó.
Não estou pregando a falsa modéstia, nem achando que é preciso esconder nenhum fato. Temos mesmo que reconhecer nosso próprio esforço e as vontades que conseguimos levar adiante, temos mesmo que sentir satisfação por termos alcançado tanto. 
Mas não acho (não mais) que estar satisfeito implique avisar a terceiros sobre isso. Ser ou fazer independe de alguém saber disso. Sendo noticiada ou não, a coisa está acontecendo.





quinta-feira, 31 de maio de 2018

(Não) quero ser blasé





Qual seria o problema de quem considera tudo ridículo? Seria uma admiração mal resolvida por quem consegue levar adiante uma ideia ou um jeito de ser? Seria algum tipo de rancor por quem banca ser o que é?  

Lembro de achar estranho e um pouco constrangedor Fred Schneider e o B-52’s. Que diabos era aquele cara cantando daquele jeito? E dançando daquele jeito? Tempos depois, consegui admitir para mim que aquilo tudo era apenas fascinante, mesmo. Os vocais de Kate Pierson e Cindy Wilson em “Rock Lobster” eram tão estranhos quanto ótimos. Tudo aquilo era muito bom, e a questão era só me acostumar com coisas boas.

E vi esse fenômeno acontecer diversas vezes: algo que estranhava bastante no início logo depois se tornava um vício. Essa rejeição inicial geralmente acontecia quando algo que eu via ou ouvia era “muito ousado pro meu gosto”, daí demorava um pouco para digerir. Mas logo depois eu estava amando aquilo de que antes eu estava rindo. E, hoje em dia, inúmeras coisas que eu considerava admiráveis, cool, se tornaram apenas ridículas (ex.: fazer o que todo mundo está fazendo, mesmo sem gostar ou querer).

A gente vai crescendo e entendendo esse tipo de coisa, mas a ridicularização de tudo e todos continua aí, firme e forte, com seus dedos apontados, rindo, debochada. E este ato, por mais que saibamos que é uma besteira, pode ter um efeito bem ruim: o de conseguir fazer com que o ridicularizado acredite que o seu jeito, ou aquilo que ama/faz, de fato talvez seja mesmo um pouco desprezível e deva ser repensado. O cínico -ridicularizador pode ter este poder. (Cinismo é visto como algo admirável. O descoladão geralmente é cínico-blasé. Já reparou?)

E, como a ausência de cinismo dá um sabor de ingenuidade, esta característica acaba sendo vista por alguns como burrice, coisa de gente pouco vivida. A espontaneidade, esta opositora do cinismo, muitas vezes leva alguém a ser “o estranho” do grupo. Aquela pessoa da tchurma que não tem o hábito de ser charmosamente neurastênica, que fica um pouco à margem desse tipo de comportamento (lembrou?), rapidamente se torna “a bobinha”. Aos olhos dos espertos.

Acho que é a ausência do cinismo que nos dá nossa essência. Livre do cinismo somos nós mesmos, e únicos, como todo ser humano é. Daí a gente acaba sendo estranho do jeito que deve ser, o tal do “autêntico” (coisa que fazemos questão de não ser).

Às vezes o cinismo vem para “fazer uma graça”, piadinhas e tal; às vezes vem apenas por uma questão de sobrevivência, mesmo – convenhamos: parece bem mais fácil ser apenas mais um em uma multidão de sarcásticos do que ser aquele que vai ser zoado de tempos em tempos por não ser como o rebanho. O cínico aprendeu com alguém a ser assim para enfim ser respeitado e levado a sério. Pena que não se respeitou!

Lembro de certa vez que comentei com alguém sobre um filme que abordava a amizade entre dois homens, e percebi, em certo momento, que enquanto eu falava essa pessoa fazia um sinal com o dedo do meio (“dedo no cu”) para que outra pessoa, também à mesa, visse e risse. Detalhe que o filme por acaso nem era sobre um casal gay, mas sobre dois amigos, mesmo. Concluo, graças a esse e outros trocentos casos quase idênticos: que trava nós temos com as coisas boas e sensíveis. Que mania chata nós temos de ridicularizar qualquer tema que não seja a vida alheia, o futebol, o trabalho; os genéricos de sempre. Estamos sempre fugindo dos assuntos mais importantes.   

Talvez muita coisa se resolva com um bom destravamento, mesmo. Creio que seja apenas esse o caso, na maioria das vezes. Vejo que, parando de se reprimir, a coisa flui e nada mais parece tão risível, tão desprezível. O riso fica mais compartilhado, e menos direcionado à humilhação. 
O bom é perceber que não estamos aqui para agradar a ninguém, e que seremos, sempre, ridículos. A liberdade de não ligar para isso (ou ligar bem pouco) é impagável. Penso sobre o quanto tentei agradar a quem me cercava, a vida inteira. Sem cessar. O incrível é: nunca deu certo. E felizmente não deu certo. Imagina que péssimo se eu tivesse aberto mão de quem sou, desde sempre, e tudo fluísse às mil maravilhas? Eu só poderia entender que a vida estava dando o recado de que devemos, sim, nos moldar aos outros e desistir de quem somos. Felizmente, a didática da vida foi bem clara.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Alegria, alegria


Drummond e Elke

Em uma das escolas onde estive conheci uma pessoa muito alegre. Trabalhava, inclusive, como palhaça. Esta figura, com aquela força que os alegres têm, estava sempre animada e aberta às novas amizades que todos nós estávamos fazendo por lá, uma turma de alunos recém-chegados. Deixando claro, não era aquela animação que não ouve o outro, histriônica e egocêntrica; a alegria dela era uma forma de chegar mais perto de quem a cercava, e pelo coração, mesmo. Havia um rapaz, porém, que nutria especial cisma por esta pessoa (“seu sorriso é falso”, disse ele a ela; “ninguém está sempre feliz daquele jeito”, disse ele sobre ela). A alegria dela o irritava.

Não sei se existe alguma pessoa que seja alegre e não tenha ouvido este tipo de comentário-ataque. Acho que não. Ao mesmo tempo em que a alegria é algo fascinante, pode despertar a irritação da galera que acha que este sentimento-comportamento é coisa de gente burra, vazia e pouco politizada.

A escritora Gretchen Rubin fala sobre como teve contato com pessoas conhecidas por sua animação constante, e disse que, entrevistando-as, percebeu o quanto muitas delas cultivavam aquele sentimento com esforço e dedicação. Talvez tivessem, sim, uma natureza alegre, mas isso não se sustentava apenas por ser algo inato. Era preciso, dia após dia, cuidar daquele estado “natural”, fazendo-o sempre presente – do contrário, a vida o engoliria, sem dificuldades.
Tenho um amigo que carrega esta característica. Sua animação é visível, e acaba sendo contagiante. Mas, tendo tido bastante contato com ele, vi que aquela era uma opção, uma filosofia de vida – e, mais do que isso: uma arma para passar por este mundo de uma forma menos traumática, eu diria. Ele faz um esforço para que esta alegria esteja com ele em todos os ambientes onde está. Esta é uma característica que faz com que tantas e tantas pessoas comecem a rir assim que o veem, imediatamente.
Acho esta influência da alegria algo muito poderoso. Me faz lembrar de um caso que Elke (Mulher Maravilha) contou, em uma entrevista, sobre seu encontro com Drummond:


Uma vez, quando eu tinha 30 e poucos anos, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana eu dou de cara com Carlos Drummond de Andrade. Falo com ele? Não, não tenho coragem. Aí ele veio falar comigo. Ele me abraçou, me abraçou e falou: “Elke, eu sou doido por você!” (...) “Pois é, você sabe que eu sou fechado, sou uma pessoa triste, taciturna. E quando estou bem triste, ligo a televisão, te vejo, fico alegre, fico até feliz.


Gostei muito de saber desta fala dele. Eu acho que as pessoas alegres têm exatamente este efeito em nossas vidas: apenas a presença delas no mundo é um alívio. Não precisa ser nem pessoalmente – se for, melhor ainda –, mas conhecê-las faz um bem danado. Manter perto de nós pessoas animadas com as possibilidades do mundo pode, quem sabe, nos contagiar. A mim, sempre contagia. Não falo – novamente – de egocentrismo, mas do exato contrário. O alegre muitas vezes é um generoso, querendo dividir o que sente; e também lutando para não esmorecer e não se deixar levar pela roda viva do desânimo.
(Drummond me fez notar que Elke também sempre me faz sorrir, mesmo não estando mais aqui. Sempre que vejo ou leio suas entrevistas, uma sensação boa me vem, e um sorriso também, de imediato.)

Muitas pessoas admiráveis já falaram sobre isso. A antropofagia oswaldiana me abriu os olhos para o fato de que a alegria é a prova dos nove. Daí o teatro de Zé Celso me fez presenciar e sentir isso. E Amir Haddad me fez ter certeza absoluta desta afirmação, quando pude vivenciar sua teatralidade carnavalizada, exagerada, colorida e anárquica. Confundir alegria com falta de discernimento ou consciência política é ser (aí, sim) bastante raso. A alegria pode revolucionar intimamente – e o pessoal é político. Creio plenamente nisso. 
Acho importante ressaltar que me identifico muito com os taciturnos, fechados, tímidos e reservados; e cada vez mais. Mas não acho que estes sejam os opositores do alegre; não necessariamente. Acho que tanto um quanto o outro desejam entender o mundo ao máximo, viver intensamente; ambos querem ter uma existência distante da mediocridade. Porém, buscam isso de formas distintas. Além do mais, o alegre não é alegre o tempo todo e inevitavelmente tem seus momentos de escuridão; e a pessoa reservada também tem seus momentos de euforia e leveza. 
Eu diria que o introvertido Drummond, o poeta melancólico das eternas dores itabiranas que se apaixona pela alegria de Elke, é um exemplo perfeito deste entusiasmo que todos nós desejamos ou temos dentro de nós, e que às vezes transborda na presença de uma figura ensolarada. 

segunda-feira, 14 de maio de 2018

A cara dos caretas




Um dia eu acordei de manhã, fui no meu armário e vi que só usava preto. Eu pensei: “Nada disso”. Peguei uma calça e rasguei toda, botei uma meia roxa, enchi a cara de batom, desgrenhei o cabelo e fui para a rua. Levei porrada. Meu dente entrou pelo lábio, tenho a marca até hoje. Fui parar no [hospital] Miguel Couto. Mas pior foi tomar cuspida na cara, como aconteceu em Ipanema.


Essa declaração aí de cima é da Elke Maravilha. Já faz alguns anos que li esta entrevista, mas nunca esqueci deste trecho, onde ela descreve como começou a se vestir daquele jeito inconfundível – e as consequências disso. Quando pensei em escrever sobre caretice, imediatamente lembrei desta fala.
Eu defino caretice bem por aí: para mim o careta é este ser humano que dá um soco em uma pessoa pelo simples fato dela ser diferente, excêntrica – ou seja lá a palavra que venhamos a escolher para definir a indefinível Elke – e fazer o que bem entende com sua vida (e suas roupas). Minha imagem de caretice é essa. Nada a ver com uma pessoa certinha, quadrada ou abstêmia – não é isso o que me vem à cabeça para falar sobre o assunto. Caretice é algo muito mais danoso, porque tem a ver com a invasão da vida do outro. Também é rir, pelas costas ou pela frente, das escolhas daquela ali, do jeito ingênuo deste aqui, da voz aguda daquele lá. A caretice esbarra na violência verbal (e por vezes na física, como vimos) e invariavelmente cai no desrespeito.
O careta não aguenta a vastidão do mundo, o tamanho das coisas. Todo e qualquer um que for “diferente” é piada: o sotaque de quem vem de outra cidade, a forma de se vestir daquela menina ali, aquele rapaz que dança desbragadamente (que tal dançar junto, ao invés de rir?). Acho que não ser careta é algo que poucos conseguem, visto que temos uma sociedade que nos empurra para a normopatia o tempo todo. Até dá para ser diferente, mas desde que isso seja aprovado pela moda (certa vez uma amiga comentou, percebendo a ironia da coisa: “As mulheres até podem adotar o visual grisalho, desde que este seja pintado – cabelo branco natural, jamais”). Existe o diferente que a sociedade permite, e o que ela não tolera.
Lembro que tive a – péssima – experiência de ser mesária em 2016, e uma cena me marcou. Em certo momento, uma moça entrou com vários adesivos de seu candidato colados em sua roupa – e um especial, colado em sua testa. Todos os mesários foram respeitosos enquanto ela estava ali (bem, ao menos isso), mas após sua saída a patrulha ficou falando sobre o assunto por uns bons minutos, indignada com a atitude. Fiquei pensando: é isso o que nos está chocando? Um adesivo na testa? (Enquanto isso, no mesmo dia, à tarde, rolou um tiroteio intenso no Rio Comprido, perto de onde estávamos – taí algo chocante e absurdo, para quem estava precisando.)
Eu penso que é partindo deste tipo de coisinha (a implicância com o sotaque do outro, por exemplo... Perdoem a repetição, mas é o meu exemplo preferido) que começamos a nos encaminhar para coisas mais graves. Na minha percepção, rir da forma como o outro se expressa é desrespeito (não é?), e o que é o preconceito se não exatamente isso?
E aí vem a parte mais curiosa: os mais descolados, os gente boa, os garotões, são os piores. O lelek (ou a patricinha), provavelmente, tem a mente mais fechada que a fofoqueira do bairro. Ele é aquele que, pode apostar, cedo ou tarde vai se revelar como o conservador que sempre foi. Sempre observo essa discrepância entre a capa de libertário e o pensamento provinciano. Talvez a vizinha faladeira, que casou cedo e trabalha em casa, seja bem mais acessível e dialogável que muitos desses que já rodaram o mundo viajando (e não aprenderam quase nada com isso). 
Falando especificamente sobre juventude, agora, penso que esta não faz com que uma pessoa carregue pensamentos novos, pelo simples fato de ser ou parecer jovem. Muitas vezes ela carrega, até, uma vontade danada de se enquadrar e ser apenas mais uma, indiferençável, na multidão. E um idoso pode ser muito mais ousado do que tantos e tantos jovens adultos.    
Acho que essa caretice dos “liberais” – que se veem como pessoas de mente aberta mesmo quando implicam com a aparência do outro (“brega”, “cafona”, “caipira” etc.) – consegue ser ainda mais intragável do que aquela que todo mundo condena, todo mundo vê, todo mundo acha absurda e antiquada. A caretice dos descolados, do mundo hipster, roqueiro, surfista, do mundo das artes, dos moderninhos etc. é mais perniciosa ainda porque é camuflada. Condena quem é diferente, olha torto e ainda acha que pensa fora da caixa.
E a Dona Candinha é quem leva a fama.



quarta-feira, 2 de maio de 2018

O paraíso são os outros

Gosto muito de uma frase de Gianfrancesco Guarnieri que encontrei em sua biografia-depoimento Um grito solto no ar: “Todo autodidata, creio eu, sente alguma insegurança em relação ao seu trabalho, e está sempre em busca de alguém que possa dar uma benção”.
Concordo plenamente. Ao mesmo tempo em que o pensamento antropofágico (só me interessa o que não é meu) é maravilhoso, há outro pensamento, extremamente nocivo e de sentido contrário a esse, que prega: o paraíso são os outros.
É o outro que vai dizer: “Você presta”. Porque se nós tivermos essa consciência de que prestamos, grande coisa: isso não quer dizer nada, não tem valor algum. Se o outro aprovar algo nosso, eba, vitória! Mesmo que ele aprove exatamente aquilo que fizemos de mais medíocre, o simples fato dele ser outro já é uma grande conquista. Pode ser qualquer um, o que importa é não ser a gente.  
Percebi isso, acho, vendo o meu release (pra que diabos a gente faz isso?): tudo o que coloquei em meu currículo musical foi “cantei com fulano, trabalhei com sicrano, participei do CD de beltrano”. Ok, e quanto ao que eu faço dentro do meu próprio trabalho? Não tem valor, uai. Se eu for uma artista que basicamente cria, grava as próprias canções e resumidamente trabalha em cima do próprio trabalho (não participando de outros), não tenho legitimidade alguma. Quase não existo.
Estou exagerando? Pode ser, mas infelizmente não estou mentindo (eu aumento, mas não invento). Lembro que no Sonora 2017, do qual participei, a cantora e produtora Mô Maiê me apresentou antes que eu entrasse no palco, e percebi: vixe, que release ruim! Não falei nada relevante sobre mim, citei um bando de (outros) nomes e só. Quase uma carteirada. E certamente esta percepção se deu porque logo antes a cantora Amanda  Gasparetto havia sido apresentada, também, e achei linda a forma como ela usou o próprio release para descrever suas canções, mencionando o mar como principal inspiração. (Não quero cagar regra criar regras, tampouco: apenas entendi que me identifico mais com essa abordagem sem pretensões de currículo lattes.) 
Desde que me mudei para um lugar ligeiramente afastado das efervescências, comecei a pensar mais sobre autonomia, solidão, autossuficiência, a influência dos grupos sociais, a necessidade de se afastar um pouco e as benesses disso. Aproveitando esta grande oportunidade de ficar mais comigo, pude compreender que, até então, para mim, o paraíso sempre havia sido os outros. Era o outro quem me aprovava, era o outro quem me dizia se eu existia ou não. Sempre foi o outro quem me dava permissão para ser isso ou aquilo e ditava a forma como eu deveria tocar meu trabalho. 
E ninguém sabe melhor sobre nós do que nós mesmos. Mesmo que a gente não consiga se definir (em palavras), a gente sabe muito bem o que bate mal e sabe muito bem quando está se desrespeitando, mesmo que finja estar tudo ok (para não criar o temido climão, sabe? Aliás, acho que está na hora da gente fazer um Manifesto Pró-Climão. Falando por mim, estou deixando passar uma quantidade abissal de absurdos, preconceitos e desrespeitos apenas para não criar uma atmosfera ruim. E acho que às vezes é necessário fazê-lo – tão difícil quanto necessário).
Seguindo o mesmo pensamento de “o paraíso são os outros; nós somos um inferno” (eita, essa ficou forçada... Sartre que me perdoe), também observei o quanto vemos nosso esforço, as conquistas que se dão graças à nossa proatividade, como menores. A produção que nós mesmos fazemos não tem o mesmo valor do que aquela produção que o outro faz e nos convida. É neste momento do convite que a gente acha que está sendo minimamente reconhecido, enfim. “Me procuraram”,  “me chamaram”, “vieram atrás de mim” é bem mais charmoso do que “fiz um show em minha casa” ou “liguei para lá e consegui uma data”. Mais uma vez exagerando um pouco: diria que vemos quase como uma queimação de filme quando nos oferecemos para algo. Ao invés de sentirmos orgulho pelo que conseguimos através de nosso próprio esforço, ficamos meio aborrecidos por só conseguirmos as coisas desse jeito.
Receber convites é uma delícia. Não ter que suar, não precisar correr atrás, simplesmente ir lá e tocar é um verdadeiro presente. Mas só assim tem valor?
Pessoalmente, no que diz respeito a shows, tenho evitado a fadiga. Por isso, não tenho mendigado pedido datas para locais que sei que vão mandar aquele “não” gostoso – seja ele um não verbal/textual; seja ele uma ausência de resposta. E por quê? Porque já fiz isso durante seis anos com minha antiga banda e já tive minha cota (além de ser um flashback danado – parece que o tempo não passou –, é uma coisa bem desgastante, e também é uma situação onde o artista se coloca como menor do que um espaço, um ambiente, uma construção – que parada bizarra! – ou menor do que um produtor/produtora, enquanto sabemos que isso de pessoas maiores ou menores é uma mania de hierarquização insana). Atualmente só acho que vale tentar fechar datas em lugares onde há um diálogo bacana e sei que se rolar um “não” é porque não há data, mesmo. Aqui no RJ e em São Paulo só conheço quatro lugares assim, onde há uma abertura verdadeira, sem que seja necessário implorar por uma oportunidade (dois são espaços da prefeitura com administradores acessíveis – pois, pasmem, há espaços da prefeitura geridos por pessoas que agem como se aquele espaço não fosse público –; os outros dois são casas cujos donos são pessoas verdadeiramente abertas. Nestes casos, não vejo hierarquização). Contei isso tudo neste parágrafo porque achei importante dizer que minha ânsia atual não tem sido a de sair por aí catando, alucinadamente, lugares para tocar – mas se fosse, que bom para mim, e que eu tivesse a decência de escolher lugares bacanas (é essencial manter a autoestima e não alimentar este círculo vicioso onde os artistas constantemente se rebaixam).
  Está cada dia mais claro para mim que os outros são ótimos, mas estão longe de ser mais importantes do que eu no que diz respeito a mim mesma. Eles, mesmo que queiram, não poderão suprir nada de essencial em mim. Nada que me esteja faltando, que eu saiba que estou me devendo.
Não adianta querer a salvação (de quê?) oferecida pelo outro, porque os problemas fundamentais somos nós que resolvemos. Continuo achando que o outro tem o olhar privilegiado sobre nós e pode ajudar muito com opiniões (quando solicitadas), mas o grau de importância do que ele fala jamais será maior do que a reflexão que fazemos sobre nós mesmos. E continuo amando receber convites, pelos quais sou muito grata. Apenas não estou mais achando interessante me colocar na posição de pedir favores, pedir oportunidades, esperar ansiosamente por respostas (que nunca virão). Prefiro investir minha energia com coisas que me trazem satisfação sempre – e a criação é uma delas.